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EDIÇÃO Nº 47

Ipen e CTMSP concluem primeiro combustível para o RMB

Vera Dantas

O Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) e o Centro Tecnológico da Marinha (CTMSP) concluíram o protótipo do primeiro combustível nuclear para o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB). O combustível metálico tipo placa, com urânio enriquecido a 19,9%, será testado no Reator Nuclear de Pesquisas Ipen/MB-01 e foi apresentado durante a celebração do 61º aniversário do Instituto Nacional de Pesquisas Energéticas (Ipen), no dia 31 de agosto passado.

O novo combustível é o primeiro de uma série de 19 elementos combustíveis a serem colocados no núcleo do reator Ipen/MB-01, que está sendo utilizado como unidade de estudo dos núcleos para o RMB. O Ipen/MB-01 permite a realização de pesquisas na área de física de reatores como a simulação de características nucleares de um reator de grande porte. O projeto prevê a modificação do núcleo do reator do Ipen, que é do tipo vareta, para o núcleo tipo placa do RMB. A expectativa é que até outubro de 2018 seja entregue a carga dos 19 elementos combustíveis para o reator do Ipen, e que, futuramente, irão compor o núcleo do RMB.

O desenvolvimento do novo combustível integra o projeto "Adequação das Instalações do Fornecimento de Combustível para o RMB", orçado em R$ 25 milhões, com recursos provenientes de convênio com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). De acordo com o coordenador técnico do Projeto RMB, José Augusto Perrotta, da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), esses recursos destinam-se ao desenvolvimento dos processos e à ampliação da capacidade de fabricação do combustível nuclear para o RMB. O Centro de Combustível Nuclear (CCN) do Ipen terá a capacidade de produzir 60 elementos combustíveis por ano e mil alvos de urânio para produzir o molibdênio-99 – hoje são produzidos cerca de 12 elementos combustíveis/ano. O CTMSP já desenvolveu um conjunto de cascatas de enriquecimento isotópico de urânio, com capacidade de enriquecer até 19,95%, para fornecer ao RMB quando o reator entrar em operação – a primeira cascata de ultracentrífugas foi inaugurada no final de 2016. Perrotta ressalta o poder de capacitação tecnológica do projeto RMB. "Tudo isso é fornecimento nacional. O urânio enriquecido é nacional, a fabricação de combustível e alvo é feita no Ipen, tudo é tecnologia própria, nada é importado", afirma.

Um espelho do país

Iniciado em 2008 e com previsão de estar implantado em seis anos, o RMB só deverá entrar em operação em 2023. Uma trajetória que, segundo José Augusto Perrotta, assemelha-se à trajetória do país. O atraso do projeto deve-se, em grande parte, às dificuldades enfrentadas junto ao governo para obter a liberação das verbas previstas. "O projeto custa US$ 500 milhões, mas, até agora, quase nove anos após o seu início, só recebemos uma fração desse montante. Se tivéssemos os recursos disponíveis, no tempo previsto, a velocidade seria muito maior", diz Perrotta.

O projeto básico do reator, realizado pela empresa brasileira Intertechne e pela empresa argentina de tecnologia e projetos Invap, e financiado através de um convênio com a Finep no valor de R$ 50 milhões, foi concluído em 2014. Ainda em 2014, foi assinado um novo convênio com a Finep, através do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), no valor de R$ 150 milhões, para a realização do projeto detalhado do reator. Mas, devido a mudanças no governo, os recursos só começaram a ser liberados, de forma parcial a partir de junho de 2015 e metade do desembolso concluído apenas em dezembro de 2016.

Assim como no projeto básico, o projeto detalhado do reator será executado por empresa brasileira e pela Invap. Com a entrada oficial da Amazônia Azul Tecnologias de Defesa (Amazul) no projeto, através de um convênio de cooperação técnica com a Cnen, o escopo da participação da empresa argentina limita-se apenas aos sistemas nucleares (reator propriamente dito e sistemas associados). Assim como o CTMSP, a Amazul já vinha colaborando com o projeto RMB. "O termo de criação da Amazul, de 2012, explicita que ela deverá atuar no suporte ao RMB. Esta parceria está tornando isso uma realidade", afirma Perrotta (ver Cooperação Técnica).

O novo combustível é o primeiro de uma série de 19 a serem colocados no núcleo do reator Ipen/MB-01

O coordenador técnico do Projeto RMB ressalta que sempre houve o cuidado de só fechar contratos com possibilidade de execução, uma vez que os recursos são finitos e não têm reajuste. O dinheiro está depositado na Fundação Parque de Alta Tecnologia da Região de Iperó e Adjacências (Pátria) e é desembolsado à medida que os trabalhos são executados. "A regra da Finep estabelece que a liberação de uma nova parcela só pode ser pleiteada quando já foram gastos 80% da parcela anterior", explica.

Em janeiro de 2015, o projeto recebeu a licença de local da Cnen e em maio do mesmo ano, a licença prévia ambiental do Ibama. O empreendimento também já conta com a pré-outorga de água da bacia do rio Sorocaba e do DAEE, que permite também a retirada de água do subsolo (aquífero). De acordo com Perrotta, são fases muito importantes para o projeto, "apesar das restrições financeiras".

Também foi contratada a empresa responsável pela elaboração dos 23 planos ambientais, necessários para a obtenção da licença de instalação junto ao Ibama. A previsão é entrar com o pedido dessa licença ainda em 2017.

O empreendimento será construído em um terreno de 2 milhões de metros quadrados (cerca de 200 campos de futebol), localizado ao lado do Centro Industrial e Nuclear de Aramar, em Iperó, onde também está sendo desenvolvido o projeto do reator para o submarino nuclear brasileiro. Cerca de 1 milhão e 200 mil metros quadrados da área foram cedidos pela Marinha, enquanto 840 mil metros quadrados estão em processo de desapropriação pelo governo do Estado de S. Paulo. Em junho último, o governo de São Paulo depositou em juízo os recursos destinados ao pagamento da desapropriação. Perrotta estima que, dentro de dois ou três meses, a área seja colocada à disposição do empreendimento.

Além dos prédios destinados ao reator nuclear e à estocagem do combustível irradiado, o projeto prevê a construção do Laboratório de Processamento de Radioisótopos, que processará os radioisótopos para aplicação na medicina, na indústria, atualmente importados, bem como ampliará a produção de traçadores radioativos para aplicação em pesquisas de agricultura e meio ambiente. Outro prédio será o Laboratório de Análise de Materiais Irradiados, para testes de caracterização e análise de desempenho de combustíveis e materiais irradiados e usados nos reatores nucleares de potência como os de Angra dos Reis e de propulsão naval, algo que até agora não é realizado no país.

O RMB irá ampliar a capacidade nacional em ciência, tecnologia e inovação. Além de promover a expansão da estrutura existente em pesquisa e em aplicações de técnicas nucleares para aplicação na sociedade, o empreendimento colocará à disposição da comunidade científica nacional um Laboratório de Radioquímica para pesquisa e caracterização de materiais pela técnica de análise por ativação por nêutrons. Está prevista também a criação de um Laboratório Nacional de Feixes de Nêutrons para complementar as atividades realizadas pelo Laboratório Nacional de Luz Sincrotron (LNLS), de Campinas, no atendimento à comunidade científica brasileira em suporte a pesquisas em áreas como nanotecnologia, biologia estrutural, desenvolvimento e caracterização de novos materiais.


Cooperação técnica

A Cnen e a Amazul assinaram, em maio passado, acordo de cooperação técnica para o desenvolvimento do projeto detalhado do RMB. Durante a solenidade de assinatura do acordo, o secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Elton Santa Fé Zacarias, garantiu que o ministério dará todo apoio à construção do RMB, assim como a outros grandes projetos como o navio oceanográfico, o satélite geoestacionário e o superlaboratório Sirius. Ele informou que o Ministério da Saúde deverá participar também do financiamento do projeto. O empreendimento, incluindo a construção do reator, absorverá investimentos de US$ 500 milhões, recursos que virão do Tesouro Nacional.

O projeto detalhado do RMB será desenvolvido por meio de convênio com a Finep, no valor de R$ 150 milhões. Também participará do desenvolvimento do projeto detalhado a Invap S.E., empresa pública argentina de tecnologia e projetos, uma das responsáveis pelo projeto básico do RMB.

De acordo com o diretor-presidente da Amazul, Ney Zanella dos Santos, além do seu "incalculável valor social, já que coloca a tecnologia nuclear a serviço da saúde dos brasileiros", o RMB "promoverá uma sinergia de conhecimento com o Programa Nuclear Brasileiro". A Amazul agregará a expertise de seus técnicos, que participam do Programa Nuclear da Marinha e do Programa de Desenvolvimento de Submarinos.

O projeto básico do RMB está pronto e o empreendimento já tem a Licença Prévia do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Licença Local da Diretoria de Radioproteção e Segurança Nuclear da Cnen.

Fonte: Amazul


Um projeto vital

A construção de um reator multipropósito é um projeto há muito desejado pelas comunidades ligadas ao setor nuclear, que assumiu maior importância entre 2009 e 2010, com a primeira grande crise internacional da falta do molibdênio-99 (99Mo), cujo decaimento radioativo produz o radioisótopo tecnécio-99 (99mTc), utilizado em mais de 80% dos procedimentos de medicina nuclear no mundo, principalmente em exames de cintilografia.

Em 2009, a parada do reator nuclear canadense National Research Universal (NRU), responsável pelo atendimento de 30% da demanda mundial de molibdênio-99 impactou fortemente o funcionamento dos serviços de medicina nuclear em todo o mundo, afetando a vida de milhares de pessoas. O fornecimento do produto está concentrado em cinco reatores de pesquisa de grande porte como: o HFR-Petten, na Holanda; o Safári, na África do Sul; o BR2, na Bélgica; o RA-3, na Argentina e o Opal, na Austrália. Destes, apenas o último tem menos de 45 anos de operação.

O Brasil consome anualmente cerca de 4% da produção mundial de molibdênio-99 (99Mo). Os serviços de medicina nuclear no Brasil atendem um público formado em parte por pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).

O Projeto RMB destina-se a garantir a autonomia nacional na produção de radioisótopos para aplicações na saúde, indústria, agricultura e meio ambiente. Hoje, para atender à demanda anual de 2 milhões de procedimentos em medicina nuclear, o país gasta cerca de US$ 15 milhões com a importação de molibdênio e mais US$ 3 milhões com a importação de outros radioisótopos que são processados e enviados a mais de 400 hospitais e clínicas brasileiras.

A expectativa é que o custo do RMB, orçado em US$ 500 milhões, seja amortizado em 25 anos, contra uma vida útil do equipamento de 50 anos.


Um "advogado" especial

A Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben) contribuiu para agilizar a liberação de recursos para o início do projeto de desenvolvimento do RMB. Como o projeto tinha estacionado nos gabinetes dos ministérios envolvidos, o então presidente da Aben, Edson Kuramoto, buscou o apoio de um "advogado" muito especial: o então vice-presidente José de Alencar. Na ocasião, Alencar lutava contra um câncer, sendo, portanto, usuário de procedimentos de medicina nuclear.

"Nós entramos em contato com o vice-presidente no início de 2010. Ele demonstrou sensibilidade ao entender a importância do reator para o país, possibilitando torná-lo autossuficiente na produção de radioisótopos, e foi muito ágil nos contatos com os ministros envolvidos. Posteriormente, enviou carta especificando as ações que tinha tomado para ajudar na liberação", lembra Edson Kuramoto.

Associação Brasileira de Energia Nuclear

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