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EDIÇÃO N° 40

RMB: em 2018, autossuficiência na produção de radioisótopos

Eloyza Guardia

O Brasil está a cinco anos de se tornar autossuficiente na produção de radioisótopos e fontes radioativas usadas na medicina nuclear, na indústria, agricultura e meio ambiente. A almejada “autossuficiência” também abrangerá a realização de testes de irradiação de materiais e combustíveis nucleares e a realização de pesquisas científicas e tecnológicas com feixes de nêutrons. A “independência” nuclear do país virá com a entrega prevista para o inicio de 2018 do primeiro Reator Multipropósito Brasileiro de grande porte (RMB), que terá 30 megawatts de potência e capacidade de atender à demanda nacional em todos esses setores.

“O RMB tem por objetivo dotar o país de uma infraestrutura estratégica de suporte ao desenvolvimento autônomo de atividades do setor nuclear”, explica José Augusto Perrotta, assessor da Presidência da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) e coordenador-técnico da implantação do empreendimento. Atualmente, o principal reator nuclear de pesquisas do país é o Reator IEA-R1 do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), uma das unidades da Cnen, que tem 55 anos de operação e uma vida útil restante de menos de dez anos. Se não houver outro reator para substituí-lo, atividades importantes da área de pesquisa nuclear e produção de radioisótopos deixarão de ser feitas no Brasil.

Projeto há muito desejado pelas comunidades ligadas ao setor nuclear, que já se mobilizavam para buscar apoio nas esferas governamentais para o empreendimento, a necessidade de construção de um reator multipropósito ganhou mais visibilidade com a crise vivida pelo setor de saúde entre 2009 e 2010, quando uma parada sofrida pelo reator nuclear canadense National Research Universal (NRU), responsável pelo atendimento de mais de 30% da demanda mundial de molibdênio-99, gerou o primeiro grande desabastecimento internacional do medicamento.

O decaimento radioativo do molibdênio-99 produz o radioisótopo tecnécio-99m, utilizado nos radiofármacos mais empregados na medicina nuclear - cerca de 80% dos procedimentos - para a realização de exames que permitem diagnosticar tumores, doenças cardiovasculares, função renal, problemas pulmonares e neurológicos, entre outros. Grande parte da demanda mundial do molibdênio-99 é atendida por apenas quatro reatores nucleares de pesquisa de grande porte: o NRU, no Canadá; o HFR-Petten, na Holanda; o Safari, na África do Sul e o BR2, na Bélgica. No Brasil, são realizados atualmente cerca de 2 milhões de procedimentos por ano com radiofármacos que utilizam radioisótopos produzidos em reatores nucleares.

Os serviços de medicina nuclear atendem a um público formado em grande parte por pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). O país consome cerca de 4% da produção mundial anual do molibdênio-99 e, embora seja um grande produtor de radiofármacos (correspondendo a um faturamento de mais de R$ 86 milhões pela Cnen em 2012), ainda importa o insumo. Além disso, o problema com o reator canadense também afetou a disponibilização do radioisótopo iodo-13, usado no tratamento do câncer da tireóide e que ainda possui uma fração do consumo importada pelo país.

Atualmente, o país gasta anualmente mais de R$ 30 milhões com a importação de radioisótopos para a produção de radiofármacos. Para se ter ideia da economia proporcionada pelo RMB, seu custo, que está orçado em US$ 500 milhões (R$ 1 bilhão) - calculado com base em instalações semelhantes construídas recentemente em outros países -, poderá ser amortizado em 20 anos. A vida útil do equipamento é de 50 anos.

A mobilização dos setores envolvidos, somada à crise de desabastecimento externa e suas consequências, foram fatores determinantes para que o RMB fosse incluído entre as metas do Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação para 2007-2010 (PACTI/MCT) e hoje estabelecido no PPA 2012-2015 governamental.

Para agilizar a liberação de recursos para o início do projeto do RMB, o setor contou com a ajuda de um “advogado” muito especial: o então vice-presidente José de Alencar. “Nós entramos em contato com o vice-presidente no início de 2010. Ele demonstrou sensibilidade ao entender a importância do reator para o país, possibilitando torná-lo autossuficiente na produção de radioisótopos e foi muito ágil nos contatos com os ministros envolvidos. Posteriormente, enviou carta especificando as ações que ele tinha tomado para ajudar na liberação”, revela o ex-presidente da Aben Edson Kuramoto.

Os primeiros recursos, R$ 15 milhões, foram fornecidos pelo MCTI através do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT/Finep) em 2011, como parte dos R$ 50 milhões que serão gastos na fase inicial de projeto básico do empreendimento. Em 2012, o projeto utilizou R$ 2 milhões orçamentários e a previsão para 2013 é que a Finep complete o restante dos R$ 50 milhões. No entanto, ainda não está equacionada a fonte de recursos para a importante fase de EPC (projeto executivo, aquisição e construção), sendo este um dos pontos críticos de risco da não realização do empreendimento no prazo pretendido.

Estudos e projetos

O reator será construído no município paulista de Iperó, a 130 quilômetros de São Paulo, junto ao Centro Experimental de Aramar, da Marinha, onde é desenvolvido o protótipo do submarino nuclear brasileiro. Parte do terreno - uma área de 1,2 milhão de metros quadrados - foi cedida pela Marinha para a Cnen, e a parte complementar de 800 mil metros quadrados necessária será cedida pelo Governo do Estado de São Paulo.

No total, o empreendimento contará com uma área de mais de 2 milhões de metros quadrados, o que “possibilitará a transformação do local no principal polo de tecnologia nuclear do país, pois terá dois reatores nucleares (o de pesquisa, RMB, e o de teste, Labgene) e toda uma importante infraestrutura laboratorial de tecnologia nuclear”, prevê Perrotta. “Pode-se antever instalações como o Laboratório de Fusão Nuclear (LFN), laboratório com aceleradores de partículas, laboratório de lasers de alta potência, podendo o sítio também receber laboratórios mais modernos para a fabricação dos radiofármacos (que hoje estão no Ipen), entre outros”, acrescenta.

A gestão, projeto conceitual, análise do projeto básico e licenciamento do empreendimento são realizados pelos técnicos das várias unidades da Cnen com a complementação de engenharia de empresas contratadas. Os estudos de impacto ambiental e seu respectivo relatório (EIA/Rima) estão sendo finalizados pela empresa brasileira MRS Estudos Ambientais, devendo ser entregues em breve ao Ibama. Também está em elaboração o relatório para obtenção de licença de local, instrumento legal exigido pela Cnen.

O projeto de engenharia conceitual e básico de prédios, sistemas e infraestrutura do RMB está sendo elaborado pela empresa brasileira Intertechne, contratada por licitação em janeiro de 2012. O prazo de entrega é no final de 2013.

Também está em andamento a montagem do processo para contratação do projeto básico dos sistemas nucleares do RMB (reator propriamente dito, I&C e feixe de nêutrons). A contratação faz parte do acordo assinado com a Comissão Nacional de Energia Atômica da Argentina (Cnea) para o desenvolvimento de um projeto básico comum dos reatores multipropósitos do Brasil (RMB) e da Argentina (RA-10).

Segundo Perrotta, o acordo visa a usar como referência técnica o reator de pesquisas australiano Opal, projetado pela empresa argentina Invap e posto em operação em 2007. Além da economia de custos para os dois países, a decisão de usar o Opal como referência técnica facilitará a obtenção dos licenciamentos ambientais e nucleares para o RMB, pois o equipamento está instalado a apenas 40 quilômetros de Sydney, a cidade com maior população da Austrália, e é considerado um bom exemplo de reator na indústria nuclear.

Além do prédio onde ficará instalado o reator nuclear e do prédio de estocagem do combustível irradiado, o projeto prevê a construção do Laboratório de Processamento de Radioisótopos, que fabricará os radioisótopos para aplicação na medicina e na indústria, atualmente importados, bem como ampliará a produção de traçadores radioativos para uso em pesquisas de agricultura e meio ambiente.

Outro prédio será o Laboratório de Análise de Materiais Irradiados, para testes de caracterização e análise de desempenho de combustíveis e materiais irradiados e usados nos reatores nucleares de potência como os de Angra dos Reis e de propulsão naval, algo que até agora não é realizado no país.

Haverá um Laboratório de Radioquímica para pesquisa e caracterização de materiais pela técnica de análise por ativação por nêutrons. Haverá ainda um Laboratório Nacional de Feixe de Nêutrons que complementará as atividades realizadas pelo Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS-CNPEM, em Campinas) no atendimento à comunidade científica brasileira em suporte a pesquisas em áreas como nanotecnologia, biologia estrutural, desenvolvimento e caracterização de novos materiais, etc. Essa instalação contribuirá de forma muito expressiva para a pesquisa e a ciência nacionais.

“O empreendimento é um projeto de arraste e estruturante para a área nuclear do país”, destaca o assessor da Presidência da Cnen. “Ele realiza o ‘ciclo social do combustível nuclear’, onde o urânio da mina é extraído, concentrado, transformado em gás, enriquecido, transformado em combustível e alvos, irradiados no RMB, processados para extração do molibdênio-99 e iodo-131, transformados em radiofármacos e utilizados por milhões de brasileiros em clínicas e hospitais do país. Em todo esse ciclo existem competência e tecnologia nacional que devem ser mantidas, aprimoradas e utilizadas”, completa.

Além de todas as contribuições nas mais variadas áreas da sociedade, com o destaque para a saúde, o avanço tecnológico e científico que a instalação do RMB trará para o Programa Nuclear Brasileiro virá conjugado com a ampliação do recurso talvez mais importante: formação da nova geração de mão de obra especializada no setor. “Um empreendimento da envergadura e duração do RMB traz junto uma série de outras atividades que abrirão novas fontes de emprego para mão de obra de nível superior e médio, em um processo de crescimento que acabará por envolver milhares de pessoas que contribuirão para o desenvolvimento científico, tecnológico e econômico do país”, acredita Perrotta.

Características de segurança em reatores de pesquisa e de potência

Os reatores de pesquisa e os reatores de potência, usados em usinas de geração de energia, como as da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, em Angra dos Reis, apresentam várias diferenças. Uma delas é a característica de segurança. “Nos reatores de pesquisa, a piscina do reator é a própria blindagem e refrigerante. Ela mantém baixa a temperatura dos combustíveis do reator, o que dá uma segurança inerente muito grande ao sistema, que também é bem mais simples”, explica José Augusto Perrotta.

Da mesma forma, os reatores de pesquisa têm o funcionamento e os projetos para obter o intenso fluxo de nêutrons necessário às aplicações diferentes dos usados em usinas nucleares. Enquanto estes se focam na eficiência termodinâmica para produzir o máximo de eletricidade como resultado de seus processos, os equipamentos multipropósito operam a temperaturas baixas visando maximizar o uso dos nêutrons gerados pela fissão dos átomos de urânio. Para isso, utilizam como combustível urânio-235 com enriquecimento de 20%, contra 4% das usinas nucleares. “A concentração de urânio no combustível dos reatores de pesquisa é cerca da metade daquelas dos reatores de usinas nucleares. Portanto, para compensar a menor quantidade de urânio, é preciso que eles utilizem um enriquecimento maior para atingir a massa crítica e manter as reações nucleares. Isso permite, ainda, ter um reator mais compacto, o que também contribui para a obtenção de um fluxo de nêutrons maior”, descreve Perrotta.

Associação Brasileira de Energia Nuclear

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