Receba as newsletters da ABEN:
Imagem loading
English
Revista Brasil Nuclear Revista Brasil Nuclear

Pesquise uma Notícia

CAPA DA EDIÇÃO N° 40
Ver Mais: EDIÇÃO Nº 48 : EDIÇÃO Nº 47 : EDIÇÃO Nº 46 : EDIÇÃO Nº 45 : EDIÇÃO Nº 44 : EDIÇÃO Nº 43 : EDIÇÃO Nº 42 : EDIÇÃO Nº 41 : EDIÇÃO N° 39 : EDIÇÃO N° 38
Assinar a revista brasil nuclear ANUNCIE NA REVISTA BRASIL NUCLEAR
EDIÇÃO N° 40

Aben: 30 anos em defesa do setor nuclear

Vera Dantas*

Em 7 de dezembro de 1982, um grupo de profissionais da área nuclear fundava a Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben). Na solenidade, realizada no Clube de Engenharia, no Rio de Janeiro, foi empossada a primeira diretoria da nova entidade, formada por: Antônio Carlos Barroso (presidente), Luis Fernando Seixas (1º vice-presidente), Cláudio Rodrigues (2º vice-presidente), Marco Boyout Alvarenga (tesoureiro), Wanderley Luís Desordi (1º secretário), José A. D. Dieguez (2º secretário), Ronaldo M. Schmidt, Antonio Ernesto F. Muller, Antonio Carlos M. Alvim e Zevi Kann (vogais).

Funcionário da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) e professor em horário parcial na Coppe/UFRJ, o engenheiro nuclear Antonio Carlos Barroso participou do processo de criação da nova entidade, desde as discussões iniciais para a redação do estatuto, realizadas em uma pequena sala no quarto andar da sede da Cnen, cedida pelo então presidente Rex Nazaré. Ele lembra do cuidado exigido para a montagem da primeira diretoria, quando se buscou equilibrar as principais correntes do setor. “Naquela época, havia uma certa divisão entre o discurso da Nuclebrás, Nuclen e outras subsidiárias, que eram muito ‘chapa branca’, e o discurso da universidade, ficando a Cnen e Furnas no meio termo. Nós queríamos uma associação com um discurso menos contaminado”, afirma.

A Aben começou a funcionar com cerca de 80 sócios, que passaram a 600 no final do mandato da primeira diretoria. Sua atuação nessa fase inicial era a de “uma entidade técnica, mas sem as barreiras impostas pelo discurso ‘chapa branca’, que impedia aos funcionários da Nuclen e Nuclebrás qualquer questionamento”, explica Barroso. A ousadia no engajamento político, segundo ele, só viria a acontecer a partir de 1985, com o início da transição da ditadura para a democracia, através da eleição indireta para Presidente da República, “quando a Aben passou a ocupar um espaço político maior”.

Uma das primeiras iniciativas da Aben foi a criação de eventos que congregassem a comunidade nuclear. Nesse sentido, a entidade incorporou o Encontro de Física de Reatores (Enfir), já existente, e criou o Congresso Geral de Energia Nuclear (Cgen), realizado a cada dois anos. A primeira edição do Cgen, realizada no Hotel Glória (RJ), atraiu um grande número de participantes e teve mais de 300 trabalhos inscritos. Guilherme Camargo, que exerceu a presidência da Aben em dois períodos, lembra as dificuldades enfrentadas pela jovem entidade na organização do III Cgen, em 1990. “Era uma aventura, um grande desafio. A experiência adquirida e a infraestrutura com que contamos, hoje, nos permitem realizar congressos de maior porte e em diferentes localidades, como tem sido a Inac, com um grau de confiabilidade muito maior do que tínhamos naquela época”.

A participação nos debates realizados durante os trabalhos da Constituinte marcou o início da atuação política da Aben. A entidade conseguiu incluir na Constituição de 5 de outubro de 1988 diversos artigos preservando o setor nuclear, que tinha sido reformulado pelo Decreto-Lei 2.464, o último da Constituição anterior. Para Guilherme Camargo, “a atuação da Aben naquele período de mudança foi extremamente importante porque deu início a um melhor ordenamento e à unificação das atividades nucleares no país”.

A inserção política da Aben se intensificou, no início dos anos 1990, com o Programa de Aceitação Pública da Energia Nuclear (Apub), criado como reação aos lobbies antinucleares que ameaçavam inviabilizar a construção de Angra 2. “Vivíamos, naquela época, uma grande crise de percepção pública. Devido aos acidentes de Chernobyl, em 1986, e de Goiânia, em 1987, a imagem do setor nuclear era associada a perigos e acidentes. Além disso, o Greenpeace estava organizando um abaixo-assinado, com a meta de 500 mil assinaturas, contra a construção de Angra 2 e propondo o fechamento de Angra 1, que enfrentava problemas técnicos e era chamada, pejorativamente, de usina vagalume”, lembra Guilherme Camargo.

O Apub é considerado uma das grandes realizações da Aben, segundo seus ex-presidentes. Para Edson Kuramoto, “é um dos marcos” da entidade. Na visão de Guilherme Camargo, o programa foi o maior avanço da Aben, em seus 30 anos de existência. “Com instrumentos de divulgação como a revista Brasil Nuclear e a newsletter Fonte Nuclear, e uma forte campanha no Congresso Nacional, o Apub mudou a percepção pública da sociedade brasileira em relação à questão nuclear e transformou a nossa associação em uma referência do setor nuclear brasileiro e até mesmo mundial”, afirma.

Em uma importante intervenção política, a Aben defendeu a soberania do Brasil em relação à inspeção da instalação de enriquecimento de urânio da INB, em Resende, pela Agência Internacional de Energia Atômica. Em entrevistas e artigos publicados na grande imprensa, a diretoria da entidade apoiou a posição do governo brasileiro, contrária à abertura total da instalação à AIEA. “Argumentamos que o Programa Nuclear Brasileiro tinha fins pacíficos e que, como signatário do Tratado de Não Proliferação (TNP), o Brasil se comprometera a não desenvolver armamentos nucleares. Portanto, o país não era obrigado a mostrar ao mundo a tecnologia que desenvolvemos”, explica Edson Kuramoto, presidente da Aben à época. Sem ceder à pressão de movimentos internacionais e mesmo de alguns físicos nucleares brasileiros, entrevistados pela imprensa, o Brasil teve sua posição respeitada. Segundo Kuramoto, o incidente foi muito importante para despertar no governo brasileiro a consciência da importância estratégica da energia nuclear.

Outro marco da Aben foi a criação da International Nuclear Atlantic Conference (Inac), em 2002. O evento atraiu um grande número de participantes e deu grande visibilidade ao setor nuclear, no momento em que este começava a campanha pela retomada da construção de Angra 3. “Alcançamos nosso objetivo de atrair jovens pesquisadores e estudantes, que formam, hoje, quase 50% do público da Inac. É o maior evento da América do Sul na área e um dos maiores eventos técnico-científicos em número de trabalhos apresentados. Tivemos mais de 1.200 trabalhos inscritos e mais de 900 trabalhos aprovados no último congresso. A participação estrangeira é crescente a cada edição”, afirma Kuramoto.

Avançando em sua participação política, a Aben criou o Fórum Pró-Angra 3, que contou com a participação do Sindicato dos Engenheiros, da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e do Clube de Engenharia, entre outras entidades, além de parlamentares e diversas personalidades. “O nosso desafio era incluir a energia nuclear na agenda do presidente Lula, que tinha assumido em 2003. À medida que realizávamos debates e outras ações públicas de esclarecimento da sociedade, o movimento foi ganhando corpo e chamando a atenção do governo, que começou a discutir a possibilidade de construção de Angra 3, nas reuniões do CNPE, em 2005. O processo culminou com a aprovação, em 2007, da retomada das obras da usina, já na administração do Francisco Rondinelli. Foi uma das grandes vitórias da Aben”, declara Kuramoto.

A participação da Aben também foi fundamental para alavancar o projeto de construção do Reator Multipropósito Brasileiro. A entidade buscou e obteve o apoio do vice-presidente da República, senador José de Alencar, na época um usuário de exames de diagnóstico e terapias baseados na energia nuclear para o tratamento do câncer. Consciente da importância do RMB para o avanço da medicina nuclear no Brasil, Alencar intercedeu pessoalmente para a liberação de recursos para o projeto.

O mais recente desafio enfrentado pela Aben foi o impacto, junto à opinião pública, do acidente na usina nuclear de Fukushima. Durante todo o período pós-acidente, a entidade não só enfrentou e desmistificou as campanhas antinucleares, como mobilizou-se para explicar à sociedade as causas e mostrar a verdadeira dimensão do acidente.

Nos seus 30 anos de existência, a Aben enfrentou inúmeros desafios e contabilizou importantes vitórias. Mas, segundo Guilherme Camargo, sua principal realização foi ter evoluído de “uma associação técnico-científica para se transformar em uma entidade de caráter técnico-político-institucional”.

*Com a colaboração de Bernardo Mendes Barata

Associação Brasileira de Energia Nuclear

Rua Candelária, nº 65, 14º andar - Centro, Rio de Janeiro (RJ) - CEP 20.091-906 / Tel: (21) 2266-0480 / (21) 2588-7000 - ramal 4721