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EDIÇÃO Nº 47

As ações da Eletronuclear para retomar as obras de Angra 3

Vera Dantas

Em seu primeiro dia de trabalho à frente da Eletronuclear, em julho de 2016, o novo presidente Bruno Barretto solicitou uma reunião de emergência com a diretoria de Infraestrutura do BNDES. Embora não agendada, a reunião foi realizada às 19 horas do mesmo dia. O motivo da urgência era a proximidade do vencimento do empréstimo obtido junto ao Banco para a construção de Angra 3.

Quando o contrato foi assinado, em fevereiro de 2011, o cronograma previa que Angra 3 estaria gerando energia em junho de 2016 e a empresa, portanto, teria receita para começar Eletronuclear a quitar maior parte (principal e juros) da dívida. Mas, naquele momento, a realidade era outra: as obras da usina nuclear estavam paralisadas e, para agravar a situação, a Eletronuclear enfrentava uma crise sem precedentes, em consequência dos processos oriundos da operação Lava-Jato. "Encontrei uma empresa com uma baixa autoestima, numa situação de completa indefinição, com fluxo de caixa extremamente frágil, uma quantidade enorme de situações de inadimplência com fornecedores. No entanto, as duas usinas em operação, Angra 1 e Angra 2, estavam operando com ótimo desempenho, inclusive batendo recorde de performance em 2016", lembra Barretto.

O presidente da Eletronuclear ressalta que o entendimento, por parte da diretoria de Infraestrutura do BNDES, de que Angra 3 é um projeto de governo, superando a responsabilidade da Eletrobras e da Eletronuclear, contribuiu para que o empréstimo fosse renegociado em uma semana – no novo contrato, coube à Eletronuclear pagar apenas 30% dos encargos. Uma condição, segundo Barretto, ainda muito dura, porém exequível. Da mesma forma, a empresa conseguiu, ao longo de 2016, regularizar o empréstimo contraído junto à Caixa Econômica Federal, no valor de R$ 3,8 bilhões, destinado ao pagamento de todos os bens e serviços importados.

No front interno, a nova diretoria criou uma Superintendência de Governança, Gestão de Riscos e Conformidade, um trabalho realizado em paralelo com a Eletrobras, onde foi implantada uma Diretoria de Conformidade. Hoje, as empresas do grupo Eletrobras contam com mecanismos muito mais severos de gestão contratual, de controle de processos licitatórios, de responsabilização e de apuração rápida de qualquer irregularidade que eventualmente venha a ser praticada. Todo o processo contou com o apoio e a colaboração dos empregados. "Entendemos que a nossa empresa foi vítima de uma organização criminosa, numa situação completamente inesperada e inaceitável. Todos nós estamos conscientes que demos um passo à frente no sentido de impedir que situações como essa voltem a acontecer", afirma o presidente da Eletronuclear.

Segundo Barretto, a empresa colabora intensamente com as investigações em curso, tanto no nível público, como no privado, através de uma investigação independente contratada pela Eletrobras. Além disso, busca a reparação pelos danos sofridos, acionando pessoas jurídicas que praticaram atos de superfaturamento e executivos apontados nos processos como causadores de dolo à empresa. "Estamos dando um passo muito grande no sentido de mudar completamente a visão da empresa em relação a como contratar, gerir seus contratos e como se relacionar com seus públicos externos. Trata-se de uma verdadeira mudança de cultura", afirma Barreto.

Um novo modelo

Bruno Barretto ingressou na Eletronuclear em 1981, mas nos últimos 11 anos esteve cedido à Eletrobras. Ao ser designado para a presidência de sua empresa de origem, ele recebeu da holding do setor elétrico duas missões: a primeira, atuar na questão da crise gerada pelos atos criminosos de ex-fornecedores e ex-funcionários, buscando reparação pelos danos sofridos; a segunda, buscar meios de viabilizar a retomada de Angra 3, o maior empreendimento corporativo do sistema Eletrobras. A implantação da nova superintendência e a renegociação dos empréstimos assumidos com o BNDES e a CEF foram as ações iniciais dessas duas missões.

Em relação à Angra 3, há consenso sobre a necessidade de mudança do modelo do empreendimento, cujo ponto crítico está em sua estrutura de capital, exclusivamente estatal. "A situação da Eletrobras e do país não mais permite prosseguirmos com um modelo construído há muitos anos atrás", afirma Barretto. Segundo ele, a paralisação de Angra 3 não se deu exclusivamente pela situação oriunda da Lava-Jato, mas também por falta de recursos e pela incapacidade da empresa em apresentar garantias aos bancos financiadores. "Era uma situação quase de falência do empreendimento", frisa. A solução para a obtenção de recursos é a adoção de um novo modelo societário para o empreendimento, com a participação da iniciativa privada. Com a difícil situação econômica do país, a busca de parceiros voltou-se para o mercado internacional.

Não foi preciso um grande esforço para atrair esses parceiros, uma vez que empresas francesas, chinesas, coreanas e russas já vinham demonstrando interesse em participar da retomada de Angra 3 e, principalmente, da construção das novas usinas nucleares previstas pelo Plano Nacional de Energia 2050 (ver Nuclear é a solução para os próximos 30 anos). "Esse é o grande interesse de todas essas grandes companhias. Angra 3 é um empreendimento com 61% de progresso físico. Só sua construção não seria suficientemente atraente para assegurar a presença de um desses parceiros, conosco, na retomada. Mas a parceria com a Eletronuclear se torna muito atraente na medida em que dá à empresa um cartão preferencial para participar dessa expansão", explica.

Como parte dessas negociações preparatórias, o presidente da Eletronuclear participou da comitiva presidencial que esteve na China, no início de setembro. Em Beijing, foi assinado um memorando de entendimento (MOU) entre os governos do Brasil e da China para uma ampla cooperação nuclear. O memorando envolve não só a geração nuclear, incluindo a retomada de Angra 3, como o desenvolvimento de ensino, pesquisa e novas tecnologias.

Com a empresa russa Rosatom, também será assinado, em breve, um MOU. "Não temos dúvida de que nós caminhamos para fechar negócio com um parceiro internacional. Isso deve ser feito mediante acordo entre governos", diz. Bruno Barretto explica que não há preferência por qualquer país, embora cada parceiro possua características específicas. Os chineses, por exemplo, vêm investindo bilhões de dólares para participar do mercado brasileiro, principalmente na área de energia, onde já ocupam a vice-liderança do segmento de transmissão. Já para os russos, que fazem um grande esforço de internacionalização, o Brasil seria um país central para a irradiação de negócios para outros países da região. Outros já são nossos antigos parceiros, como por exemplo os franceses. Todos esses países estão investindo recursos humanos e financeiros nas negociações e em conhecer as características técnicas do projeto nuclear brasileiro. Mas qualquer decisão passa pela autorização, por parte do Conselho Nacional de Política Energética, para que a Eletronuclear tome as medidas iniciais para a retomada das obras de Angra 3. A medida está sendo esperada para a próxima reunião do CNPE, prevista para acontecer até o final do ano. Enquanto isso, a empresa está refazendo toda a parte contratual da obra, o que significa a anulação dos contratos das empresas responsáveis pela montagem eletromecânica e pelas obras civis, além da elaboração de novos contratos para as próximas etapas da obra. A expectativa da diretoria é que o canteiro de obras esteja em plena atividade no final de 2018 e a usina esteja pronta para operar em janeiro de 2024.

Recursos humanos

Como as demais empresas do grupo Eletrobras, a Eletronuclear está passando por um processo de demissão incentivada – o segundo em três anos – para o qual obteve a adesão de 194 empregados. Isso significa que 10% do quadro funcional da empresa sairá até o final do ano. Levando em conta o anterior, em 2014, a empresa perderá mais de 800 profissionais.

De acordo com o presidente da empresa, essas são medidas necessárias, uma vez que a Eletronuclear vive um momento de contenção, em que luta para sair de uma grave crise financeira, que também atinge a holding. Barretto reconhece tratar-se de um problema importante, agravado pelo fato da idade média dessa força de trabalho ser elevada. "É preciso garantir a quantidade de pessoas necessárias para continuar a operação das usinas de forma segura e confiável. Também é necessário ter gente para tocar o projeto de Angra 3 e os novos empreendimentos. Por último, precisamos de uma base financeira e de gestão que seja suficiente para dar conta de tudo isso", preocupa-se.

Ele garante que a Eletronuclear possui, hoje, pessoal suficiente para a operação das usinas, mas esse efetivo está quase no limite. Admite a necessidade de admissão de novos quadros, em futuro próximo. Mas, como não tem, neste momento, autorização para realizar um concurso público, a empresa utiliza "os meios de gestão possíveis" para preencher as lacunas, como o recrutamento interno e a reacomodação de funcionários em áreas mais necessitadas. Um outro recurso é o retorno de diversos técnicos que estavam cedidos à holding Eletrobras e a outras empresas do grupo.

Outro problema que se coloca para a Eletronuclear é a renovação dos recursos humanos, principalmente para poder atender à futura expansão do setor. A formação de técnicos da área nuclear é muito longa – a preparação de um operador de reator demanda de cinco a seis anos de treinamento. "Estamos muito preocupados em reativar programas de formação de educação corporativa", diz Barretto. As formas de implementação, segundo ele, passariam por parcerias com instituições internacionais e pela cooperação com as universidades. Uma de suas propostas seria a reativação de programas como o Pró-Nuclear e o Projeto Urânio, "que tiveram muito êxito no passado".

O presidente da Eletronuclear está otimista com a criação do Comitê para o Desenvolvimento do Programa Nuclear Brasileiro, vinculado ao Gabinete de Segurança Institucional (GSI), diretamente ligado à Presidência da República e que reúne representantes de todos os ministérios que têm envolvimento com a área nuclear, como Minas e Energia, Defesa e Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Segundo ele, como as ações do Programa Nuclear Brasileiro (PNB) envolvem diversos campos, a melhor maneira de pensá-las é de forma coordenada. Desta forma, ao envolver não só a geração nuclear, que é a face mais visível, mas também projetos como o Reator Multipropósito Brasileiro e o submarino nuclear, a iniciativa mostra que "o governo brasileiro voltou a pensar estrategicamente o setor nuclear".


Nuclear é a solução para os próximos 30 anos

O presidente da Eletronuclear acredita que a previsão de construção de seis a oito novas usinas nucleares até 2050 pelo Plano Nacional de Energia 2050, que está em elaboração, será mantida pela Empresa de Planejamento Energético (EPE). Como os grandes empreendimentos hidrelétricos já foram construídos e entraves de caráter ambiental impedem a concretização de novos projetos, o país precisa recorrer a outras fontes de energia. Se, no momento, a demanda está sob controle pela crise econômica, ele adverte que essa situação não irá perdurar e que "qualquer ajuste ou sinais que indiquem retomada de crescimento se replicam sobre a demanda de energia imediatamente". Quando a situação se reverter, "qual é a fonte que pode fornecer grandes blocos de energia com confiabilidade, na base e junto aos grandes centros? Só a nuclear", garante. "Essa necessidade de energia na base não pode ser resolvida com as fontes eólica ou solar. Resolve, de maneira suja e cara, com usinas térmicas a gás natural. Por isso, acreditamos que a energia nuclear será parte da solução", completa.

Mas o dirigente admite que a construção de novas usinas passa pela conclusão de Angra 3. "Ela é um verdadeiro cartão de entrada para se pensar a expansão nuclear. Tornou-se uma espécie de teste. Angra 3 entra em operação em janeiro de 2024. E, com ela, entramos em uma nova fase no setor", afirma.

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