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EDIÇÃO Nº 42

De olho no Brasil: indústria mundial tem forte participação na Inac 2013

Bernardo Barata
Juliana Chaves
Vera Dantas

A VI Conferência Nuclear Internacional do Atlântico (Inac 2013), realizada de 24 a 29 de novembro de 2013, trouxe inovações em relação às cinco edições anteriores, a começar pelo local: pela primeira vez o evento foi realizado no Nordeste, no Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda.

A iniciativa proporcionou à energia nuclear uma repercussão sem precedentes na região. “Conseguimos uma boa receptividade da mídia, que abriu amplo espaço para reportagens e entrevistas abordando as aplicações nucleares”, diz o coordenador do XI Encontro de Aplicações Nucleares (XI Enan), Elmo Silvano de Araújo, do departamento de Energia Nuclear da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Também pela primeira vez desde a criação do evento, a sessão plenária de abertura reuniu altos representantes de empresas e instituições do setor nuclear do país. Participaram da sessão “Programa Nuclear Brasileiro: Presente e Futuro” a presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben), Ruth Soares Alves; o presidente da Eletrobras Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva; o presidente da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), Aquilino Senra; o superintendente do Programa Nuclear da Marinha (Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo - CTMSP), almirante Luciano Pagano Júnior; o gerente na Coordenadoria-Geral do Programa de Desenvolvimento de Submarino com Propulsão Nuclear da Marinha do Brasil (Cogesn), almirante Alan Paes Leme Arthou; o presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), Ângelo Padilha; o presidente da Nuclebrás Equipamentos Pesados S.A. (Nuclep), Jaime Cardoso; e o então diretor Técnico-Comercial da Amazônia Azul Tecnologias de Defesa S.A. (Amazul), Leonam dos Santos Guimarães.

Durante a sessão, o presidente da Nuclep, Jaime Cardoso, advertiu para o fato de que o futuro da energia nuclear depende de uma estruturação estratégica do setor. “Precisamos saber onde queremos chegar, pois há ainda uma falta de visão estratégica que possa integrar todas as empresas da área em torno de um objetivo claro”, disse.

Inserção internacional

Tendo como tema “Os Benefícios da Tecnologia Nuclear para a Inclusão Social”, a Inac 2013 contou com 1.400 participantes inscritos, tendo sido apresentados 700 trabalhos técnicos em palestras e pôsteres.

Segundo o presidente do evento, Edson Kuramoto, da Eletronuclear, a sexta edição da Inac foi a que contou com a maior participação de palestrantes estrangeiros, tanto de pesquisadores como de representantes da indústria internacional. “A participação de empresas estrangeiras na Inac demonstra o interesse da indústria mundial no mercado brasileiro”, explica ele, que ressaltou a colaboração das empresas Areva e GDF Suez (França), Westinghouse (EUA) e da Atmea (joint-venture entre a Areva e a Mitsubishi Heavy Industries), promovendo a realização de palestras técnicas de alto nível e o intercâmbio com pesquisadores e estudantes. Nesse sentido, durante palestra realizada pelo vice-presidente sênior de Novas Centrais Nucleares (NPP) da Westinghouse, Jeff Benjamin, foi feito o anúncio de que dois estudantes do curso de graduação em Engenharia Nuclear da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Alice Cunha da Silva e André Rebello, serão os primeiros estagiários brasileiros da empresa a atuarem, em 2014, em seu programa nos Estados Unidos, como parte do Brazil’s Scientific Mobility Program.

Um público recorde assistiu as palestras dos especialistas estrangeiros no XVIII Encontro Nacional de Física de Reatores e Termohidráulica (XVIII Enfir). Dentre eles, destacaram-se Brian Smith, especialista em dinâmica de fluidos computacional do Paul Scherrer Institute, da Suíça, e o professor Francesco D’Auria, da Universidade de Pisa (Itália). Especialista em termohidráulica de reatores, D’Auria presta consultoria para diversos países, inclusive o Brasil, e tem participado da maioria das edições da Inac. Outra palestra que atraiu interesse foi a do cubano Carlos Garcia, do Instec, sobre o estado atual e os desafios dos reatores de altíssimas temperaturas, que utilizam água super crítica. Essa tecnologia de reatores de 4ª geração ainda está em pesquisa.

Segundo a coordenadora Maria de Lourdes Moreira, pesquisadora do Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), “de um encontro de exclusivamente pesquisadores, o Enfir passou a ser um evento que reúne, a cada edição, um número crescente de jovens e estudantes”. Outra mudança importante é a abrangência de temas. “O que começou com um grupo pequeno de especialistas de física de reatores e termohidráulica, incorporou várias outras áreas como mecânica de fluido computacional, reatores avançados, matemática aplicada, salas de controle avançado e realidade virtual”, explica.

Para o coordenador do XI Enan, Elmo Araújo, a sessão conjunta de palestras Enan-Enfir foi um dos pontos altos da Inac 2013. “Conseguimos oferecer ao público, que lotou o auditório, um conjunto abrangente de temas que iam desde o estado da arte da dosimetria em estado sólido, apresentado pela professora Helen Khoury, da UFPE, passando pela pesquisa, projeto e construção de reatores, por Bruno Guilhaumin, da Areva, até o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), explanado por José Perrota, da Cnen”, disse.

Cassiano Oliveira, ex-pesquisador do IEN e hoje trabalhando na Universidade New Mexico, nos Estados Unidos, participou de mesa redonda conjunta Enan-Enfir sobre novas tecnologias para a geração nuclear e deu um mini-curso de quatro dias para alunos de mestrado do IEN, CDTN e Coppe/UFRJ. Outras mesas que atraíram grande público no XI Enan foram as que discutiram as questões de não proliferação e salvaguardas e deposição de resíduos nucleares.

O coordenador do III Encontro da Indústria Nuclear (III Enin), Carlos Mariz, da Eletronuclear, destacou a palestra de Valerie Levkov, da empresa francesa EDF, sobre a operação de usinas nucleares em rios. Segundo Mariz, a importância do tema reside no fato de que, além da maioria dos sítios nucleares no mundo estarem em rios, o mesmo acontece com os locais que estão sendo estudados para abrigar as próximas usinas nucleares brasileiras. Ele ressaltou, também, as palestras dos executivos da Westinghouse e Areva sobre os novos reatores a serem lançados por suas empresas. As apresentações da norte-americana Westinghouse abordaram o reator AP1000, o primeiro da geração III+ a chegar ao mercado, que deverá entrar em operação ainda em 2014, na China. Já as palestras da francesa Areva apresentaram os novos reatores europeus EPR e Atmea 1, em desenvolvimento.

Os benefícios da tecnologia nuclear para a inclusão social, tema da Inac 2013, foram amplamente abordados na mesa-redonda do III Enin que mostrou os benefícios gerados pela indústria nuclear para as comunidades vizinhas. “Com suas iniciativas, empresas como Eletronuclear e INB mostraram como a atividade nuclear pode ser indutora de desenvolvimento econômico”, diz Mariz.

Política energética

A grande discussão política ficou por conta da mesa redonda “O Esgotamento dos Recursos Hidrelétricos e a Expansão da Produção de Energia Elétrica no Brasil”, que contou com a participação do secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia, Altino Ventura Filho. Ele defendeu o uso da energia nuclear como uma das três principais fontes de base para o Brasil a partir de 2030, quando o governo prevê o esgotamento dos recursos hidrelétricos do país. Considerando um crescimento médio anual de 4% a 5% do setor energético nacional, ele afirmou que em 15 anos a capacidade do sistema elétrico terá que dobrar.

Segundo ele, depois de 2030 não haverá mais hidrelétricas para contribuir com o sistema, ao contraponto que hoje elas representam 50% das fontes de expansão. “O país precisa adicionar oito mil megawatts por ano. Vamos ter que partir para um misto de nuclear, carvão e gás, fontes que têm suas particularidades. A nuclear, por exemplo, é muito vantajosa no aspecto de base, possui combustível baixo e não emite CO2”.

Durante a mesa redonda, o especialista Otávio Mielnik, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) – SP, apresentou um estudo de prospecção do setor energético a longo prazo. Imaginando três cenários diferentes sobre evoluções prováveis que podem ocorrer no país até 2040, no campo nuclear a pesquisa mostra a necessidade de se construir oito, 18 ou 23 usinas com potência de 1.100 megawatts cada. “O problema é que para a energia nuclear é preciso investir agora. Hoje há tecnologias como a AP1000, da Westinghouse, que constrói uma usina em cinco anos, mas normalmente elas levam dez anos para serem construídas”, alertou.

 

Representante do MME defendeu o uso da energia nuclear como uma das três principais fontes de base para o Brasil a partir de 2030, quando o governo prevê o esgotamento dos recursos hidrelétricos do país

 

Uma atividade adicional da Inac 2013 foi a exibição do celebrado documentário Pandora’s Promise, de Robert Stone, co-produzido com a rede de televisão norte-americana CNN. Apresentado em 2013 no famoso Festival de Cinema de Sundance, onde abocanhou prêmios, aplausos e muita polêmica, o filme foi exibido pela primeira vez no país. Mais detalhes sobre o documentário na matéria A Esperança no Fundo da Caixa, publicada abaixo.


A esperança no fundo da caixa

Gustavo Camargo

Qual foi a última vez em que você assistiu a um documentário que mudou fundamentalmente a sua maneira de pensar?

Essa pergunta postulada na crítica de uma revista norte-americana de cinema resume a força de Pandora’s Promise, documentário que está provocando mudanças na agenda de ambientalistas e governantes em todo o mundo.

O filme, que estreou na mostra competitiva do Festival de Sundance em 2013, nos EUA, é uma produção de Paul Allen (Microsoft), em associação com a CNN filmes, e dirigido por Robert Stone, um historiador inglês criado entre a Europa e os EUA. Stone é um cineasta com uma brilhante carreira internacional, que se define como um ambientalista apaixonado desde que se entende por gente. Entre suas produções realizadas anteriormente, Radio Bikini, nomeado ao Oscar de melhor documentário em 1989, é um libelo contra os testes nucleares no planeta. Em 2009, durante a produção de um documentário sobre o movimento ambientalista em sua juventude, Earth Days, ele percebeu o pessimismo que havia tomado conta dos ativistas e seu fracasso em gerenciar a causa do aquecimento global. Na ocasião, conheceu um dos gurus da contracultura norte-americana, Stewart Brand, que lhe apresentou uma visão mais otimista dos desafios relacionados ao tema e da necessidade de enfrentá-los, posicionando-se a favor do desenvolvimento tecnológico. De acordo com o diretor, não foi fácil para ele chegar à conclusão de que a opção nuclear é, hoje, a maior esperança para nos salvar de uma catástrofe ambiental.

Stone considera Pandora’s Promise, fruto de seus próprios questionamentos e do novo desafio ambiental que se impõe ao planeta, o mais pessoal e importante filme de sua carreira. Durante o processo de produção ele percebeu que quase tudo que imaginava saber sobre energia estava errado e que praticamente tudo que julgava conhecer sobre energia nuclear e seus eventos históricos era muito diferente do que ocorreu de fato.

O documentário parte da premissa de que em poucas décadas a humanidade terá que dobrar, ou mesmo triplicar, a capacidade de produção de energia, considerando-se que milhões de habitantes dos países em desenvolvimento sairão da pobreza e atingirão níveis de consumo do mundo moderno. A menos que seja feita a opção por fontes de energia limpas e não emissoras de CO2, o risco de uma catástrofe climática global é praticamente certo. Para defender essa tese, Stone expõe personagens de peso do movimento ambientalista norte-americano que arriscaram suas carreiras e reputações nesse processo de conversão radical em defesa da energia nuclear. Entre eles, Richard Rhodes, Gwyneth Cravens, Mark Lynas e Michael Shellenberger, assim como o já citado Stewart Brand.

Rodado durante três anos em quatro continentes, inclusive no Brasil, Pandora’s Promise foi concebido meticulosamente para demolir os principais mitos criados, ao longo de décadas, que sustentam os argumentos antinucleares. A primeira imagem do filme é a de um famoso ativista em uma passeata antinuclear sentenciando para a plateia: “a indústria nuclear é uma indústria da morte, do câncer, das bombas, que está matando gente e sempre matará”. Stone usa, então, os próximos 89 minutos do filme para demonstrar, não apenas que esse discurso é mentiroso, como também que a indústria nuclear pode ser a indústria da vida. Com esse intuito, o diretor utiliza a objetividade científica para desmontar o discurso emocional e superficial que domina o assunto. Um a um, ele vai desconstruindo os mitos, desde os acidentes nucleares, passando pelos efeitos da radiação até o falso problema dos resíduos nucleares.

Stone visita os três sítios nucleares mais conhecidos, onde ocorreram acidentes de repercussão mundial - Three Mile Island, nos EUA; Chernobyl, na Ucrânia; e Fukushima, no Japão - desmentindo as falsas informações que circulam livremente em diversos meios de comunicação, tais como as do número astronômico de mortes que se quer imputar a eles. Em uma das cenas, por exemplo, o documentário afirma que, ao contrário do que se imagina, nos EUA, desde 1958 quando foi instalada a primeira usina nuclear, até hoje não ocorreu nenhuma morte relacionada à indústria nuclear. Nem uma sequer. Em Chernobyl o diretor visita uma comunidade de religiosos ortodoxos que se recusaram a sair da zona de segurança delimitada em torno da usina após o acidente de 1986, e que segue habitando a região, sem nenhum caso registrado de câncer entre suas centenas de membros. Em Fukushima, ele utiliza um medidor de radiação para mensurar os índices na área do vilarejo habitado próximo ao local do acidente e compara com os índices em locais de alta radiação natural, como na pacata vila turística de Guarapari, no Brasil, onde o número é superior ao que se observa ali no Japão. A equipe de filmagem do documentário foi a primeira do mundo a chegar próxima ao reator danificado de Fukushima onde pode verificar que a radiação é muito inferior ao que costuma ser alardeada na mídia global.

 

Pandora’s Promise foi concebido meticulosamente para demolir os principais mitos que sustentam os argumentos antinucleares

 

No caso dos rejeitos radioativos, o documentarista criou, para dar uma perspectiva de magnitude ao espectador, um engenhoso infográfico animado que começa com a visão espacial de uma cidade norte-americana que vai se aproximando do olhar do espectador na medida em que a câmera desce, até surgir um estádio de futebol americano. No seu interior, utilizando as marcações numéricas do campo, a animação mostra o pequeno espaço que todo o resíduo de alta intensidade produzido em mais de 50 anos de atividade nuclear nos EUA ocuparia nele. É a tal da imagem que vale mais que mil palavras.

O filme expõe a gravidade do problema do aquecimento global e do papel fundamental que a fonte nuclear possui no processo gerador de energia limpa, segura e regular, ao contrário das principais fontes renováveis, eólica e solar, que nos períodos em que, por desígnios da natureza, não estão em operação, provocam o acionamento das famigeradas usinas termelétricas.

Por fim, o filme visita uma pequena instalação de pesquisa nuclear no estado norte-americano do Idaho, onde, 20 anos atrás, uma equipe de cientistas desenvolveu um reator à prova de fusão do núcleo e realimentado por combustível reciclado, em um processo de reprocessamento do seu próprio descarte.

Alternando entrevistas, cenas atuais, imagens de arquivo, e, até mesmo, desenhos animados populares, de Walt Disney aos Simpsons, Pandora’s Promise, além de inteligente e esclarecedor, revela um acabamento refinado que proporciona ao espectador uma experiência audiovisual bastante agradável.

No Brasil, não há previsão de exibição do documentário. No entanto, a Aben adquiriu os direitos de sua exibição e, mediante solicitação, é possível agendar uma exibição para grupos, caso o solicitante providencie um espaço adequado.

Na mitologia grega da criação, Pandora, a primeira mulher criada por Zeus, recebe dele como presente uma caixa contendo todos os males do mundo, na condição de que nunca seja aberta. Ela, no entanto, atiçada por sua curiosidade abre e libera todo o seu conteúdo, exceto um pequeno objeto preso ao fundo: o espírito da esperança. Como no mito, Pandora’s Promise, o filme, reencontra essa esperança sob a forma de uma fonte de energia realmente capaz de salvar a humanidade de um desastre ambiental.

Associação Brasileira de Energia Nuclear

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