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CAPA DA EDIÇÃO Nº 41
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EDIÇÃO Nº 41

A INB tem todas as condições de ser rentável e independente do Tesouro

O presidente das Indústrias Nucleares do Brasil – INB, Aquilino Senra, vê na empresa um enorme potencial de desenvolvimento. Além de cobrir três quartos do seu orçamento com receitas próprias – apenas um quarto vem do Tesouro -, “ela possui, enterrada no subsolo, uma capacidade energética proporcional à da camada pré-sal do petróleo, para ser colocada à disposição da sociedade”, garante. Mas, para que isso aconteça, ele diz ser necessário que o governo dimensione o Programa Nuclear Brasileiro. “Precisamos dessa definição para que possamos planejar, com segurança, o nosso futuro”, afirma. Especialista em Física de Reatores, antes de assumir a presidência da INB em abril, Senra foi vice-diretor do Instituto Luis Alberto Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe/UFRJ). Professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi pesquisador visitante da Universidade Carnegie-Mellon (EUA), membro dos comitês assessores do CNPq e da Capes e da Comissão Consultiva de Radioproteção e Segurança Nuclear do Conselho Superior de Política Nuclear da Presidência da República. Em 2008 foi agraciado com a Ordem Nacional do Mérito Científico pelo Presidente da República. Atualmente é membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia da Presidência da República. Nesta entrevista a Vera Dantas, da Brasil Nuclear, ele fala das metas e desafios que se colocam para a empresa e revela a possibilidade de que ela venha a estabelecer uma relação de cooperação com algum país do terceiro mundo, envolvendo a venda de serviços de enriquecimento.

Quais são as suas metas para a INB?

Ao assumir a presidência da INB, eu tracei quatro objetivos imediatos. O primeiro deles é equacionar a produção de urânio no país, que era insuficiente para atender às demandas nacionais. O segundo objetivo é a consolidação do ciclo do combustível nuclear, com a instalação definitiva das etapas de conversão e de enriquecimento isotópico do urânio. Em terceiro lugar, era preciso resolver o passivo ambiental da empresa, representado pelo material gerado pelo tratamento da monazita para extração de terras raras, urânio e tório, acumulado há várias décadas. E o quarto objetivo é a reestruturação organizacional da INB. Mas, vou abordar primeiro a questão do passivo ambiental, que já está sendo equacionada.

Em que consiste este passivo ambiental?

Uma parte do passivo ambiental é oriundo da Usina Santo Amaro – USAM, que processava areias monazíticas para a produção de compostos de terras raras e que era guardado para uma extração futura de terras raras e de elementos energéticos como tório e até mesmo urânio. Esse material estava sendo armazenado desde o final da década de 1950, inicialmente em São Paulo e, depois, em Poços de Caldas, Minas Gerais. São 15.700 toneladas armazenadas em tambores e bombonas (recipientes de acondicionamento empregados em depósitos químicos). Como o projeto de processamento para a retirada de terras raras foi abandonado, por ser economicamente inviável, devido ao rigor da legislação ambiental brasileira, a solução encontrada foi a exportação daquele material para a China.

Outra parte do passivo ambiental refere-se à geração de água ácida na Usina de Caldas – UTM, que causa a solubilização de diversos metais, sendo uma possível fonte geradora de contaminantes para o meio ambiente. Para resolver esse problema, diversos projetos estão sendo implantados pela INB para remediação e proteção do meio ambiente.

 

- A lavra subterrânea de Caetité está em licenciamento há 7 anos. Estamos buscando outras opções de exploração a céu aberto nos próximos anos.
Aquilino Senra

 

A questão da produção interna do urânio também está sendo equacionada?

No início de agosto, apresentamos o Plano Plurianual da INB para o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marco Antonio Raupp, para o secretário-executivo Luis Antônio Elias, secretário de Inovação Tecnológica Álvaro Prata e uma comitiva do Ministério. Na apresentação, realizada na unidade de Resende, abordei inicialmente os problemas enfrentados pela empresa, a começar pela insuficiência na produção de urânio. Expliquei que, ao assumir a empresa, corríamos o risco de termos que importar, já em 2013, algo em torno de 339 toneladas de concentrado de urânio, no valor estimado de R$ 76 milhões. Além disso, havia licenciamentos pendentes, tanto nucleares quanto ambientais.

A necessidade de importação estava ligada à falta de licenciamento?

Também. Mas o principal motivo era que, embora existam em Caetité 38 anomalias de urânio, uma única mina estava em produção, a referente à anomalia 13. É importante explicar que existem dois tipos de lavra: uma a céu aberto e outra subterrânea. No caso da anomalia 13, embora o ideal seja a exploração subterrânea, decidimos fazer um rebaixamento, a céu aberto. Isso porque a lavra subterrânea está em processo de licenciamento na Cnen desde 2006, ou seja, há sete anos. Como esse era o foco da empresa, sem a licença, ficou-se sem alternativa. Buscando outras opções, encontramos as anomalias 9 e 35, para exploração a céu aberto nos próximos anos.

Qual o motivo da demora no licenciamento?

A lavra subterrânea é uma técnica bem dominada para qualquer área de mineração, seja para ouro, ferro, níquel, cobre etc., com exceção do urânio. O País não possui experiência de licenciamento de mina subterrânea de urânio. Aliado a isso está o grande rigor que caracteriza os processos na área nuclear. Vou dar um exemplo: uma pedra que caia numa mina convencional, a céu aberto, é um acidente de trabalho; uma pedra que caia numa mina a céu aberto de urânio é um acidente nuclear. O evento ganha uma proporção e uma dimensão totalmente diferente. Consequentemente, os órgãos de licenciamento têm uma enorme resistência à concessão da licença. Então, tem que ser provado à exaustão que não vai cair nenhuma pedra. No caso da mina subterrânea, o maior problema é o radônio. Você tem a produção de radônio e, portanto, tem que ter todo um projeto de ventilação muito bem dimensionado.

Que providências foram tomadas para evitar a importação em 2013?

Desde o ano passado, circulavam rumores no setor nuclear que a usina Angra 3 não entraria em operação em 2016, como previsto. Mas a INB trabalhava com a perspectiva de ter que entregar a carga inicial de Angra 3 até 2015, um ano antes da data prevista para entrada em operação da usina. Por isso, minha primeira iniciativa ao assumir a presidência da empresa, no início de abril, foi marcar uma reunião com a diretoria da Eletronuclear, para saber a data exata da operação da usina. Na ocasião, me informaram que será em maio de 2018. Depois dessa reunião, também foi feito pela Eletronuclear um anúncio público. Só essa mudança de data nos permitiu ganhar dois anos de produção. As 339 toneladas que teríamos que importar eram, basicamente, para atender a primeira carga de Angra 3. Foi uma medida simples, mas que permitiu fazer um replanejamento da produção. Em 2013, não vamos importar um grama de urânio.

E em 2014?

Estamos aguardando a decisão da Cnen sobre o licenciamento do projeto de rebaixamento da cava da mina de Cachoeira, que é a anomalia 13. O projeto é bom e, em minha opinião, garante a produção de 2014 com segurança. Mas, neste caso, opinião não conta e por isso estamos fazendo testes adicionais para validar o modelo usado no projeto do rebaixamento da cava. Se a Cnen der a licença, também não importaremos um grama de urânio em 2014. Mas, para isso, precisamos ter essa licença no início do próximo ano. Isso porque, a partir dessa data, é necessário dar início aos processos de contratação de serviços para as atividades de exploração.

E de 2014 em diante?

Para 2014, a previsão é a produção de 380 toneladas de concentrado de urânio, através do rebaixamento da cava da mina da Cachoeira. Em 2015, a lavra a céu aberto da mina do Engenho (anomalia 9) deverá adicionar uma produção anual de 350 toneladas. Ainda em 2015, pretendemos ter a licença de operação de lavra subterrânea de mina de Cachoeira (anomalia 13), onde está sendo feito o rebaixamento. A partir de março de 2015, quando passará a ser lavrada subterraneamente, ela começará a produzir 400 toneladas anuais. E, também, a anomalia 35 deve entrar em produção em 2016. Em janeiro de 2017, deve começar a operar a mina de Santa Quitéria, no Ceará, cuja produção está estimada em 1.200 toneladas anuais de concentrado de urânio. Tudo isso é mais que suficiente para atender a nossa demanda interna.

Como está o projeto de Santa Quitéria?

Santa Quitéria é um projeto que vem sendo desenvolvido de longa data, mas que apresentava três problemas. Em primeiro lugar, as solicitações de licença ambiental e nuclear ainda não estavam concluídas. Em relação ao segundo problema, é necessário explicar que, ao contrário de Caetité, que contém somente urânio, Santa Quitéria é uma mina de urânio associada ao fosfato. Isso exige o desenvolvimento de uma rota tecnológica para a separação do urânio e do fosfato. A INB e sua associada Galvani - empresa que tem interesse comercial no fosfato - financiaram a pesquisa. No entanto, ainda era preciso realizar um convênio que garantisse o direito de uso dessa rota tecnológica. Além disso, o processo de liberação dos recursos financeiros para a implantação do empreendimento, conduzido pela Galvani, tinha sido suspenso. Por tudo isso, estávamos preocupados de não podermos começar a operar em 2017. Mas, trabalhamos intensamente e, hoje, todas as soluções estão encaminhadas, seja em relação às solicitações de licenciamento, quanto à definição da rota tecnológica e ao processo de obtenção dos recursos financeiros, que foi retomado pela Galvani.

E em relação à sua segunda meta?

Com relação ao ciclo do combustível, as lacunas são basicamente conversão e enriquecimento. A etapa de conversão, que é transformar o concentrado de urânio no hexafluoreto de urânio, responde por 5% do custo do ciclo do combustível e é realizada no exterior. O plano plurianual da empresa conta com um projeto de nacionalização, há cerca de quatro anos, mas os recursos ainda não foram liberados.

Com uma participação tão pequena no custo total do ciclo do combustível, qual a vantagem de fazer uma usina de conversão?

Por uma razão simples: para termos autossuficiência, capacidade própria de produção; para não dependermos dos humores das relações internacionais que, de uma hora para outra, podem implicar em um bloqueio que nos impeça de fazermos a conversão no exterior. Por isso, perseguimos este objetivo. A previsão é que, até 2020, tenhamos em operação o primeiro módulo da usina, com capacidade de conversão de até 1.500 toneladas/ano de fluoreto de urânio (UF6). Há um compromisso do governo, manifestado pelo ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, em relação a isso. Mas, se não resolvermos o problema do enriquecimento, não adianta fazer a conversão. As duas coisas estão associadas. Para isso, apresentamos ao ministro uma proposta de ampliar capacidade de enriquecimento de urânio, em Resende, de forma a garantir, já em 2018, 100% das necessidades de urânio enriquecido de Angra 3. Em 2022, atenderíamos Angra 1 e Angra 3 e, a partir de 2023, as três usinas. Também é objetivo da INB atender à demanda de enriquecimento isotópico até 5% de U-235 do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB) e de reatores de propulsão naval da Marinha do Brasil.

Qual o investimento necessário?

O projeto demanda recursos de cerca de US$ 1,5 bilhão. Apresentamos três alternativas para fazer isso. Uma exclusivamente com recursos do Tesouro; outra envolvendo parcerias público-privadas e uma terceira, através de uma relação de cooperação, que envolva a venda de serviços de enriquecimento, com algum país do terceiro mundo, com o qual o Brasil tenha interesse de aproximação estratégica.

Qual lhe parece mais plausível?

Todas as três são plausíveis. O problema da primeira, utilizando recursos do Tesouro, é que este governo pode assumir o compromisso; mas não há garantia que seja executado ao longo dos próximos governos. Isso é que tem acontecido. Em 2001, a Marinha do Brasil transferiu o direito de uso da tecnologia das centrífugas para a INB, que receberia recursos para produzir os equipamentos. Nos dois primeiros anos, os recursos vieram, conforme solicitados. A partir daí, houve uma forte redução e ficou longe daquilo que estava inicialmente previsto pela dotação orçamentária. Já em relação à parceira público-privada, é preciso cercar-se de algum cuidado, devido à necessidade de preservação do segredo tecnológico.

O senhor é favorável à terceira opção?

Sim. Porque, além de obtermos os recursos necessários para avançarmos com o programa do enriquecimento, nós estaríamos ajudando tecnologicamente nosso parceiro e contribuindo para diminuir a sua dependência dos países centrais. Mas esta é uma decisão de governo e não da INB. Estamos aguardando uma reunião com a Presidente.

A INB importa as varetas do elemento combustível das empresas Westinghouse e Areva. Há planos de nacionalização desses componentes?

Sim. Temos duas metas: uma é a ampliação da nossa capacidade de fabricação e a outra é a nacionalização do elemento combustível. Nossa linha de produção tem uma qualidade excelente, mas precisa ser ampliada para eliminar gargalos ou pontos críticos. Vamos automatizar o máximo possível a linha existente, até 2018, e duplicar a capacidade até dezembro de 2020. Quanto ao elemento combustível, queremos promover a substituição de importações e ter a capacidade de, no futuro, projetar o elemento combustível. Em outras palavras, nossa meta é fortalecer a área de engenharia da INB com capacidade de nacionalização do combustível nuclear, nacionalização dos serviços de inspeção, reparo e manipulação dos elementos combustíveis e desenvolvimento de novos materiais como, por exemplo, uma liga de zircônio que está sendo feita em parceria com a Coppe/UFRJ.

O que levou a INB a criar este projeto?

O projeto, que está sendo desenvolvido junto com o grupo de Materiais da área de Engenharia de Metalurgia da Coppe, é muito importante para a empresa. Estamos buscando desenvolver elementos combustíveis que tenham o maior tempo possível de duração. Para isso, precisamos de materiais que sejam não-corrosivos, que garantam a integridade devido à variação forte de temperatura que ocorre dentro do reator nuclear.

 

- O problema de investir no enriquecimento com recursos do Tesouro é que este governo pode assumir o compromisso; mas não há garantia que seja executado ao longo dos próximos anos.

 

Qual o tempo necessário para completar o processo de nacionalização?

Trata-se de um processo naturalmente longo, mas traçamos uma estratégia que nos permitirá queimar algumas etapas. Eu não posso entrar em detalhes, mas, de uma maneira geral, estamos pensando em implantar um programa que consiste em contratar especialistas da área nuclear, através de contratos temporários. Calculo que, desta forma, teríamos condições de acelerar o processo de domínio tecnológico e, em aproximadamente cinco anos, o Brasil estaria capacitado a fazer o seu próprio projeto de combustível nuclear.

Em que consiste a quarta meta?

O quarto objetivo é reestruturar a INB em termos organizacionais, buscando transformá-la em uma empresa rentável. E a INB tem todas as condições para isso. Hoje, apenas um quarto do orçamento da INB vem do Tesouro. Os três quartos restantes são receitas próprias. Trata-se de uma empresa com um enorme potencial de desenvolvimento, tão grande que poderia ser independente do Tesouro. Ela possui, enterrada no subsolo, uma capacidade energética proporcional à da camada pré-sal do petróleo, para ser colocada à disposição da sociedade. Mas, para isso, é preciso que o governo dimensione o Programa Nuclear Brasileiro. Quantas usinas nucleares serão construídas e em que horizonte? Precisamos dessa definição para que possamos planejar, com segurança, o nosso futuro. A indefinição da dimensão do Programa Nuclear Brasileiro é, certamente, a principal condicionante externa para implantação adequada do planejamento plurianual da INB.

Qual a tendência mundial em relação à utilização da energia nuclear?

Passado o impacto negativo do acidente de Fukushima a opção nuclear voltou a ser discutida de forma menos emocional nos países que fazem ou pretendem fazer uso dessa fonte de energia. Sou de opinião que o tema do aquecimento global voltará a impulsionar a opção nuclear. Outro aspecto favorável é a entrada em operação dos primeiros reatores nucleares de terceira geração, muito mais seguros e econômicos. Para comprovar essa tese, cito a decisão anunciada pelo governo britânico, no final de outubro, da construção de duas usinas nucleares para compensar o fechamento nos próximos 10 anos de uma série de usinas elétricas a carvão.

E no Brasil, como estamos?

Estamos sem uma definição clara da dimensão do nosso programa nuclear. Temo que a definição não ocorra neste ano e, por conta do calendário eleitoral do próximo ano, acabe sendo empurrada para 2015. Na minha opinião, o país deveria estar construindo pelo menos duas novas usinas nucleares na próxima década, para contribuir para a segurança energética nacional, atualização da tecnologia dos reatores nucleares e ampliação da participação da fonte nuclear na matriz energética.

Que desafios têm a INB neste momento?

São vários, mas todos relacionados com o atendimento dos prazos estabelecidos no cronograma do planejamento plurianual da empresa. Existem inúmeras condicionantes que devem ser executadas conforme previsto para garantir que as metas sejam atingidas no prazo. Mas, todos na INB têm noção das suas responsabilidades e queremos que a empresa ganhe força e prestígio dentro e fora do Brasil. Para isso, trabalhamos firme e de maneira integrada.

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