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CAPA DA EDIÇÃO Nº 49
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EDIÇÃO Nº 49

O Projeto Nuclear de Álvaro Alberto

Vera Dantas

"A energia nuclear é um caso único na história da ciência brasileira. Pela primeira vez, o Brasil acompanhou uma revolução científica desde o nascedouro até a sua aplicação nos laboratórios. Os cientistas brasileiros acompanharam cada passo do desenvolvimento daquela que é considerada a mais importante descoberta científica desde o domínio do fogo pelo homem primitivo. E, com certeza, a mais importante do século XX, tanto do ponto de vista energético e tecnológico quanto militar e estratégico. Esta inédita conquista científica brasileira deveu-se, em grande parte, ao almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva."

A afirmação é do escritor Guilherme Camargo, em seu livro O Fogo dos Deuses: uma história da energia nuclear: Pandora 600 a.C - 1970 (Contraponto Editora, Rio de Janeiro, 2006). Amparado em ampla documentação, o autor relata a atuação do almirante como representante brasileiro na Comissão de Energia Atômica (CEA) da ONU, à qual presidiu no período 1945-1948, e resgata suas principais iniciativas para o desenvolvimento científico e tecnológico do País. Dentre elas, a criação do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), o intercâmbio com renomados cientistas internacionais e suas infrutíferas tentativas para a obtenção de um acordo com os EUA que atendesse aos interesses do Brasil pelo acesso à tecnologia nuclear. E, ainda, o golpe sofrido com a apreensão das ultracentrífugas para enriquecimento de urânio adquiridas – e pagas – à Alemanha, em 1954.

A seguir, alguns trechos resumidos do capítulo Álvaro Alberto: o Projeto do Brasil Nuclear:

Álvaro Alberto nasceu em 22 de abril de1889, no Rio de Janeiro, descendente de imigrantes portugueses da ilha dos Açores. Ingressou na Escola Naval em 1906 e graduou-se em 1910. Com um histórico escolar excelente - ele foi o primeiro lugar de sua turma -, foi agraciado com o prêmio Greenhalgh, a maior honraria concedida pela escola a um aluno.

Sete anos depois, ele encerrou a carreira militar. Voltou à Escola Naval, agora como professor e pesquisador. Escolheu como área de atuação a química de explosivos, pois pretendia dar continuidade às pesquisas sobre a brasilita, desenvolvida pelo pai. Em 1917, ele já havia criado a indústria de explosivos F. Venancio & Cia, que se transformaria, em 1928, na Sociedade Brasileira de Explosivos Super Rupturita S.A. Super Rupturita foi o nome dado ao novo explosivo que desenvolveu a partir das pesquisas com a brasilita. O produto foi considerado à época o estado da arte em explosivos industriais e competia comercialmente com a dinamite das empresas Nobel.

Em 1922, ele fundou a Sociedade Brasileira de Química. Um ano antes, ingressara na Academia Brasileira de Ciências, a qual veio a presidir em 1935. Foi um dos mais jovens presidentes da instituição, com apenas 46 anos de idade. Em agosto de 1945, Álvaro Alberto apresentou à Academia uma proposta para incentivar o estudo da energia nuclear.

Álvaro Alberto considerava vital o intercâmbio científico com os EUA. Tanto é que, ao viajar aos EUA para participar da primeira reunião da Comissão de Energia Atômica da ONU, uma de suas primeiras providências foi se encontrar com Bernard Baruch, chefe da delegação americana na CEA, a quem propôs um programa de colaboração, pelo qual o Brasil teria acesso à tecnologia nuclear, em troca do fornecimento de matérias-primas físseis. A proposta incluía o intercâmbio de professores, alunos e cientistas com instituições americanas.

Álvaro Alberto foi escolhido para presidência da CEA, que chefiou por duas vezes, até 1948, quando os trabalhos da Comissão foram suspensos.

A participação na CEA foi um dos principais fatores que levaram a Marinha a promover Álvaro Alberto a contra-almirante, mesmo estando ele na reserva. A promoção especial foi concedida através de uma lei específica, aprovada pelo Senado da República em 1948.

Ao deixar a ONU, Álvaro Alberto se empenhou para a criação do Conselho Nacional de Pesquisas. Em 15 de janeiro de 1951, no ocaso do governo Dutra, o Congresso sancionou a lei 1.310, que criava o CNPq e estabelecia o monopólio estatal da energia atômica no Brasil. Sob a presidência de Álvaro Alberto, o CNPq iniciou formalmente suas atividades em 17 de abril de 1951, já sob o governo de Getúlio Vargas.

O almirante atuou em três frentes: no desenvolvimento de recursos humanos, de recursos minerais e na aquisição de instalações e equipamentos no exterior. Durante sua gestão, foram intensificados os trabalhos de prospecção de urânio.

Álvaro Alberto estimulou a industrialização da monazita, dando melhores condições às empresas do setor. Em outra iniciativa para a produção de minérios radioativos, iniciou a construção de uma província atômica em Poços de Caldas, com o apoio do então governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek.

As ultracentrífugas não vieram

Em 1952, Álvaro Alberto convidou para vir ao Brasil alguns técnicos estrangeiros, dentre eles Paul Harteck, ex-reitor da Universidade de Hamburgo e um dos inventores das ultracentrífugas na Alemanha. Harteck emigrara no pós-guerra para os EUA e era professor no Instituto Politécnico de Rennssaeller.

Álvaro Alberto considerava indispensável para o desenvolvimento da energia nuclear no país o domínio da tecnologia de enriquecimento do urânio. Ele soube que os cientistas alemães estavam aperfeiçoando um processo para separar o isótopo 235 mediante a ultracentrifugação do hexafluoreto de urânio. O mais importante é que eles estavam dispostos a fornecer ao Brasil ultracentrífugas semelhantes às que eram utilizadas no processo.

Convencido de que nada se poderia esperar dos EUA na área nuclear, o presidente do CNPq decidiu importar as ultracentrífugas e iniciar um projeto de produção de urânio enriquecido. A aprovação presidencial foi obtida em 25 de novembro de 1953.

Álvaro Alberto começou a negociar a construção de três ultracentrífugas na Alemanha. A negociação foi realizada através dos professores Wilhelm Groth, do Instituto de Físico-Química da Universidade de Bonn, Konrad Beyerle, da Sociedade de Max-Planck Para o Progresso da Ciência, e Otto Hahn, o descobridor da fissão nuclear.

O projeto foi classificado como secreto, e realizado sob o mais absoluto sigilo. Com isso, Álvaro Alberto buscava zelar pela segurança dos cientistas, que estavam trabalhando em uma área vedada pelos Aliados à Alemanha - o país, ainda ocupado, sofria severas restrições no campo das pesquisas nucleares.

O CNPq enviou três químicos à Alemanha, para treinar o manuseio de gases pesados como o hexafluoreto de urânio. O governo do Estado do Rio de Janeiro cedeu o local para o laboratório, em Petrópolis. E, em 21 de janeiro de 1954, o Banco do Brasil depositava US$ 80 mil no Banco Alemão para a América do Sul, importância destinada ao pagamento do material.

Mas as ultracentrífugas, cujas peças tinham sido produzidas secretamente por 14 diferentes fábricas, não chegaram ao Brasil. Foram apreendidas ainda na Alemanha. A apreensão tinha sido ordenada pelo então governador da Alemanha, o brigadeiro inglês Harvey Smith (a Alemanha era governada na época por quatro países, um a cada mês).

Enviado pelo governo brasileiro à Alemanha, Álvaro Alberto procurou Harvey Smith, que lhe informou que quem pedira a apreensão tinha sido o professor James Conant, alto comissário americano. Álvaro Alberto, então, procurou James Conant, que revelou que o pedido para interditar o embarque do material tinha partido da Comissão de Energia Atômica dos EUA. Só quem poderia determinar a liberação dos equipamentos era o novo presidente da Comissão, Lewis Strauss.

Durante quase as duas semanas em que esteve na Alemanha, Álvaro Alberto foi seguido pela polícia secreta das tropas de ocupação.

Álvaro Alberto seguiu, então, para os EUA, onde, acompanhado do embaixador Walther Moreira Salles, se reuniu com Lewis Strauss. Segundo Renato Archer, cada vez que Álvaro Alberto falava sobre o plano nuclear brasileiro, "ele ria às gargalhadas, dizendo que aquilo era uma mera invenção de cientistas, que nada existia de fato. Ele tratou Álvaro Alberto com o maior desprezo".

Em 20 de agosto, foi assinado o acordo entre Brasil e EUA para a troca de trigo por monazita.

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