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CAPA DA EDIÇÃO Nº 42
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EDIÇÃO Nº 42

O submarino nuclear é o projeto de maior dimensão em execução no país

Durante 12 anos, o almirante Ney Zanella viveu submerso, nos submarinos da Marinha Brasileira. Quando não estava embarcado, dedicava-se a fazer cursos de reciclagem, que considera indispensáveis para se manter em dia com a constante evolução. Zanella foi secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação da Marinha, de 2008 a 2010. Nos dois anos seguintes, trabalhou no Ministério da Defesa, onde descortinou novos horizontes profissionais. Em 2013, deixou a Marinha para assumir a presidência da Amazul – Amazônia Azul Tecnologias de Defesa S.A., empresa estatal vinculada ao Ministério da Defesa. Nesta entrevista a Vera Dantas, da Brasil Nuclear, Ney Zanella fala sobre as metas e estratégia da empresa para cumprir sua missão: promover, desenvolver, transferir e manter tecnologias sensíveis às atividades do Programa Nuclear da Marinha (PNM), do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (ProSub) e do Programa Nuclear Brasileiro (PNB).

Qual a origem do nome Amazul?

O nome Amazul tem origem em Amazônia Azul, que é uma marca registrada da Marinha. A expressão foi cunhada pela Marinha para designar a imensa região marítima contígua à costa brasileira e cuja dimensão, de 4,3 milhões de quilômetros quadrados, é equivalente à superfície da nossa floresta amazônica. Essa plataforma marítima – cujo nome técnico é águas jurisdicionais brasileiras – tem um potencial estratégico e econômico semelhante ao da Amazônia Verde. Como uma das missões da empresa é apoiar o desenvolvimento e construção do submarino de propulsão nuclear, que será um instrumento de defesa desse mar, a Marinha emprestou o nome Amazônia Azul que, simplificando, tornou-se Amazul.

Que papel o submarino nuclear irá desempenhar na defesa da Amazônia Azul?

O submarino de propulsão nuclear fará parte do Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul – SisGAAz, um projeto estratégico da Marinha para o controle da Amazônia Azul. Trata-se de uma tecnologia imprescindível para que o país exerça a soberania plena sobre as águas jurisdicionais brasileiras, a única ferramenta que permitirá à Marinha estar onipresente em um território de dimensões colossais. Como não é possível cercar o território marítimo, a presença do submarino é uma forma de exercer o controle nessa área e impedir ameaças e atos como poluição e pesca ilegal. Em resumo, o submarino nuclear é uma ação de presença na área da Amazônia Azul.

 

- Quando corretamente empregado, o submarino nuclear custa menos do que o convencional
Ney Zanella

 

Por que não utilizar submarinos convencionais?

A defesa da integridade territorial marítima brasileira requer a utilização de submarinos tanto convencionais como com propulsão nuclear. Embora ambas embarcações tenham capacidade de ocultação, poder de destruição e relativa independência de problemas ambientais, entre outras características comuns, há diferenças importantes que irão determinar o melhor uso para cada situação. Os submarinos convencionais são impulsionados através de energia gerada em instalação diesel-elétrica, que depende do ar atmosférico; além disso, deslocam-se lentamente. Já os submarinos nucleares têm propulsão proveniente de um reator nuclear, que é independente do ar, e têm grande mobilidade, uma vez que se deslocam em grande velocidade por tempo indeterminado. Enquanto os primeiros são mais adequados para uso em águas litorâneas, os submarinos com propulsão nuclear são utilizados para cobrir grandes áreas geográficas e na defesa em profundidade.

Mas o custo do submarino nuclear não é maior?

A relação custo/benefício é um ponto muito importante na escolha da plataforma. Quando corretamente empregado, o submarino nuclear custa menos do que o convencional. Se fôssemos colocar submarinos convencionais na defesa de uma grande extensão territorial, seriam necessárias 15 embarcações, em vez de apenas uma. Como para cada submarino que está no mar é preciso ter outro em terra se preparando para assumir o seu lugar quando regressar, precisaríamos ter 30 submarinos convencionais, em vez de dois nucleares.

Serão construídos dois submarinos nucleares?

Sim, este é objetivo. Nossa plataforma de trabalho é começar a fabricar o segundo submarino quando tivermos chegado à metade de construção do primeiro. A previsão é que este comece a ser construído em 2018, com conclusão entre 2020 e 2025.

Qual é o porte do projeto?

Posso dizer, com tranquilidade, que é o projeto de maior dimensão hoje em execução no país, não só em relação à plataforma como pela sua complexidade. Enquanto um avião Boeing tem cerca de 103 mil partes, um submarino nuclear chega a ter 1 milhão de itens. Uma grande parte desses itens não é comercial, o que significa que precisam ser desenvolvidos, projetados e construídos. Isso constitui um enorme desafio. Sem menosprezar os demais, não tenho dúvida em afirmar que se trata do maior projeto tecnológico do Brasil. Uma prova dessa importância é que só seis países no mundo conseguiram fazer projeto semelhante: os cinco que dominam o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (EUA, Reino Unido, China, França e Rússia) e a Índia, que está entrando agora. Estes países são justamente os que possuem uma costa de grandes dimensões e que, hoje, dominam os oceanos.

Quais são os primeiros passos da Amazul?

A Amazul começou a operar em fevereiro de 2013, com um núcleo de ativação formado por mim e por mais seis pessoas da Marinha. Mas a criação oficial da empresa ocorreu seis meses depois, em 16 de agosto, com a realização de uma Assembleia Geral e a primeira reunião do Conselho de Administração, presidido por representante do Comando da Marinha e integrado por representantes do Ministério da Defesa, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, pelo diretor -presidente da Amazul e um representante dos empregados. Hoje, estamos na fase de implantação e estruturação administrativa. Em relação aos recursos humanos, contamos com 1.100 funcionários, que herdamos da empresa Emgepron e que estão dedicados ao Programa Nuclear da Marinha, no Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP). Mas já abrimos concurso para preencher cerca de 300 vagas administrativas e de pessoal técnico de nível médio. Outras 300 vagas serão abertas para a contratação de pessoal de nível superior. Nos próximos dois anos, queremos dobrar o número de funcionários. E, como nada se faz sem talentos, vamos buscá-los e capacitá-los para trabalhar em nossos programas.

Como será esse processo?

Uma de nossas prioridades é criar condições para a valorização dos nossos funcionários, tanto os que já trabalham conosco como os que pretendemos contratar. Para atrair e reter os talentos necessários à execução dos nossos projetos, mais que salários de mercado, precisamos oferecer aos nossos empregados um verdadeiro plano de carreira. Nesse sentido, elaboramos um plano de cargos, remuneração e carreira, que foi aprovado pelo governo federal no dia 4 de abril.

Nessa primeira fase também começamos a implantar, junto com o Instituto Brasileiro de Qualidade Nuclear (IBQN), um sistema de gestão integrada que envolve os aspectos da qualidade, de meio ambiente, saúde, segurança do trabalhador e segurança nuclear. Além de funcionar como uma ferramenta no processo para a obtenção da certificação em segurança nuclear, da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), esse sistema é fundamental para que possamos trabalhar com foco na qualidade e na segurança do sistema. O prazo previsto de implantação é de três anos. Esse tempo não é devido à complexidade do sistema, mas ao grande desafio de gerar e fixar uma cultura de gestão da qualidade em todos os níveis da empresa.

Como empresa estatal, a Amazul tem restrições de orçamento e contratação?

A Amazul é uma empresa estatal, porém organizada na forma de sociedade anônima, o que lhe permite exercer sua atividade comercial com mais liberdade. Além de contar com advocacia e sede próprias, possui autonomia para contratação e demissão de pessoas para projetos temporários (com prazo de até dois anos) através de processo seletivo simplificado. Podemos abrir escritórios e nos associarmos minoritariamente com empresas privadas. Mas essa flexibilidade, por outro lado, requer um controle maior.

Por falar em associação, há rumores de uma possível associação da Amazul com a Odebretch. O sr. confirma?

Embora ainda não haja nada acertado, esta é uma possibilidade, uma vez que a Odebretch participa do consórcio franco-brasileiro que irá construir o submarino nuclear, ao lado da Itaguaí Construções Navais (ICN), o Directoire de Construction Naval (DCNS) francês, que é o braço da estatal DGA, que constrói os navios franceses. Caso ela sinta necessidade, poderá se juntar à Amazul.

Como será o envolvimento da Amazul nas atividades do PNM e do ProSub?

O projeto do submarino nuclear, que vem sendo conduzido há cerca de 40 anos pela Marinha, está em sua fase final. A Amazul foi criada para dar à Marinha a flexibilidade necessária neste final de ciclo. Uma de suas atribuições é ajudar na fiscalização da construção do submarino junto à Coordenadoria Geral do Programa de Desenvolvimento de Submarino com Propulsão Nuclear (Cogesn). Como responsável pelos recursos humanos demandados pelo Programa Nuclear da Marinha, a empresa terá participação ativa em projetos como o Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (Labgene), que está sendo implantado pelo Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP), em Iperó (SP), com o objetivo de validar as condições de projeto e ensaiar todas as condições de operação possíveis para uma planta de propulsão nuclear. Nosso grande desafio é colocar o reator Labgene para funcionar em 2017.

A Amazul também vai participar do projeto do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB)?

Sim, vamos contribuir para a gestão desse empreendimento, a cargo da Cnen, que faz parte do Programa Nuclear Brasileiro. Trata-se de um projeto que traz um arrasto tecnológico muito grande. Além de funcionar como reator de pesquisas e de testes, o RMB vai produzir radioisótopos, que são a base para os radiofármacos utilizados na medicina nuclear, e fontes radioativas usadas em aplicações na indústria, na agricultura e no meio ambiente.

A Amazul poderá atuar em outros projetos?

Sim, os horizontes da empresa são muito amplos. Pela Lei 12.706, sancionada pela presidente Dilma Rousseff, em agosto de 2012, a Amazul poderá promover a implantação de novas indústrias no setor nuclear e prestar-lhes assistência técnica; estimular e apoiar técnica e financeiramente as atividades de pesquisa e desenvolvimento do setor nuclear; contratar estudos, planos, projetos, obras e serviços para o desenvolvimento de submarinos; e captar recursos de fontes internas e externas para programas aprovados pelo comandante da Marinha, entre outras atividades.

Em relação à indústria, há algum projeto em andamento?

A Amazul vai atuar também na comercialização de produtos, como é o caso do urânia-gadolínia para a Indústrias Nucleares do Brasil (INB). Trata-se da produção de pastilhas de combustível nuclear usadas nas recargas do combustível de Angra 1 e Angra 2. O processo de fabricação desses elementos, que ampliam o desempenho dos reatores, já foi qualificado pelo CTMSP junto à Cnen.

Onde se localizam as instalações físicas da Amazul?

Atualmente, estamos instalados no Centro Cultural da Marinha, na capital paulista. Mas, no segundo semestre, mudaremos para nossa sede, um prédio de 3.500 metros quadrados, localizado no bairro do Butantã, perto do campus da Universidade de São Paulo (USP). O local funcionará como um centro de capacitação de pessoal e de desenvolvimento de projetos. Mas grande parte do efetivo ficará nas unidades operacionais, em qualquer lugar onde atuarmos. A Amazul tem autorização legal para abrir escritórios em qualquer unidade da federação e no exterior. Hoje, temos um escritório no CTMSP e vamos implantar outro na base naval de Itaguaí, no Rio de Janeiro, que funcionará como unidade de apoio ao submarino nuclear.

A Amazul irá disputar projetos com outras empresas?

Como atua em uma área estratégica, a Amazul pode ser contratada com dispensa de licitação pela administração pública. A empresa tem autorização legal para exercer atividades da área nuclear de qualquer órgão público tanto em pesquisa como em gestão de conhecimento, gestão de serviços e desenvolvimento de produtos.

Como a empresa está se organizando para atuar em tantas frentes?

Com a colaboração do Ministério da Defesa e do Comando da Marinha, estruturamos um planejamento estratégico, que deve estar concluído em meados de maio e que conta com ações de curto, médio e longo prazo. Entre as ações de curto prazo, destacamos a estruturação e estabilidade administrativa da empresa e a admissão de novos talentos. A médio prazo, nossa meta é incrementar o projeto do submarino. A longo prazo, estaremos gerenciando outros grandes projetos como o RMB. Consideramos que a Amazul poderá ser, também, uma ferramenta de grande flexibilidade na implantação dos novos reatores nucleares previstos pelo comitê do Programa Nuclear Brasileiro, caso esse projeto venha a se concretizar.

Associação Brasileira de Energia Nuclear

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