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ARTIGO | É Feio. Incomoda. Machuca

(11/03/21) Neste 11 de março o mundo lembrou os 10 anos do terrível terremoto de Tohoku. Com magnitude 9 na escala Richter, foi o mais violento já registrado a atingir o Japão. No entanto - como este autor previu há muito tempo - o noticiário desse aniversário foi dominado pelo chamado "acidente de Fukushima", que, na verdade, ocorreu a partir do dia seguinte. (Fica a impressão de que, com o tempo, findarão por noticiar que a usina provocou o terremoto.) O saldo oficial do terremoto foi de 15.899 mortos e 2.529 desaparecidos. Entre os mortos, exatamente 1 em função da radiação recebida na usina. Esse morto (embora a origem de sua morte tenha tudo para ser questionada) teve um impacto muito superior ao dos outros 15.898. Como esses não podem ser usados como fundamento contra terremotos, aquele se transformou em mais um símbolo contra a construção de reatores nucleares.

"Mais um", mas, a bem da verdade, mais um do mesmo. Desde a década de 1960 - coincidindo com o movimento denominado "contracultura" - o mundo tem testemunhado uma maciça mobilização contra tudo que tem o adjetivo "nuclear". Exceto - e olhe lá! - a medicina nuclear. (Logo após o acidente de Chernobyl, o CERN, o maior centro de pesquisas de partículas subatômicas do mundo, quase perdeu o "Nuclear" de seu nome oficial.) Foi uma mudança radical na percepção dessas coisas, já que até o início da década as nações viam o desenvolvimento de seus respectivos setores nucleares com orgulho. Quem se der ao trabalho de pesquisar nos velhos gibis, irá encontrar uma história do Pato Donald de 1957 em que ele participa de um concurso em que o primeiro prêmio é uma mina de urânio.

O que foi que aconteceu? Difícil dizer, mas uma coisa é certa: o setor nuclear não teve qualquer participação. O primeiro acidente digno de nota com um reator comercial teve de esperar até 1979, quando o núcleo do reator nº 2 da Usina de Three Mile Island, nos EUA, derreteu, em função de erros de operação. Esse é considerado, naquele tipo de reator, o pior tipo de situação, embora ninguém tenha morrido. Mas, àquela altura, o movimento antinuclear já estava bem consolidado.

Sete anos e um mês depois, foi a vez do reator nº 4 da Usina de Chernobyl. Um reator inerentemente perigoso, que só poderia existir dentro do dirigismo comunista da velha União Soviética, explodiu durante um experimento mal planejado e mal executado. As primeiras notícias falaram em meio milhão de mortos. A seguir, os números foram baixando, baixando, até chegar aos cerca de 70 oficialmente reconhecidos hoje como vítimas diretas "do pior desastre nuclear da História". E quase 25 anos depois de Chernobyl, ocorreu Fukushima. Quando se comparam os mortos dos dois casos com os 583 do pior acidente aéreo, vê-se claramente que o diabo é bem menos feio do que o pintam. E, obviamente, cabe a pergunta: quantos acidentes aéreos ocorreram entre 26 de abril de 1986 e 11 de março de 2011? Qual o impacto negativo que eles tiveram nas viagens de avião?

Mas os argumentos dos antinucleares não param diante do número de mortos. Eles têm plena consciência de que os números são irrisórios. E ficam meio sem jeito quando alguém lhes lembra o 1,5 milhão de pessoas que perecem a cada ano nas ruas e estradas do mundo, sem que isso impeça que o automóvel seja o objeto do desejo de 10 em cada 10 terráqueos. Existe também a questão do tão decantado "lixo atômico" que, segundo eles, é a coisa mais perigosa que o homem pode produzir, "emitindo radiação por milhares de anos". (A Terra emite radiação e recebe radiação do espaço desde sua criação, o que não impediu que a vida aparecesse e se desenvolvesse. Mas ativistas não querem saber disso.) Esse perigo é mais uma promessa do que qualquer outra coisa, já que nem o mais ativista dos ativistas antinucleares reconhece que alguém tenha morrido, ou sido ferido, ou acometido de uma doença qualquer por exposição a esse "lixo". Mas eles insistem que o "lixo" é perigoso e que, até hoje, não foi encontrada uma solução para seu isolamento. Só que não é bem assim. Aquele país que os ambientalistas consideram um dos paradigmas da sustentabilidade, a Finlândia, está construindo na Ilha de Olkiluoto - onde fica a mais importante usina nuclear do país - um repositório definitivo a 420 metros de profundidade. Essa solução existe há décadas, mas só agora um governo teve a necessária determinação para implantá-la. A esse propósito, uma reportagem de 2017 do New York Times - jornal, como todos os outros, nada favorável ao setor nuclear - tinha como título "A Finlândia mostra aos EUA o que fazer com o rejeito nuclear". A mensagem é clara: se a Finlândia pôde fazer, qualquer um pode.

Outro argumento diz respeito ao custo dos reatores. Realmente, reatores não são baratos. Por outro lado, sua operação é baratíssima. A França, com seus 58 reatores, por exemplo, cobra por kWh bem menos que a Itália, que não tem um sequer. A tão decantada Alemanha, que ordenou o desligamento de todos os seus reatores, tem o kWh entre os mais caros da Europa, de modo que aqueles painéis solares e turbinas eólicas que tanto encantam os defensores do meio ambiente não parecem ter dado o resultado econômico que deles se esperava. Além de levarem à substituição paulatina de reatores por usinas a gás e a carvão, trocando a poluição radioativa virtual "do mal" pela poluição atmosférica real "do bem".

Mais um argumento é a relação entre reatores para produção de energia elétrica e armas atômicas. Qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento de História vê a fragilidade. Para começar, desde o ataque a Nagasaki, ninguém mais se dispôs a usar armas nucleares numa guerra. E ocasiões não faltaram: na Coreia (pela tropa da ONU contra a Coreia do Norte), no Egito (pelas forças combinadas da França e do Reino Unido contra o Egito), no Vietnam (pelos americanos), no Afeganistão (pelas forças armadas soviéticas contra os guerrilheiros mujaheddin)... Além disso, os EUA, a União Soviética, o Reino Unido e a China desenvolveram suas armas antes de ter reatores; Canadá, Alemanha, Japão e Coreia do Sul desenvolveram reatores e nunca tiveram armas nucleares.

Há uns bons 40 anos, uma rede de ópticas de Pernambuco veiculou nas redes de TV uma publicidade que ficou famosa. Um rapaz (que depois se via que era cego) estimulava as pessoas a cuidar da visão, usando óculos. Ele dizia que "tem gente que precisa usar óculos de grau, mas não usa. Diz que é feio; que incomoda; (...) que machuca. Quando a gente não quer, qualquer desculpa serve". Os antinucleares ainda não perceberam que seus argumentos, já bastante cansados, não se sustentam mais. É evidente que, enquanto o cidadão brasileiro tiver direito a uma opinião, eles podem continuar a se opor à construção de reatores nucleares. Só que, em vez de tentar iludir - com o apoio da imprensa - a população com argumentos falaciosos, eles deveriam seguir o "script" do velho anúncio dos óculos. Que digam que reatores são feios; que incomodam; que machucam. Afinal, quando a gente não quer, qualquer desculpa serve.

Autor: Heldio Villar - professor da Escola Politécnica da Universidade de Pernambuco (UPE)

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