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EDIÇÃO Nº 42

Térmicas avançam na matriz elétrica brasileira

Vera Dantas

Com previsão de esgotamento do potencial hidrelétrico em 2025, país caminha rapidamente para ter uma matriz hidrotérmica

No dia 5 de maio de 1984, entrava em operação a usina Itaipu Binacional. Símbolo maior do aproveitamento dos recursos hídricos no país, o empreendimento enfrentou obstáculos diplomáticos, financeiros e técnicos para se viabilizar. Em uma economia estagnada, questionava-se a necessidade de todo aquele potencial de 12,6 mil megawatts, praticamente a metade de toda a capacidade instalada do país. Hoje, com 14 mil MW, a usina vem batendo recordes mundiais de geração (gerou 98.630.035 MWh em 2013) e é responsável pelo fornecimento de 16,9% de toda a energia consumida pelo Brasil em 2013.

Trinta anos depois, o país vive uma situação bastante diversa: desde 2012 precisa recorrer a fontes térmicas como carvão, gás, óleo diesel e combustível para complementar sua oferta de energia elétrica e, no início do ano, sofreu um enorme apagão, que atingiu 12 estados em quatro regiões. Além de aumentar a emissão de poluentes, a ativação das térmicas complementares trouxe grandes prejuízos para as distribuidoras de energia, que já enfrentavam dificuldades com a compra de energia no mercado à vista. Para aliviar o déficit financeiro do setor elétrico, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) negociou um empréstimo de R$ 11,2 bilhões junto a bancos públicos e privados.*

Ativadas progressivamente em caráter emergencial, as térmicas já respondem por quase 30% da energia elétrica no país. Segundo o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Mauricio Tolmasquim, em palestra durante o 15º Encontro de Energia, promovido pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a participação de todas as térmicas, inclusive as de bagaço da cana, subiu de 17% para 29%.**

O longo período de funcionamento coloca em discussão não só a crise atual no abastecimento do setor elétrico – cujo gerenciamento vem recebendo críticas –, como, principalmente, a sua sustentabilidade a partir da próxima década, quando o país enfrentará o esgotamento do seu potencial hidrelétrico.

Esgotamento hídrico

A matriz de energia elétrica brasileira é baseada no aproveitamento de recursos hídricos, através da construção de hidrelétricas com grandes reservatórios, perto dos centros de consumo. Com o esgotamento das opções de aproveitamento nas regiões Sul e Sudeste, a fronteira hidrelétrica avançou para o Centro e o Norte do país. No entanto, devido às restrições ambientais, as novas hidrelétricas construídas nessas regiões são do tipo “fio d’água”, ou seja, não contam com reservatórios que permitam acumular água da época de chuvas para utilização nos períodos mais secos.

O secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia, Altino Ventura Filho, reconhece que a previsão do Plano Nacional de Energia (PNE) 2030, concluído em 2007, de o país dispor de 180 mil MW de energia elétrica até 2030 não se concretizará. “Desde 2007, o quadro se agravou por conta, principalmente, de questões ambientais que dificultam a geração hidrelétrica. Por isso, dificilmente chegaremos aos 150 mil MW, enquanto o potencial brasileiro hidrelétrico é de 260 mil MW”, disse ele, ao participar da Conferência Nuclear Internacional do Atlântico (Inac 2013), em novembro do ano passado. Na ocasião, ele admitiu o esgotamento do potencial hidrelétrico economicamente aproveitável do país a partir de 2030.

Seis meses depois, durante evento promovido pela Fiesp, Ventura afirmou que após 2025, o Brasil vai passar por uma transição, de uma expansão majoritariamente hidrelétrica para o uso de térmicas como nuclear, carvão e gás natural na base do sistema, para garantir a segurança energética do país no futuro. Mas, na visão do diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp, o uso da geração térmica tem crescido não só em tempo seco, mas também quando as chuvas estão perto da média, devido ao aumento do consumo, que está acima da reposição dos estoques dos reservatórios. As previsões são de que o índice de armazenamento energético deve chegar ao fim do ano a uma taxa de 30%. “Isso é 10% abaixo da média”, afirmou durante o evento.***

A transição já começou

A transição hidrotérmica acontece quando a expansão de um sistema elétrico com predominância de fonte hídrica passa a requerer uma crescente contribuição térmica, seja por esgotamento do potencial ou por perda da capacidade de autorregulação devido à diminuição do volume de água armazenada nos reservatórios em relação ao crescimento da carga do sistema. No caso brasileiro, as duas condições ocorrem simultaneamente, garante o diretor de Planejamento Estratégico e Meio Ambiente da Eletrobras Eletronuclear, Leonam Guimarães. Para ele, o Brasil já entrou no processo de transição hidrotérmica, que começou a ocorrer em 2000, quando a taxa de crescimento das térmicas passou a ser muito superior à das hídricas. “De 2000 a 2012, a contribuição da geração térmica ao Sistema Interligado Nacional (SIN) mais do que dobrou, passando de 6,26% em 2000, para 15,74% em 2012”, afirma (ver figura Evolução da Capacidade Instalada).

A tendência já era apontada desde 2010, em estudo realizado pelo Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ressalta o professor Nivalde de Castro, coordenador do Gesel.**** “A matriz elétrica está caminhando rapidamente para se transformar em uma matriz hidrotérmica. A cada ano, usamos mais termelétricas e a tendência é de aumentar ainda mais, mesmo com a utilização de fontes renováveis como eólica e solar, pois estas são intermitentes; durante 12 horas do dia não há sol e, no período úmido, quando chove, não venta”, afirma.

 

O processo de transição começou a ocorrer em 2000, quando a taxa de crescimento das térmicas passou a ser muito superior à das hídricas

 

O Boletim de Operação das Usinas, publicado mensalmente pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), informa que a geração termelétrica cresceu 15.361 MW médios em março de 2014, uma alta de 26,9% em relação a março de 2013. Já o crescimento total da energia elétrica, no mesmo período, foi de 3,1%, com 64.160 MW médios (ver gráfico Geração (MW médio) e Representatividade (%) e tabela Variação da Geração).

O PNE 2030, feito pela Empresa de Planejamento Energético (EPE), em 2007, mostra que, a partir de 2025, não restam aproveitamentos que sejam econômicos ou que não tenham interferência com terra indígena ou com unidade de conservação. Mas, segundo Leonam Guimarães, há um problema no curto prazo. “Mais da metade das hidrelétricas previstas para entrarem em operação em 2022 pelo Plano Decenal de Expansão de Energia 2012/2022, estão com as obras paralisadas”, afirma.

Problema estrutural

Para Leonam Guimarães, a atual condição do sistema elétrico brasileiro demonstra a ocorrência de um “problema nitidamente de falta de base térmica, o que nos obriga a acionar térmicas complementares de custo elevado”. A crítica é endossada por Roberto D’Araujo, diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico – Ilumina, para quem os cerca de 50 bilhões de reais gastos com a utilização das térmicas emergenciais correspondem ao custo de quatro hidrelétricas do porte da usina de Santo Antonio, no rio Madeira. “Um sistema que tem um custo de operação com gasto equivalente a quatro novas usinas hidrelétricas não está equilibrado”, garante. Ele também acusa a falta de um planejamento energético e o centralismo das decisões por parte da Empresa de Planejamento Energético (EPE). “As decisões são tomadas em escritório fechado, sem uma discussão, como acontecia no passado”, acusa.

Segundo Roberto Pereira D’Araujo, o diferencial do sistema brasileiro não reside no fato de ser hidrelétrico, mas na reserva de água (energia) que pode ser guardada para uso futuro. “Além da quantidade de água armazenada não ter crescido, não há mais lugar para construir reservatórios na região Sudeste, que concentra cerca de 70% da reserva de água do sistema elétrico brasileiro. Como a carga está crescendo, é como se a nossa caixa d’água estivesse diminuindo”, diz. Por isso, ele defende uma mudança no critério de operação do sistema. “Se consumimos uma caixa d’água em uma semana, não podemos ter o mesmo comportamento de quando ela durava o mês inteiro”, exemplifica.

Para o especialista, um dos caminhos para enfrentar a crise é a adoção, urgente, de medidas de eficiência energética. “Estamos investindo na construção de grandes usinas, enquanto continua vazando KWh no Brasil inteiro em equipamentos que não têm eficiência energética”, garante.

Que tipo de térmicas?

De acordo com Nivalde de Castro, o sistema elétrico brasileiro precisa da segurança oferecida por fontes que gerem energia sem interrupções. E, uma vez que o país já ingressou no regime hidrotérmico, a questão que se coloca é que tipo de termelétricas devem ser utilizadas. “Há térmicas com geração mais cara, mas com custo de implantação mais barato, e as que têm o MWh mais baixo, porém demandam um alto investimento na planta. A contratação de usinas de vários preços possibilita utilizar mais intensamente as de custo inferior, enquanto as mais caras são menos despachadas”, explica.

O gás natural é apontado como a fonte térmica com maior potencial para integrar a base da matriz elétrica, por ter custo mais baixo e emitir menos poluentes. No último Plano Decenal de Expansão de Energia – PDE (2012/2022), o governo federal estimou o aumento do percentual do gás natural de 7,8% para 10,4%. No entanto, sua viabilização depende não só da confirmação do potencial das reservas de gás da camada pré-sal como da implantação de sistemas de distribuição, que demandam um alto investimento. Estima-se que serão necessários investimentos de US$ 22 bilhões em infraestrutura logística de transporte para levar ao mercado consumidor os 68 milhões de metros cúbicos adicionais de gás natural oriundos dos campos do pré-sal que a Petrobras prevê ofertar por dia até 2030.*****

 

Estudo da FGV conclui que a geração nuclear tem importante papel a cumprir no desenvolvimento da oferta de energia nas próximas décadas

 

Nivalde de Castro considera a energia nuclear como a mais segura entre as fontes térmicas. “A energia nuclear apresenta inúmeras vantagens como oferecer estabilidade e grande segurança de suprimento, pois funciona durante 11 meses por ano. Além disso, o país possui a 6ª maior reserva mundial de urânio, domina a tecnologia do ciclo do enriquecimento de urânio e possui uma indústria consolidada”, diz. “Por isso, na avaliação do Gesel, a construção de novas usinas nucleares deve entrar rapidamente no planejamento da expansão do sistema elétrico brasileiro”, completa.

Investir já

O estudo Futuro Energético e a Geração Nuclear, realizado pela Fundação Getúlio Vargas, conclui que a geração nuclear tem importante papel a cumprir no desenvolvimento da oferta de energia elétrica nas próximas décadas, no quadro de uma matriz elétrica diversificada, sustentável e eficiente.****** Segundo Otávio Mielnik, autor do estudo, novas usinas serão indispensáveis no Brasil entre 2020 e 2030 “diante do crescimento da demanda por energia e da redução da capacidade de armazenamento de água”.

Mielnik ressalta como diferenciais estratégicos da energia nuclear a segurança do fornecimento, uma vez que o país dispõe de reservas substanciais de urânio equivalentes a 65 anos de geração elétrica; a sua participação relevante na geração de base (embora essa condição não seja aplicada formalmente no sistema hidrotérmico brasileiro, no qual a energia térmica é complementar); o seu elevado fator de capacidade, em torno de 90% (e que, em Angra 1 e Angra 2, chegou a 92% em 2012), a proximidade dos centros de consumo e o baixo nível de emissão de gases de efeito estufa. Ele afirma que “o desenvolvimento da geração nuclear tem sido marcado pela importância consagrada à segurança e ao desempenho operacional. Novas tecnologias estão sendo aplicadas e um grande esforço tem sido dedicado à redução dos custos”.

Leonam Guimarães lembra que, embora o PNE 2030 previsse a entrada em operação de mais quatro usinas nucleares (além de Angra 3) de 2023 até 2030, os Planos Decenais que sucederam não contemplaram essas usinas no planejamento de curto prazo. Dessa forma, se o país vai precisar do reforço da energia nuclear na base de sua matriz elétrica a partir de 2025, é preciso que essas usinas sejam incluídas nos próximos Planos Decenais. “É um grande desafio, mas não é impossível. Se começarmos o projeto em 2015, poderemos ter uma primeira usina a partir de 2025. Mas é preciso tomar a decisão o mais breve possível”, alerta.


*No fechamento desta edição, o governo articulava com o sistema financeiro um novo socorro de pelo menos R$ 2 bilhões.

**Fonte: www.fiesp.com.br.

***Fonte: www.fiesp.com.br.

****Considerações sobre a Ampliação da Geração Complementar ao Parque Hídrico Brasileiro, Textos de Discussão do Setor Elétrico nº 15, Gesel, janeiro de 2010.

*****Jornal O Globo, 17/06/2014.

******www.fgv.br/fgvprojetos.

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