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ENTREVISTA | RMB: grande centro de pesquisa nuclear e um projeto estruturante e de arraste

(22/06/21) À frente do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), um empreendimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), sob responsabilidade e coordenação da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), contando com parcerias técnicas da Amazônia Azul Tecnologias de Defesa S.A. (Amazul) e do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP) e do apoio do Governo do Estado de São Paulo, o coordenador técnico José Augusto Perrotta ressalta que o futuro reator de pesquisa dará início a um projeto estruturante e de arraste para o desenvolvimento da tecnologia nuclear no País. Em seu entendimento, o mesmo ocorreu nas décadas de 1950 e 1960, quando os reatores IEA-R1, TRIGA IPR-R1 e Argonauta entraram em operação, respectivamente, no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN) e Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), todas instituições vinculadas à Cnen.

"Os reatores de pesquisa desempenharam um papel muito importante no Brasil, pois geraram institutos de pesquisa e desenvolvimento da tecnologia nuclear. Eles formam gerações de técnicos, desenvolvem tecnologia e propiciam a manutenção do conhecimento. Tudo isso proporciona inovação, produtos e serviços para a sociedade. O RMB é mais um desses institutos que vai ser erguido. Começamos com um reator de pesquisa de 30 megawatts (MW), mas haverá toda uma infraestrutura técnico-científica por trás", explica.

Como estampado no nome, o RMB terá muitas finalidades: produção de radioisótopos para Saúde (tornando o Brasil autossustentável na Medicina Nuclear), Indústria e Meio Ambiente; teste e qualificação de materiais e combustíveis para reatores de potência; e estudos científicos e tecnológicos com feixe de nêutrons em materiais, dentre tantas outras. Sua infraestrutura contará com laboratório de processamento de radioisótopos, laboratório de feixe de nêutrons, laboratório de análise pós irradiação, laboratório de radioquímica e análise por ativação com nêutrons. No futuro poderá contar, por exemplo, com laboratórios dedicados a pesquisas de utilização das radiações em benefício da sociedade, laboratórios de lasers de alta potência, laboratório para estudo de tecnologia da fusão nuclear, bem como aceleradores de partículas com alta energia para produção de radioisótopos e pesquisas.

Para construir o RMB em um prazo de cinco anos, contudo, é necessária a garantia de fluxo de caixa na ordem de R$ 500 milhões por ano - o montante total para sua conclusão é de US$ 500 milhões. Investimento não apenas pelo viés social e aplicações científico-tecnológicas, mas também porque o empreendimento tem potencial de ser autossustentável financeiramente, ou seja, independente de recursos do Tesouro Nacional. Confira a entrevista com o coordenador técnico José Augusto Perrotta abaixo.

Como o RMB irá se inserir dentro do Programa Nuclear Brasileiro (PNB)?

Será um grande centro de tecnologia nuclear da Cnen em Iperó/SP, construído ao lado do Centro Experimental Aramar da Marinha do Brasil. O RMB não será apenas um reator que produzirá alguns produtos, é efetivamente um projeto estruturante e de arraste para o desenvolvimento da tecnologia nuclear do País. Será um dos principais reatores dessa classe no mundo, com possibilidade de atender autonomamente o País em radioisótopos e dar suporte à tecnologia do combustível nuclear aplicado às usinas nucleares e aos reatores de propulsão nuclear.

Em média, o Brasil realiza dois milhões de procedimentos de Medicina Nuclear por ano, entre tratamento e diagnóstico. Qual a expectativa de aumento com o RMB em operação?

Hoje importamos radioisótopos da Rússia, Europa, África do Sul. O principal deles - cerca de 80% - é o molibdênio-99 (99Mo), que gera o tecnécio-99m (99mTc). Outros radioisótopos são importados para terapia, como, por exemplo, o Iodo-131 (I-131) e Lutécio-177 (Lu-177). Produzindo no RMB, o material terá uma atividade específica muito maior se comparado com o mesmo material que chega importado, pela questão de tempo gasto com a logística de entrega. Seremos mais efetivos e poderemos oferecer uma quantidade muito maior de radioisótopos. A Medicina Nuclear será expandida no País. Além disso, o preço do radioisótopo produzido pelo RMB não estará sujeito à variação cambial ou a políticas internacionais. Em torno de um quarto dos dois milhões de procedimentos de Medicina Nuclear no Brasil são feitos no SUS e três quartos na iniciativa privada. Queremos mudar essa lógica. É um papel social do RMB, que democratizará o acesso à Medicina Nuclear no Brasil. Nossa intenção, como ente do governo, é atender a sociedade. Importamos hoje cerca de 500 Curies (Ci) de 99Mo por semana, e o projeto está se estruturando para iniciar com o volume de mil Curies/semana, podendo expandir para dois mil Curies/semana. Estamos falando em até quadruplicar. A produção mundial é de cerca de 10 mil Curies/semana. Assim, também poderemos eventualmente exportar radioisótopos. Hoje dependemos de orçamento do governo, mas com o RMB poderemos mudar a governança. O recurso gerado além cobrir os custos operacionais poderia ser reinvestido em pesquisa, criando um ciclo virtuoso de ciência, tecnologia e inovação. Realizamos um estudo de viabilidade econômica que demonstra que geramos produtos à sociedade com autossustentabilidade financeira. Podemos ser independentes do Tesouro Nacional.

Em sua visão, o RMB será uma ferramenta de formação e de manutenção de recursos humanos no setor nuclear brasileiro?

Será importantíssimo para manter o conhecimento da tecnologia nuclear no Brasil. Muito investimento foi feito lá atrás e não pode ser perdido. O Ipen, por exemplo, já teve 1.600 funcionários em atividade e hoje tem menos de 600, sendo que metade pode se aposentar. Eu mesmo tenho 42 anos de experiência. Não se forma pessoas de uma hora para outra. Temos alunos de pós-graduação, mas não podemos fixá-los no instituto, só mediante a realização de concurso público, mas não se abrem concursos há muitos anos. Nós somos patrimônio do Estado e da sociedade. A ciência e tecnologia nuclear são estratégicas e fundamentais para o desenvolvimento do País. O RMB é um elo para o futuro. Temos que mudar a forma de gestão. O foco é atender a sociedade. Infelizmente, altos dirigentes muitas vezes não têm a assessoria correta para demonstrar isso. O RMB motivaria a área nuclear, com toda essa estrutura de pesquisa e desenvolvimento e atendimento à sociedade. Mas, infelizmente, estamos perdendo tempo. Falta, portanto, um olhar estadista para a questão.

Em que passo está o RMB e quanto investimento precisa ser feito para construí-lo?

O projeto começou em 2008 e deveria ter terminado em 2014. Mas não tivemos recursos até 2010 e nem a disponibilidade necessária a partir de 2014. Em paralelo, fizemos um acordo com a Argentina. Ela está construindo o Reator RA-10, que é semelhante ao RMB. Os argentinos fizeram o investimento e o reator RA-10 estará totalmente pronto em dois anos. O Brasil é detentor do domínio do ciclo do combustível. Um bom exemplo dessa nossa capacidade é o reator de pesquisa, unidade crítica, IPEN/MB-01, que entrou em operação em 1988, e teve o núcleo trocado para simular os parâmetros do RMB. Isso é pura Física de Reatores. Fizemos o enriquecimento do urânio no laboratório do CTMSP em Aramar, fabricamos 19 elementos combustíveis no Ipen/Cnen-SP, projetamos e licenciamos o novo núcleo do reator com a capacidade técnica do Ipen/Cnen-SP. O novo núcleo do reator ficou crítico em 2020. É pura tecnologia nacional! São poucos países que conquistaram tudo isso. O RMB terá também a capacidade de irradiar tipos de combustíveis HALEU para pequenos reatores modulares, os SMRs. Para construção do RMB são necessários US$ 500 milhões. No fim deste ano terminaremos o projeto detalhado do reator e já elaboramos o projeto básico de todo o empreendimento. Desde 2008, gastamos R$ 280 milhões, empregados na fase de projeto de concepção, projeto básico, projeto detalhado, licenciamento nuclear e ambiental e desenvolvimento das instalações para fabricação dos combustíveis para o reator. Temos a Licença de Instalação (LI) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), fizemos Estudo de Impacto Ambiental (EIA-Rima) e audiências públicas. No órgão regulador nuclear (Diretoria de Radioproteção e Segurança Nuclear - DRS/Cnen), obtivemos a Licença de Local (LL) e agora discutimos a Licença de Construção (LC) do reator e esperamos obtê-la até o fim do ano, no mais tardar no início de 2022. Já temos o terreno de dois milhões de m² à disposição em Iperó/SP. Poderíamos ter começado a terraplanagem no local, mas infelizmente não recebemos os recursos financeiros.

Qual a previsão de entrada em operação do RMB?

Com todo o recurso disponível, em cinco anos finalizamos o RMB, ou seja, seria 2026. Contudo, não tivemos aporte em 2021. Se em 2022 a situação for a mesma, não faremos nada. O MCTI depende do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Dos R$ 280 milhões que investimos, R$ 250 milhões vieram desse fundo. O RMB custa o mesmo que custou o Estádio de Manaus utilizado na Copa do Mundo de 2014. Dificilmente você vai para Manaus assistir um jogo, mas com certeza usará algum radiofármaco na vida. E esse radiofármaco pode faltar quando você precisar, porque não tem o RMB. O FNDCT começou a diminuir seus repasses em 2014 e agora está fortemente contingenciado. Ele representa recursos de R$ 5 a R$ 6 bilhões por ano ao MCTI. O RMB precisa de R$ 500 milhões anuais para ter fluxo de caixa contínuo, para ser construído em cinco anos. Anualmente, é um décimo do valor do FNDCT. A verba do MCTI deveria ser também concentrada em grandes projetos. Havia uma promessa de aporte de R$ 750 milhões do Ministério da Saúde no governo passado, mas não se concretizou. Outras pastas têm interesse no RMB: Defesa, Minas e Energia, Agricultura, Indústria. As aplicações nucleares são inúmeras, mas o maior interesse certamente é dos ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia. Eles dão o apoio político, mas não se traduz em apoio financeiro.

Gostaria de dar uma palavra final?

Não podemos esmorecer. Eu estava na reunião de criação da Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben) ocorrida em 1982 no Clube de Engenharia, no Rio de Janeiro. Na época, trabalhava em Furnas. Participei das equipes de avaliação da criticalidade de Angra 1. É importante a Aben participar desse processo. Associações como ela são as guardiãs da área nuclear brasileira. Se nós do setor não lutarmos, ninguém vai lutar pela tecnologia nuclear. Não podemos abrir mão do conhecimento da ciência e da aplicação da tecnologia nuclear de maneira autônoma no País. É um erro muito grave não considerar essa tecnologia como de importância e de sustentabilidade para o futuro. A ação da Aben e das demais instituições da área é fundamental. O RMB vai ser mais um instituto da Cnen. Um centro de arraste, de sustentabilidade do conhecimento e estruturante para o futuro da área nuclear no Brasil. Mantendo e expandindo o conhecimento que adquirimos até hoje.

Associação Brasileira de Energia Nuclear

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