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EDIÇÃO Nº 47

30 Anos do acidente de Goiânia

Bernardo Mendes Barata

Quando dois catadores de recicláveis encontraram um aparelho de radioterapia com fonte de césio-137 abandonado e resolveram desmontá-lo e vendê-lo a Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho de Goiânia, no longínquo dia 13 de setembro de 1987, teve início o acidente radiológico mais sério do mundo.

O atraente – e altamente radioativo – pó, que emitia uma luz azul quando no escuro, foi responsável pela morte de quatro pessoas e na contaminação externa ou interna alta de mais de 200 indivíduos, conforme dados oficiais. Segundo o ex-diretor de Radioproteção e Segurança Nuclear da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) Ivan Salati, dois fatores agravaram a situação: o acidente demorou a ser detectado, por ter sido consequência do abandono indevido de um equipamento de radioterapia, e por ter ocorrido com uma fonte de césio-137, que pela sua forma física de material compactado, de fácil desagregação e dispersão, facilitou a contaminação em uma área extensa da capital de Goiás e de um grande número de pessoas.

Contudo, na visão de Salati, as consequências poderiam ter sido ainda mais sérias se não fosse a atuação de profissionais de instituições como a própria Cnen, Furnas (então responsável pela operação da usina nuclear Angra 1), Batalhão Especializado em Guerra Química e Bacteriológica do Exército e Hospital Marcílio Dias, da Marinha. "Tivemos também a sorte de contar com a liderança do Dr. Rex Nazaré Alves, então presidente da Cnen. Dr. Rex, que participava de uma reunião na AIEA em Viena quando foi comunicado do acidente, retornou ao Brasil e foi para Goiânia. Lá comandou todo o trabalho de descontaminação da cidade, permanecendo no local, organizando e coordenando as diversas empresas e pessoas e diversos órgãos envolvidos no trabalho, saindo somente após a descontaminação ter atingido os níveis desejados estipulados, considerados bastante rigorosos quando comparados com os níveis internacionais recomendados à época. A presença do Dr. Rex, pessoa de alto prestígio internacional, permitiu também o recebimento de auxílio do exterior, principalmente na área de medicina das radiações", recorda.

Criado em 1997 com o objetivo primordial de abrigar e monitorar os depósitos definitivos de rejeitos oriundos do acidente e localizado no município de Abadia de Goiás, o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO) é vinculado à Cnen. Atualmente, a instituição possui, como funcionários de carreira, dez assistentes C&T, cinco analistas de C&T, quatro tecnologistas e um pesquisador, que estão distribuídos por atividades de setor de informações e divulgação, radioproteção ocupacional e ambiental (pesquisa e aplicação), controle institucional e administração.

O coordenador interino do CRCN-CO, Rugles César Barbosa, ressalta a existência da Cnen como organização e sua experiência de mais de seis décadas (completadas nos dias atuais) e mais de três décadas no período do acidente radiológico de Goiânia e acredita que tal bagagem impediu a ocorrência de mais desastres. "Como cidadão goiano, cuja família remonta três gerações, fico grato e aliviado pelo fato de existir tal organização deliberativa (Cnen)! O Brasil é um país inquisitório e não decisório, cabendo a pessoas e órgãos corajosos a assumir o ônus e a responsabilidade de ter a iniciativa de resolver problemas que requerem determinação", destaca.

Dos últimos trinta anos para cá, ocorreram aperfeiçoamentos na área de segurança nuclear, segundo Ivan Salati. Em relação às fontes radioativas, utilizadas principalmente nos setores médico, da indústria e da pesquisa, houve modernização dos meios de controle, como o uso dos sistemas que controlam desde a importação do material radioativo ou equipamentos geradores de radiação, as licenças das empresas e entidades que vão utilizá-los e as autorizações das pessoas licenciadas para trabalhar nesse tipo de atividade. Além disso, seguindo recomendações internacionais, aumentaram as exigências de controle para uso de fontes radioativas, que é acompanhado também por meio de inspeções e fiscalização da Cnen. Seguindo também práticas internacionais, foi proibido no país o uso do césio-137 em equipamentos de radioterapia semelhantes ao que causou o acidente.

"O governo brasileiro desenvolveu um sistema para controle de importações pela Receita Federal, denominado Siscomex. Esse sistema, que funciona online, exige que os órgãos responsáveis pela autorização de determinado tipo de material ou equipamento a ser importado deem a anuência para a realização da importação. Isso permitiu a integração com sistemas desenvolvidos pela Cnen que faziam o controle de instalações e fontes. Além disso, foram desenvolvidos procedimentos mais específicos para o descarte de fontes radioativas sem uso, que devem ser entregues em instalações da Cnen", complementa.

Ao passo que o uso de césio-137 em equipamentos de radioterapia foi sendo gradualmente abandonado tanto no país quanto no exterior, em decorrência de fatores relacionados a potencial de acidentes, houve desenvolvimento da tecnologia dos aceleradores lineares, permitindo a produção compacta de raios-X de alta energia e melhorando as técnicas de tratamento, conforme Ivan Salati. Ele explica que a radiação é do mesmo tipo da produzida por fontes radioativas e com energia igual ou maior, dependendo da finalidade. A grande vantagem do uso dos aceleradores é que eles permitem uma melhor conformação do campo de irradiação, permitindo maior concentração da dose no tumor e menor irradiação dos órgãos e tecidos sadios. A principal desvantagem dos aceleradores, por sua vez, é o preço e a complexidade da tecnologia em termos de manutenção. Por esse motivo, ainda continuam em uso os equipamentos com fontes de cobalto, principalmente em lugares onde os recursos financeiros são menores e as dificuldades de manutenção maiores.

Entre os cuidados adotados pelas equipes de radioproteção e atendimento a emergência, Rugles César Barbosa salienta que os profissionais que operam fontes ou trabalham como supervisores de radioproteção são submetidos a maiores exigências e seus nomes são divulgados no site da Comissão Nacional de Energia Nuclear, assim como os nomes das instalações que possuem autorização. Outro cuidado é no tocante à capacitação constante, com a realização de cursos e treinamentos e participação de atividades internacionais de intervenção para obtenção de experiência.

Com o trágico acidente ocorrido no Brasil, o país se tornou uma referência no atendimento a emergências radiológicas. "Vários métodos foram desenvolvidos para a atuação em campo. O Brasil, baseado na experiência e demanda do acidente, melhorou a estruturação do atendimento a emergências, com equipes treinadas e equipadas para reconhecimento e ação em caso de necessidade. Além disso, foi construído em Abadia de Goiás o repositório para os rejeitos radioativos do acidente, o que também trouxe uma experiência importante na gestão de rejeitos. Vale ressaltar também o esforço que foi feito, logo após o acidente, para coletar fontes antigas que haviam entrado no Brasil antes da regulamentação pela Cnen, e que estavam principalmente em universidades e hospitais, nem sempre com o cuidado adequado", afirma Salati.

A unidade da Cnen em Goiás armazena mais de 6 mil toneladas de lixo contaminado com o césio-137, como roupas, móveis e até restos de materiais de construção provenientes da demolição de casas. Conforme Rugles Barbosa, foram inventariados todos os embalados do depósito final (como definido na Lei nº 10.308) em várias classes, como tempo de decaimento, atividade (nível de desintegração ou taxa de desintegração), tamanho e disposição dos embalados na caixa de concreto de 53 m X 13 m X 8 m de forma que os mais radioativos fiquem na posição interna e central (a partir do centro geométrico da caixa). Esse inventário, inclusive, está armazenado em programa de banco de dados.

No entendimento de Salati, o acidente do césio-137 ainda influencia o imaginário dos brasileiros. Para ele, as radiações ionizantes e seus efeitos são pouco conhecidos pelo público em geral e mesmo por especialistas de outras áreas. Esse desconhecimento é causado em grande parte pela dificuldade de entendimento de uma área que tem bastante complexidade, e também pela dificuldade em explicar os fenômenos relacionados em linguagem mais simples e menos técnica. Ele frisa que ainda existem aqueles que são contra o uso da energia nuclear, por variados motivos e interesses, e que utilizam o acidente de Goiânia como exemplo do risco existente. "Muitas vezes os opositores buscam argumentos sem evidências científicas, apelando principalmente para os aspectos emocionais envolvidos em acidentes", assinala.

"A energia nuclear tem riscos e é tratada com grande rigor em termos de regulação e fiscalização no Brasil e no mundo todo. No entanto, traz benefícios, não somente na área de energia, mas principalmente fornecendo meios importantes para o bem-estar da sociedade em outras áreas como saúde, onde é ferramenta fundamental no diagnóstico e tratamento de doenças; na indústria, onde é de enorme utilidade em controle de processos e controle de qualidade; na agricultura, controlando pragas, melhorando práticas agrícolas e trazendo novas variedades de plantas resistentes a doenças e com maior produtividade", completa Ivan Salati.

Por sua vez, o coordenador interino do CRCN-CO diz que "não existe registros de ocorrência de pessoas que sofreram algum tipo de prevenção ou restrição" com relação aos locais onde o césio passou, mas enfatiza que há alguns registros de relatos de radioacidentados e pessoas que trabalham ou moram nas áreas contaminadas. "Somos frequentemente consultados sobre a situação, em termos de risco, das áreas remediadas ou do depósito por empresas ou pessoas que necessitam fazer negócios (aluguel, compra, etc.)", informa.

"Não existe atividade humana que seja totalmente segura e que não possa gerar algum tipo de dano e/ou poluição em maior ou menor proporção, pois os riscos sempre existem em qualquer atividade humana, mas a probabilidade de ocorrer um acidente semelhante é baixa", finaliza Rugles César Barbosa.


Responsável por identificar o acidente, o físico Walter Ferreira relembra a tragédia e aborda o aprendizado

Bernardo Mendes Barata

Responsável por identificar a ocorrência do acidente com césio-137 em Goiânia, o físico Walter Mendes Ferreira, que atualmente chefia a Divisão de Rejeitos Radioativos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), relatou a descoberta feita há três décadas. "Em 1987, eu morava em Goiânia, mas estava fora da capital. Retornei a Goiânia no dia 27 de setembro, e detectei o acidente no dia 29. Fui contatado nesse dia, pela parte da manhã, por um amigo, professor Jadson de Araújo Pires, da Escola Técnica Federal de Goiás, também diretor da antiga Fundação Estadual do Meio Ambiente (Femago), que me informou que no Hospital de Doenças Tropicais (HDT) havia alguns pacientes com sintomas de intoxicação, e que o médico não conseguia diagnosticar a causa. Os pacientes apresentavam vômito, febre, diarreia e perda de cabelos. Eu disse para ele que esses sintomas eram de síndrome aguda de radiação. Meu amigo me colocou em contato com esse médico que me informou que os pacientes associavam o mal-estar a uma peça que estava na Vigilância Sanitária, um cilindro de aproximadamente 23 quilos. Dois veterinários da antiga Vigilância Sanitária vieram até minha casa e fomos até o escritório da Nuclebras. Eu consegui um detector de radiação, mas quando cheguei próximo à Vigilância Sanitária, o aparelho saturou a medida, ao ponto de eu achar que ele estava com defeito. Busquei um novo detector que confirmou a alta medida de radiação. Nessa segunda ida à Vigilância, havia chegado um caminhão do Corpo de Bombeiros com três integrantes e um deles já estava saindo com esse cilindro para jogar no rio Capim Puba. Eu tive que intervir, pedindo para ele deixar o cilindro radioativo", relembra.

Segundo ele, o "acidente radiológico com o césio-137 mudou completamente toda forma de trabalhar com material radioativo". E prossegue: "Quando a Comissão Nacional de Energia Nuclear chegou a Goiânia se deparou com uma calamidade: pessoas contaminadas mesmo depois de nosso trabalho. O que aprendemos? Uma reestruturação de planejamento de emergência, um maior controle de normativas e procedimentos regulatórios, novas formas de trabalhar com pessoas, de se comunicar com o público, todos os sistemas de fontes foram aprimorados. São vários os parâmetros e fatores que aprendemos, e isso também impactou mudanças em todo o mundo."

Na visão de Walter Ferreira, a capital de Goiás está livre do césio-137 decorrente do acidente de 1987. "Há sempre o questionamento: existe contaminação em Goiânia? Não existe mais contaminação em Goiânia, posso afirmar. Essas áreas que foram contaminadas são chamadas de áreas remediadas. As pessoas voltaram a habitar em suas residências normalmente, pois não há mais contaminação. Os rejeitos foram levados para Abadia de Goiás, foram armazenados em um depósito definitivo, onde existe um controle institucional exercido pela própria Cnen. Enquanto os radioacidentados são acompanhados por um trabalho digno e merecedor de elogios por todos no Centro de Assistência aos Radioacidentados (Cara). É preciso dar o devido reconhecimento aos profissionais que trabalham no Cara, afinal são 30 anos de experiência que deve ser levada em consideração e jamais poderá ser perdida", afirma Ferreira.

O físico também destaca a importância de se manter vivo na memória o acidente, considerado o mais sério do mundo em termos radiológicos. "Para mim há sempre uma pergunta: mudou alguma coisa em mim? É evidente que mudou. A forma de pensar, de trabalhar como profissional e de tratar o público. Nessa história toda, após 30 anos, conclui que o ser humano é quem deve ter uma atenção primordial. Disso nunca poderemos esquecer: são as pessoas que podem ser contaminadas ou irradiadas, ou seja, são elas as mais importantes, as vítimas. Nesses 30 anos, devemos trazer à memória aquelas quatro pessoas que faleceram, aqueles que foram contaminados e também o esforço e trabalho do Centro de Assistência aos Radioacidentados, que eu acho que deveria voltar a ter novamente o nome Fundação Leide das Neves, em homenagem à criança que faleceu. Essa memória nunca pode ser perdida, é uma referência para todo mundo e deve ser muito bem valorizada", finaliza o chefe da Divisão de Rejeitos Radioativos da Cnen.

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