Receba as newsletters da ABEN:
Imagem loading
English
Revista Brasil Nuclear Revista Brasil Nuclear

Pesquise uma Notícia

CAPA DA EDIÇÃO Nº 41
Ver Mais: EDIÇÃO Nº 47 : EDIÇÃO Nº 46 : EDIÇÃO Nº 45 : EDIÇÃO Nº 44 : EDIÇÃO Nº 43 : EDIÇÃO Nº 42 : EDIÇÃO N° 40 : EDIÇÃO N° 39 : EDIÇÃO N° 38
Assinar a revista brasil nuclear ANUNCIE NA REVISTA BRASIL NUCLEAR
EDIÇÃO Nº 41

CTMSP: impactos positivos para a região de Iperó

Vera Dantas

O Brasil pertence ao seleto grupo de países que detêm a tecnologia de enriquecimento de urânio, um recurso energético estratégico.

Essa conquista deve-se ao trabalho realizado pelo Centro Tecnológico da Marinha de São Paulo (CTMSP) e seus parceiros, desde o início da década de 1980, como parte de um amplo programa de pesquisa e desenvolvimento conduzido pela Marinha brasileira para dotar o País de um submarino de propulsão nuclear. “Atualmente, o Programa Nuclear da Marinha (PNM) tem como principal objetivo estabelecer a competência técnica autóctone para projetar, construir, operar e manter reatores do tipo “Pressurized Water Reactor” (PWR) e produzir o seu combustível. Dominada essa tecnologia, ela poderá ser empregada na geração de energia elétrica, quer para iluminar uma cidade, quer para a propulsão naval de submarinos, além de outras aplicações pacíficas da energia nuclear”, afirma o contra-almirante Luciano Pagano Junior, superintendente do Programa Nuclear da Marinha.

A conquista da tecnologia necessária à geração de energia nucleoelétrica, para uso em propulsão naval, passa por complexos estágios de desenvolvimento, nos quais se destacam o domínio do ciclo do combustível nuclear, já conquistado, e o desenvolvimento e construção de uma planta nuclear de geração de energia elétrica. Este empreendimento, denominado projeto Labgene, tem uma característica dual: além de servir de base e de laboratório para outros tipos de reatores nucleares, será um protótipo do sistema de propulsão naval que irá equipar o submarino nuclear. Já foram investidos no PNM cerca de US$ 1,7 bilhão, acumulados durante cerca de 30 anos (em média US$ 60 milhões por ano), estando previstos investimentos da ordem de U$ 530 milhões, até 2016.

O CTMSP conta com duas unidades: na primeira, em um prédio dentro da Universidade de São Paulo (USP), estão alguns laboratórios e a área de projetos; já no Centro Experimental Aramar, localizado no município de Iperó, estão as instalações de teste e industriais, além de outros laboratórios e oficinas especializadas.

O Centro Experimental Aramar ocupa uma área de 840 hectares (840 mil metros quadrados), em um terreno cedido para a Marinha, vizinho a uma reserva florestal do Ibama gerida pelo Instituto Chico Mendes. A localização trouxe benefícios para a região, de acordo com o contra-almirante Luciano Pagano Junior. “Como demonstrou o estudo de impacto ambiental Aramar, nossa presença ajudou na preservação da fauna inibindo a caça ilegal e predatória. Aramar funciona como uma grande barreira entre a reserva florestal e o mundo exterior, representado pela rodovia”, afirma.

Quando o Centro Experimental Aramar foi instalado, em 1985, a ligação entre Iperó a Sorocaba, distantes cerca de 30 quilômetros, era feita por uma estrada de terra, que ficava intransitável quando chovia intensamente. O superintendente do PNM lembra que, algumas vezes, em dias de chuva, foi obrigado a fazer a pé um trajeto de cerca de 800 metros para chegar até a entrada Aramar, uma vez que o carro do CTMSP tinha atolado na lama da estrada. A partir de uma demanda do Centro junto ao governo do estado de São Paulo, a estrada foi asfaltada, facilitando o deslocamento dos moradores da região entre os dois municípios. Hoje, devido ao tráfego intenso, a população já pleiteia a duplicação da rodovia.
 

Serão contratados mais 150 engenheiros e técnicos altamente especializados, para se dedicarem inteiramente ao Projeto Labgene
 

Além da proteção ao meio ambiente e de contribuir para a construção da rodovia, a presença do Centro Experimental Aramar traz outros benefícios socioeconômicos para a região. O principal deles é a geração de empregos. “Nós temos 900 funcionários concursados. Isso significa 900 empregos diretos para pessoas da região e também para as pessoas de fora. O Centro atraiu engenheiros e outros profissionais especializados, do Rio de Janeiro e de São Paulo, que se fixaram, montaram residências e investiram no mercado local, movimentando a economia”, explica.

A maior parte da mão de obra é constituída por profissionais locais, formados pelas escolas técnicas da região, que receberam grande impulso com a demanda do Centro. Além disso, Aramar promove um programa intensivo de treinamento de funcionários. Nos últimos três anos, foram cumpridas 45 mil horas de treinamento, num investimento de cerca de R$ 2 milhões.

O número de profissionais contratados do Centro Experimental Aramar deverá aumentar, à medida que avance o projeto Labgene, que tem previsão de comissionamento para 2016. Serão contratados mais 150 engenheiros e técnicos altamente especializados, que formarão um grupo inteiramente dedicado ao projeto. Atualmente, estão sendo realizadas as obras civis nos quatro prédios nucleares, dentre eles o do reator. Diversos equipamentos já foram entregues, enquanto outros encontram-se em fabricação e testes.

Outro impacto positivo para a região é o alto índice de nacionalização do Programa Nuclear da Marinha, de 88%. “São insumos e serviços gastos no Brasil. Mesmo uma obra civil - e nós temos muitas - demanda a contratação de um grande número de pessoas da região. Como Iperó é um município com 28 mil habitantes, o reflexo é significativo”, afirma o contra-almirante Pagano Junior.

Conhecimento

Com mais de 25 anos de presença em Iperó, o CTMSP desenvolve ações que estreitam o relacionamento com a população local. Nesse sentido, embora sem contar com centro de visitação semelhante ao da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto (CNAAA), em Angra – “temos planos de construir um do mesmo porte, no futuro”, adianta o contra-almirante Pagano Junior –, o Centro está aberto a quem queira conhecê-lo. Autoridades e parlamentares são frequentemente recebidos. Há também um programa de visitação voltado para a comunidade local, principalmente para escolas da região. Os alunos passam um dia no Centro, onde conhecem as áreas de acesso comum, almoçam e, depois, assistem a palestras sobre meio ambiente, energia nuclear, o PNM e a Marinha Brasileira. São recebidos cerca de 2 mil visitantes/ano.

Além de receber visitas, o CTMSP vai ao encontro dos estudantes, através do Programa Cisne Branco, criado pela Marinha. A iniciativa compreende a visitação e realização de palestras em escolas, além da promoção de um concurso de redação, com prêmios para as melhores.

Outro braço de interação com a comunidade é a Fundação Pátria, criada conjuntamente pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Marinha e a Prefeitura Municipal de Iperó. Por meio dela, são promovidos cursos técnicos de curta duração, tais como o de chapeamento para conformação de dutos de ar condicionado e o de medidas elétricas. Foi instituído, também, um prêmio para os melhores alunos da 5ª e da 8ª série da rede municipal do ensino público de Iperó. Indicados pela Secretaria Municipal de Educação, os vencedores recebem, cada um, um computador. “Com isso, buscamos estimular o estudo, mostrar sua importância. É um investimento que tem um grande retorno”, afirma o superintendente do PNM.

Transferência de tecnologia

Grande parte dos procedimentos e normas de segurança hoje existentes pela indústria de alta tecnologia tiveram origem na indústria nuclear, que sempre adotou requisitos muito severos de garantia de qualidade e formalidade técnica. De sua parte, o CTMSP tem contribuído para a disseminação desses requisitos e, com isso, para elevar o nível de qualidade dos equipamentos, materiais e projeto fornecidos pela indústria nacional. O contra-almirante Pagano Junior cita o exemplo da área de análise sísmica. “No Brasil, não é exigido da construção civil a realização de estudos de resistência a sismos para estruturas prediais. No entanto, por ser um requisito básico da indústria nuclear, foi preciso desenvolvê-lo aqui. Hoje, contamos com empresas que possuem essa capacidade de cálculo e previsão”, afirma.
 

O CTMSP tem contribuído para a disseminação dos requisitos de segurança e de qualidade na indústria nacional
 

Mas apenas a capacitação técnica não é suficiente para manter uma indústria voltada para a área de tecnologia de ponta. “É preciso haver uma continuidade de encomendas”, diz o superintendente do PNM. “Os países que contam com indústrias que desenvolvem produtos sofisticados e especializados têm a preocupação em manter um fluxo constante de encomendas, previsão, anúncio e execução de investimentos, o que permite que as empresas também possam se organizar. Quer seja na área de engenharia de projeto como de fabricação, a empresa que investe na preparação do seu corpo técnico precisa ter uma previsibilidade de faturamento, porque senão esse investimento não se paga. Esse grau de incerteza às vezes atrapalha um pouco”, afirma.

Participação no RMB

Segundo o contra-almirante Pagano Junior, a Marinha considera o empreendimento Reator Multipropósito Brasileiro (RMB) um grande salto tecnológico na busca da independência para a fabricação de radiofármacos. Integra também o esforço de qualificação de combustíveis avançados para a propulsão de meios navais, pela capacidade que terá na realização de testes e ensaios de materiais sob os efeitos da irradiação.

A Marinha tem colaborado com o projeto do Reator Multipropósito Brasileiro, por meio do CTMSP, oferecendo a infraestrutura do Centro Experimental Aramar, a documentação do Projeto de Concepção do Reator de Teste de Materiais (Retema), uma antiga aspiração do CTMSP na construção desse tipo de reator; e a colaboração do seu corpo técnico no apoio à concepção do projeto e de sua fiscalização, em especial na área de pós-irradiados e na análise rádio ecológica. “O RMB tem três grandes propósitos. Consideramos o primeiro, a geração de radioisótopos para a medicina nuclear, fundamental para o desenvolvimento social do país. No entanto, nosso interesse específico está nos outros dois propósitos do empreendimento, o ensino e o teste de materiais, que consideramos fundamentais para o futuro do programa nuclear da Marinha”, diz.

Curso de engenharia nuclear

A parceria entre o CTMSP e a Universidade de São Paulo (USP), com o intuito de formar e aperfeiçoar recursos humanos para o setor tecnológico e industrial brasileiro, será reforçada a partir da criação do curso de graduação em engenharia nuclear, que está em análise na universidade. O Centro ofereceu uma área de 350 mil metros quadrados dentro de Aramar para a construção de um campus avançado da universidade. “Recebemos com muito interesse a proposta, através do vice-diretor da Escola Politécnica da USP, José Roberto Piqueira, idealizador do projeto. Para Aramar, ter a universidade como vizinha e parceira é uma oportunidade extraordinária de formação de pessoal e de compartilhar pesquisas de interesse comum” diz o contra-almirante Pagano Junior.

Na visão dos integrantes do CTMSP, o futuro reservado a Aramar é se tornar um grande polo tecnológico. “Com o RMB e a USP, formamos um conjunto de atividades sinergéticas e com grande simbiose, trabalhando para o desenvolvimento do estado brasileiro”, completa.

Associação Brasileira de Energia Nuclear

Av. Rio Branco, 53, 17º andar, sala 1.702 - Centro Rio de Janeiro (RJ) - CEP 20.090-004 Tel/Fax: (21) 2203-0577 / 2266-0480