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CAPA DA EDIÇÃO Nº 49
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EDIÇÃO Nº 49

Almirante de Esquadra Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Junior, diretor-geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha

A propulsão nuclear de submarinos é uma tecnologia dominada por poucos

Almirante de Esquadra Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Junior

O Brasil já detém o domínio do complexo ciclo do enriquecimento do combustível nuclear e está consolidando sua capacidade de projeto e construção de uma planta de propulsão nuclear. "Nossos objetivos estão se tornando realidade", comemora o almirante Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Junior, diretor da Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha (DGDNTM). Futuro ministro de Minas e Energia do próximo governo, que toma posse em janeiro de 2019, ele diz que a energia nuclear pode reforçar a base da matriz elétrica, por ser uma fonte estável e previsível e com a enorme vantagem de contribuir para evitar o efeito estufa. "Com isso, sob as variações de geração elétrica nas fontes hídrica, eólica e solar, a vertente nuclear consegue amortecer tais flutuações, garantindo a estabilidade necessária para a demanda elétrica", afirma ele em entrevista a Vera Dantas, da Brasil Nuclear.

Como é constituída e qual o efetivo da Diretoria de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha?

A Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha (DGDNTM) possui uma força de trabalho composta por servidores civis e militares, da qual participam cientistas, engenheiros e técnicos especializados em diversas áreas do conhecimento.

As seguintes organizações militares estão subordinadas à Diretoria: o Centro Tecnológico da Marinha no Rio de Janeiro, responsável pela gestão de CT&I do Centro de Análise de Sistemas Navais (Casnav), do Instituto de Pesquisas da Marinha (IPqM) e do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira (IEAPM); o Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP), responsável pelo macro gerenciamento da Diretoria de Desenvolvimento Nuclear da Marinha (DDNM) e do Centro Industrial Nuclear de Aramar (Cina), dedicados a execução do Programa Nuclear da Marinha (PNM), do Centro de Desenvolvimento de Submarinos, do Centro de Coordenação de Estudos da Marinha em São Paulo (CCEMSP) e do Batalhão de Defesa Nuclear, Biológica, Química e Radiológica de Aramar.

A DGDNTM também incorpora ao seu inventário a Agência Naval de Segurança Nuclear e Qualidade (AgNSNQ), responsável pelo licenciamento e fiscalização do submarino com propulsão nuclear.

Ao todo, perfazemos, aproximadamente, 4.300 profissionais no setor de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha.

Qual a missão da DGDNTM e suas metas?

A DGDNTM possui, como missão, a coordenação superior das atividades de gestão de pesquisa e de desenvolvimento de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), nas áreas temáticas voltadas para os Meios Navais, Aeronavais e de Fuzileiros Navais que integrarão as Marinhas do amanhã e do futuro. As nossas metas principais são: desenvolver as nossas competências tecnológicas; aprimorar a tecnologia de produção de combustível nuclear; concluir a construção e iniciar a operação do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (Labgene), que será, em terra, o protótipo da planta de propulsão do nosso submarino nuclear; concluir a construção dos quatro submarinos convencionais da classe Riachuelo, cujo primeiro será lançado ao mar em 14 de dezembro próximo; finalizar o projeto e construir o submarino com propulsão nuclear Álvaro Alberto; e prontificar a infraestrutura de apoio a esses meios e suas tripulações (os estaleiros e a Base Naval de Itaguaí).

Embora date de 1978 o início oficial do programa estratégico para a construção de um submarino nuclear, vem de antes o envolvimento da Marinha brasileira com a tecnologia nuclear - haja vista a participação do almirante Álvaro Alberto na Comissão de Energia Atômica do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) e na criação do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) e do almirante Octacílio Cunha como fundador e primeiro presidente (1956-1961) da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). Pode-se dizer, então, que o desenvolvimento da energia nuclear no Brasil está ligado à Marinha?

O almirante Álvaro Alberto, que é o Patrono da Ciência, Tecnologia e Inovação da Marinha, ingressou na Escola Naval em 1906, sendo declarado guarda-marinha em 1909. Recebeu o Prêmio Greenhalgh, destinado ao aspirante que tenha apresentado o mais alto índice de rendimento nos estudos, destacando-se, desde muito cedo, dentre os seus pares. Graduou-se físico e engenheiro geógrafo em 1911, pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Mais tarde, estudou na École Centrale Técnique, em Bruxelas, Bélgica. Já em 1916, passou a lecionar a disciplina Química dos Explosivos, na Escola Naval. Em 1939, tornou-se catedrático do Departamento de Física e Química da Escola Naval, onde introduziu o estudo de Física Nuclear. Durante mais de 30 anos, dedicou-se ao magistério, sem abandonar suas pesquisas, especialmente, na área de explosivos e, de modo mais aprofundado, na área de energia nuclear. Foi não só representante do Brasil na Comissão de Energia Atômica da ONU, como também foi aclamado, por unanimidade, à Presidência daquele organismo, para o biênio 1946-1947. Idealizador e primeiro presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), foi também presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

O almirante Otacílio Cunha, por seu turno, era engenheiro naval e cientista, tendo sido o fundador da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), em 1956, a qual presidiu até 1961. Da mesma forma, foi presidente do CNPq, durante o biênio 1961-1962.

Portanto, constata-se que o desenvolvimento da energia nuclear no País está robustamente conectado à trajetória desses ilustres Marinheiros.

Quais foram, em sua opinião, os principais marcos do Programa Nuclear da Marinha?

No meu entendimento, os principais marcos do PNM foram: o Domínio do Ciclo do Combustível Nuclear, principalmente no que se refere ao Enriquecimento de Urânio (por ultracentrifugação), que é a etapa mais complexa deste ciclo; o domínio dos ciclos termodinâmicos associados aos reatores à água pressurizada (PWR), por meio do uso intensivo de laboratórios de neutrônica e de termohidráulica; e a concepção do Labgene, ora em fase de construção civil e montagem eletromecânica, com previsão de início de comissionamento para 2021.

Quais são os principais desafios do Programa?

Os nossos principais desafios consistem: na mobilização permanente de pessoas capacitadas para analisar e resolver uma gama ampla de problemas técnicos e logísticos; na obtenção e desenvolvimento de sistemas e equipamentos com requisitos nucleares, os quais não são comuns no mercado brasileiro; e em atender às exigências do licenciamento ambiental e nuclear, com enfoque na área de segurança de construção e operação de plantas nucleares.

Muitos programas criados para a área de Defesa acabam evoluindo para o setor civil. Quais são os principais "spin offs" gerados pelo PNM? Que áreas do conhecimento o Brasil desenvolveu devido ao Programa?

Alguns sistemas de controle eletrônico digital foram desenvolvidos no Brasil em razão do PNM, especialmente aqueles voltados para áreas do ciclo do combustível nuclear, assim como materiais especiais (aços e poliméricos) para emprego nos setores nuclear e médico, e de sistemas inerciais e de radar, para emprego nos setores aeroespacial e naval.

Podemos destacar, como um dos muitos exemplos de êxito dual, o projeto de produção de fibra de carbono empregada em ultracentrífugas, conduzido pelo CTMSP. A partir do desenvolvimento desses materiais baseados em carbono, as ultracentrífugas podem operar com elevada eficiência e segurança. Graças ao domínio do processo de produção de fibra de carbono, a Indústrias Nucleares do Brasil (INB) já opera sete cascatas de ultracentrífugas, fabricadas no País e fornecidas pela Marinha. O próprio Centro emprega, também, esse material em suas cascatas, para a produção do combustível destinado ao Labgene e, futuramente, ao submarino com propulsão nuclear.

Outra área do conhecimento desenvolvida pela Marinha, em decorrência do arrasto tecnológico do PNM, relacionada com a tecnologia de materiais especiais, é aquela das válvulas de micro-ondas de potência do tipo "travelingwave tube" (TWT), que são empregadas nos radares do setor operativo e, também, em radares já produzidos pela base industrial de defesa do País. Hoje, a Marinha já dispõe de uma planta piloto de fabricação de válvulas TWT.

É importante, também, registrar que a Marinha tem buscado, no âmbito de seus projetos estratégicos, a participação, cada vez mais intensiva, da indústria brasileira. O PNM e o Programa de Desenvolvimento de Submarinos, o Prosub, são grandes impulsionadores desta iniciativa.

Especificamente para o Prosub, um programa de nacionalização foi criado, com o propósito de qualificar empresas, principalmente por meio da transferência de tecnologia e de conhecimentos para seus profissionais. As consequências observadas têm sido muito positivas e têm propiciado novas oportunidades de mercado para o setor industrial brasileiro, com produtos incorporando tecnologias no estado da arte. Na construção dos novos submarinos em Itaguaí, já vivemos essa realidade. Dentre os inúmeros casos existentes, menciono os de fornecimento de cabos elétricos e de válvulas de casco, respectivamente pelas empresas Tramar, de São Paulo, e Micromazza, do Rio Grande do Sul.

Fabricante de cabos elétricos, a Tramar se submeteu a um processo de aperfeiçoamento de seus produtos, e a troca de conhecimentos com os especialistas da Marinha resultou no desenvolvimento de materiais que atenderam a rigorosos testes de qualificação, exigidos para o emprego naval, segundo requisitos constantes em normas internacionais e utilizados por grandes players da área de Defesa. A Micromazza, por seu turno, não somente desenvolveu um protótipo de válvula de casco originalmente produzida e especificada pela empresa estrangeira Naval Group. Ela foi além! Com base na expertise das tecnologias empregadas pelo setor de offshore, aperfeiçoou o projeto original, desenvolvendo um produto de maior qualidade e certificado para aplicação naval.

Quantos empregos foram gerados direta e indiretamente pelo Prosub e o PNM?

O Prosub e o PNM, programas estratégicos da Marinha e do País, têm permitido a absorção e o desenvolvimento de tecnologias de vanguarda, bem como a nacionalização e a concepção de vários equipamentos e sistemas, alavancando diversos setores da indústria nacional. As atividades desses Programas envolvem 23 universidades e instituições de pesquisa, e 900 empresas, tendo gerado, aproximadamente, 8 mil empregos diretos e 17 mil empregos indiretos.

Qual a importância estratégica para a Marinha brasileira de contar com um submarino de propulsão nuclear?

Uma das principais prioridades da Marinha do Brasil, definida pela Estratégia Nacional de Defesa (END), é a de negação do uso do mar a qualquer força hostil que tente se concentrar em nossas águas jurisdicionais. Esse desafio estende-se a toda nossa Amazônia Azul, uma área de 4,5 milhões de km², contendo 8.500 km de costa, onde se concentram plataformas de petróleo, instalações navais e portuárias, grande parte das capitais brasileiras e 95% do comércio exterior do País.

A posse do submarino com propulsão nuclear contribuirá, significativamente, para o cumprimento dessa tarefa da Marinha, pois é o meio que apresenta a melhor razão custo/benefício na guerra naval. Devido à sua capacidade de ocultação, o submarino gera importante efeito dissuasório, desestimulando a agressão de uma eventual força oponente.

Essa capacidade tem limitação nos submarinos convencionais, com propulsão diesel-elétrica, onde a ocultação tem que ser periodicamente interrompida para recarregar as baterias e renovar o ar ambiente, mediante o acionamento de geradores alimentados por motores a combustão. É um momento de vulnerabilidade que, para ser minimizado, obriga a economia de energia, com a consequente limitação da mobilidade. Ainda assim, o submarino convencional é um importante meio empregado em uma "estratégia de posição", patrulhando uma área limitada, a baixa velocidade.

Já os submarinos com propulsão nuclear estão livres dessa limitação. Seu reator nuclear gera energia quase ilimitada, assegurando elevada mobilidade, com grande velocidade e por longo período de tempo, sem necessidade de o submarino ir à superfície. Enquanto os submarinos convencionais deslocam-se a uma velocidade média de 6 nós, cerca de 11km por hora, os submarinos com propulsão nuclear atingem 35 nós, quase 65 km/hora.

Nessa condição, podem ser empregados segundo uma estratégia de movimento, gerando, no oponente, a percepção real de que o submarino pode estar em todos os lugares. Com essas características, os submarinos agregam uma importância estratégica inegável à Marinha e ao Brasil.

Na década de 1970, a propulsão nuclear era uma tecnologia moderna que pertencia a poucos países, como EUA, Inglaterra, França, União Soviética e República Federal da Alemanha e, de acordo com a historiadora Fernanda das Graças Corrêa, em seu livro "O Projeto do Submarino Nuclear Brasileiro – Uma história de ciência, tecnologia e soberania", a construção de um submarino nuclear passou a ser uma estratégia do governo do general Ernesto Geisel para fugir da dependência científica, tecnológica e econômica dos países desenvolvidos, sobretudo, dos EUA. Em sua opinião, esse objetivo foi alcançado?

Releva destacar que, ainda hoje, a propulsão nuclear para submarinos é uma tecnologia dominada por poucos. Além daqueles países que possuem assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, apenas a Índia pertence a esse restrito "Clube". O Brasil, com abnegado desenvolvimento autóctone, está a poucos passos de ser admitido nesse seleto grupo.

Já detemos o domínio do complexo ciclo do enriquecimento do combustível nuclear, com significativa vantagem competitiva sobre importantes players. Estamos consolidando a nossa capacidade para projetar e construir planta de propulsão nuclear. Os nossos objetivos estão se tornando realidade com a prontificação do Labgene, que será, em terra, o protótipo da planta de propulsão do nosso submarino nuclear. Nessa trajetória de conquistas, agregamos muito valor em conhecimento científico e tecnológico.

A tecnologia nuclear é estratégica para o País?

A matriz energética brasileira conta com diversas fontes, onde a opção nuclear figura com menos de 3% do total. Por ser uma fonte confiável, no sentido de ser estável e previsível, no que concerne à produção de energia elétrica, as usinas nucleoelétricas podem reforçar a parcela dita de "base" da matriz, com a enorme vantagem de não produzir CO2, contribuindo, dessa forma, para evitar o efeito estufa. Com isso, sob as variações de geração elétrica nas fontes hídrica, eólica e solar, a vertente nuclear consegue amortecer tais flutuações, garantindo a estabilidade necessária para a demanda elétrica. Adicionalmente, a fonte nucleoelétrica possui múltiplos empregos, como a dessalinização de água do mar, vertente que está em avaliação no setor da engenharia nacional.

O senhor considera que o País está perdendo conhecimento estratégico com a não reposição dos especialistas da área nuclear que estão se aposentando? Isto tem ocorrido no projeto da Marinha?

Uma parcela significativa dos engenheiros e técnicos que trabalham no setor nuclear brasileiro iniciou sua vida profissional nas décadas de 1970 e 1980. Boa parte já se aposentou ou está prestes a se aposentar. Portanto, há uma natural demanda por renovação de quadros. Essa pressão é ampliada na medida em que há uma perspectiva de se expandir a participação da componente nuclear na matriz energética brasileira. Da mesma forma, os empreendimentos capitaneados pela Marinha, como o Labgene e a implantação do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), apontam para a necessidade de investimento em formação de novos técnicos.

- Por ser a energia nuclear uma fonte confiável na produção de energia elétrica, as usinas nucleoelétricas podem reforçar a base da matriz, com a enorme vantagem de não produzir CO2

Com relação à Marinha, em face da retomada do PNM e com a decisão de se construir o submarino com propulsão nuclear, a Força concluiu que necessitava adotar as medidas para assegurar a retenção de seu pessoal altamente especializado, bem como para captar novos profissionais com notável saber, proporcionando, a esses colaboradores, efetivos ou potenciais, condições semelhantes àquelas existentes no mercado. Nesse sentido, foi criada a Amazônia Azul Tecnologias de Defesa S.A. (Amazul), empresa pública vinculada ao Ministério da Defesa, por meio do Comando da Marinha, focada na gestão do conhecimento e com a finalidade de promover, absorver, transferir e manter as tecnologias necessárias às atividades do Programa Nuclear da Marinha, do Programa Nuclear Brasileiro e do Prosub.

As ações da Amazul têm permitido a mitigação de eventual carência de mão de obra especializada, bem como da aposentadoria de valiosos quadros. Entre essas medidas, podemos destacar o Programa de Transferência do Conhecimento Antes da Aposentadoria, que visa preservar o conhecimento daqueles profissionais que detêm uma extraordinária experiência nos nossos Programas, especialmente o PNM.

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