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EDIÇÃO Nº 47

Brasil inova no tratamento de queimaduras

Vera Dantas

Uma solução inovadora e 100% nacional está prestes a revolucionar o tratamento das vítimas de queimaduras no Brasil e no mundo. Trata-se do uso da pele de tilápia como curativo nas lesões de 2º grau superficial e profundo.

Os estudos clínicos estão em fase avançada – já foram tratados mais de 150 pacientes, entre as fases clínicas 2 e 3 – e ainda neste semestre devem ser iniciados os estudos multicêntricos, última etapa para a obtenção do registro do tratamento junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Os ótimos resultados alcançados despertaram o interesse de diversos países para o uso da pele de tilápia no tratamento de queimados, ao mesmo tempo em que estimularam equipes médicas de outros estados brasileiros a iniciar estudos para a aplicação da técnica em outras especialidades como otorrinolaringologia, endoscopia, odontologia, feridas vasculares e na reconstrução de neovaginas, esta última em estágio bastante avançado.

O uso da pele de tilápia como curativo no tratamento de queimaduras é uma técnica inédita no mundo. Ela foi idealizada pelo cirurgião plástico Marcelo Borges, coordenador do SOS Queimaduras e Feridas do Hospital São Marcos, em Recife (ver Do sonho à realidade). Depois de tentar por três anos, sem sucesso, viabilizar a pesquisa em Pernambuco, Marcelo Borges aceitou a oferta do cirurgião plástico Edmar Maciel para realizar o trabalho no Ceará. Maciel conseguiu financiamento através de um convênio entre o Instituto de Apoio ao Queimado, organização não governamental que dirige, e a Enel, empresa distribuidora de energia elétrica do Ceará, e montou uma equipe que envolve cerca de 70 colaboradores, de várias instituições cearenses. A pesquisa relacionada às propriedades da pele do peixe foi desenvolvida no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM), da Universidade Federal do Ceará, sob a coordenação do pesquisador Odorico Moraes. Os estudos clínicos estão sendo realizados no Instituto dr. José Frota (IJF), de Fortaleza (CE), sob a coordenação de Maciel. Em Pernambuco, também participam a Faculdade de Medicina de Olinda e o Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Desde o primeiro momento, a iniciativa conta com a parceria do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), através do Centro de Tecnologia das Radiações, onde as peles são irradiadas, para esterilizar e garantir a segurança da aplicação da pele em seres humanos.

A espécie estudada foi a tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus), originária da bacia do rio Nilo, no Egito, que chegou ao Brasil na década de 1970 e é produzida em cativeiro. As amostras usadas na pesquisa foram obtidas no açude Castanhão, no município de Jaguaribara, a 250 quilômetros da capital Fortaleza. A pele da tilápia do Nilo é um produto nobre e de alta qualidade, com alto grau de resistência e possui características microscópicas semelhantes à estrutura da pele humana em suas características físicas, histomorfológicas e da tipificação da composição do colágeno, o que suporta sua aplicação como biomaterial na medicina regenerativa, de acordo com o estudo "Avaliação microscópica, estudo histoquímico e análise de propriedades tensiométricas da pele de tilápia do Nilo", publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Queimaduras (Vol. 14 nº 3 - Jul/Ago/Set de 2015).

O tratamento de queimaduras é realizado, no exterior, com curativos de pele humana ou pele animal (porco). No Brasil, ele dependerá das condições financeiras do paciente: enquanto na rede privada são usados curativos importados e de custo elevado, como a prata nanocristalina e peles artificiais, a conduta adotada pelos centros de queimados da rede pública, que atendem à maior parte das vítimas de queimaduras, é a utilização de pomada antimicrobiana de sulfadiazina de prata até a completa reparação da lesão (de 12 a 25 dias). O curativo é refeito a cada dois ou três dias, dependendo da gravidade, num procedimento bastante doloroso e desconfortável para o paciente, exigindo muitas vezes a administração de analgésicos e anestésicos. Já a pele de tilápia pode ficar na queimadura mais tempo, muitas vezes até o final da cicatrização, sem precisar trocar diariamente. Segundo o dr. Edmar Maciel, isso acontece porque, ao aderir à ferida e bloquear o contato com o meio externo, ela evita contaminações e que o paciente perca líquido e proteínas, que causam desidratação e prejudicam a cicatrização.

Nem os próprios pesquisadores imaginavam a amplitude do poder recuperador oferecido pela pele de tilápia. Isso só aconteceu ao iniciarem os estudos histológicos. "Nesse momento, ficou comprovado que a pele da tilápia tem uma proteína chamada colágeno tipo 1, que é importantíssima na cicatrização, em quantidade semelhante à pele humana e muito superior a de outras peles animais, como porco, cachorro, e rã, que são utilizadas no mundo", explica o dr. Edmar Maciel.

Desde o início, o projeto conta com a parceria do Ipen, que irradia as peles, para esterilizar e garantir a segurança de sua aplicação em seres humanos

Outros agentes importantes presentes na pele de tilápia são os peptídeos, pequenos grupos proteicos como as hepcidinas, as defensinas e as interleucinas, que também contribuem para acelerar a cicatrização. Marcelo Borges está estudando, no Laboratório Keizo Asami em Pernambuco, as propriedades antibióticas e anti-inflamatórias desses peptídeos, que agem como coadjuvantes na aceleração do tempo de cura das lesões.

Registro

Edmar Maciel vê um grande horizonte para o uso da pele de tilápia, tão logo estejam concluídos os estudos multicêntricos e seja obtido o registro na Anvisa. O método de processamento, de descontaminação e de esterilização da pele da tilápia e sua aplicação em queimaduras e feridas foi registrado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e igualmente patenteado no exterior. Os participantes do projeto irão selecionar uma empresa para registrar o produto na Anvisa e cuidar da sua produção e comercialização interna e externa. "Nosso desejo é que o Ministério da Saúde disponibilize a pele de tilápia para todos os centros de queimados, uma vez que o Brasil está atrasado 50 anos no tratamento de queimados na rede pública", afirma Edmar Maciel.

Em 2016, a pesquisa foi premiada no Congresso Brasileiro de Queimaduras, na Bahia, e no Congresso Brasileiro de Cirurgia Plástica, em Fortaleza, pelo seu pioneirismo e criatividade.


Padrão ouro para substituir a pele

A radioesterilização é uma alternativa segura para garantir a qualidade dos tecidos usados em transplantes e outras aplicações clínicas, como curativos em queimaduras e feridas na pele.

A maioria dos tecidos biológicos pode ser tratada com radiação ionizante para minimizar a possibilidade de rejeição do organismo, matar bactérias e reduzir o risco de transferir doenças contagiosas como HIV, hepatite C ou citomegalovírus.

Já no seu primeiro trabalho de irradiação de pele humana, o grupo de pesquisadores do Laboratório de Processamento de Tecidos Biológicos por Radiação Ionizante do Centro de Tecnologia das Radiações do Ipen fez uma importante descoberta: a técnica provocava um afrouxamento da rede de colágeno da derme, o que, em vez de comprometer o uso do tecido, tinha um efeito benéfico. Ao remover a parte epidérmica (formada pelas células mortas) do tecido, usado como um curativo biológico em pacientes que participaram do estudo, os pesquisadores constataram que uma grande área da parte dérmica tinha se incorporado ao paciente e poderia servir como base para uma segunda intervenção reparadora (ver Brasil Nuclear ed. 35, set. 2009).

Além de participar da pesquisa do uso da pele de tilápia no tratamento de queimaduras, o Laboratório de Processamento de Tecidos Biológicos por Radiação Ionizante do Centro de Tecnologia das Radiações está trabalhando em diversos projetos com o objetivo de disponibilizar novos materiais para transplantes de tecidos e transplantes ósseos e o desenvolvimento de substitutos de pele. Um dos mais abrangentes, por envolver diversos países, reúne dois diferentes grupos de trabalho, um dedicado ao estudo e montagem de arcabouços de membranas em materiais poliméricos e outro, ao cultivo de células visando sua utilização na engenharia tecidual. "O objetivo final é estabelecer um padrão ouro para substitutos dermoepidérmicos", explica a farmacêutica e bioquímica Monica Mathor, que conduz a linha de pesquisa.

O trabalho está em fase in vitro. A fase laboratorial está prevista até abril de 2019, quando a equipe terá condições de decidir qual, dos materiais testados, é o melhor substituto para a pele. Segundo Monica, a pele de tilápia não foi incluída na pesquisa, uma vez que atualmente seu uso está previsto como curativo. Ela não descarta, porém, a possibilidade de um desdobramento futuro. Mas tudo dependerá da evolução das pesquisas. Já a pele humana, oriunda dos bancos de pele, pode ser utilizada na engenharia tecidual, desde que seja retirada a parte epidérmica; o cultivo das células é realizado na parte dérmica restante.

Além do Ipen, o trabalho contou com a participação de grupo de pesquisadores do Laboratório de Hematologia e Células Tronco da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e outro do Departamento de Ciências Exatas e da Terra do Campus Diadema da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A pesquisa é um desdobramento de um projeto anterior, de âmbito latino-americano, iniciado em 1998 pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que teve como meta ampliar os usos pacíficos da energia nuclear, incentivando o estabelecimento de bancos de tecidos nos países participantes e que utilizassem a radiação gama como alternativa principal na esterilização dos tecidos produzidos. A AIEA pretendia que todos os bancos de tecidos na América Latina trabalhassem com a mesma qualidade e com procedimentos comuns, facilitando dessa forma o intercâmbio entre os países. O Brasil foi incorporado ao projeto da Agência por meio do Banco de Tecidos do Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Divisão de Cirurgia Plástica e Queimaduras), montado com a colaboração da AIEA. De acordo com Monica, o projeto atingiu o objetivo, tendo gerado, entre outros produtos, um guia para padronização dos procedimentos para bancos de tecidos e o outro para irradiação de tecidos.

O Laboratório do Ipen também trabalha com a irradiação de osso triturado e desmineralizado, para uso em transplante ortopédico e odontológico, e desenvolve, ainda, uma linha de pesquisa para irradiar tendões. Outra linha de trabalho é com a irradiação de membrana amniótica e o seu uso na engenharia tecidual. As pesquisas laboratoriais já foram desenvolvidas e o método de cultivo de células sobre a membrana está padronizado. No entanto, a parte clínica não está sendo desenvolvida, devido à falta de recursos humanos. "Nós estamos com um grande problema de pessoal. Formamos pessoas, mas não temos como mantê-las. Com isso, nossas pesquisas não vão à frente; acabam ficando na prateleira como dissertação de mestrado e tese de doutorado", desabafa a pesquisadora.


Do sonho à realidade

Marcelo Borges*

A ideia me veio em mente em novembro de 2011, ao ler uma matéria sobre o uso da pele de tilápia na confecção de acessórios femininos como bolsas, cintos e sapatos. Perguntei-me se aquele material também teria a resistência e a delicadeza necessárias para substituir a pele humana, temporariamente, no tratamento de queimaduras. Coincidentemente, naquela época, eu estava assumindo a responsabilidade técnica pelo Banco de Pele do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, no Recife, onde adquiri grande experiência na esterilização de pele humana. Comecei, então, a adaptar esse processo para a pele da tilápia.

Naquele momento, foi muito importante o apoio da pesquisadora Monica Mathor, do Laboratório de Processamento de Tecidos Biológicos por Radiação Ionizante do Centro de Tecnologia das Radiações, do Ipen, que trabalhou na identificação da dosagem adequada da irradiação com gama cobalto 60 que promovesse a plena esterilização dessa pele. Como partimos de um protocolo da pele humana, não tínhamos uma ideia muito precisa do quanto deveríamos evoluir na irradiação da pele animal de forma a obter, ao mesmo tempo, a inativação de vírus, a inexistência de bactérias e fungos e, também, a preservação dos tecidos. O trabalho desenvolvido pela pesquisadora trouxe, digamos assim, o desfecho final adequado para que essa pele pudesse ser usada com segurança em humanos.

Eu sinto muito orgulho por ter tido essa ideia, mas com a humildade em saber que ela só se concretizou porque conseguiu conquistar empresas, vários pesquisadores e dezenas de colaboradores nos estados de Pernambuco, Ceará e São Paulo. Nossos resultados foram extremamente animadores, gerando repercussão internacional. Essa pesquisa quase deu a volta ao mundo tamanha a repercussão e receptividade que vem obtendo, através de trabalhos científicos e reportagens. Recentemente, chegou ao Japão.

Se a ideia inicial foi o uso da pele para queimaduras e feridas crônicas, estamos percebendo claramente o surgimento de ampliações para outras especialidades médicas e isso nos deixa muito alegres, por ter tido tamanha capilaridade no mundo científico nacional e, logo, logo, também na comunidade científica internacional.

Eu costumo usar uma frase de Miguel de Cervantes ao final das minhas apresentações sobre a pesquisa: "O sonho de um só é apenas um sonho. O sonho de muitos é começo de uma nova realidade". Esta pesquisa reflete muito esse pensamento de Cervantes, a partir do instante em que aceitei o convite do dr. Edmar Maciel para tentar viabilizar o apoio financeiro e laboratorial ao projeto. Várias outras instituições foram sendo agregadas à pesquisa, dando-lhe uma abrangência muito grande dentro do universo acadêmico e científico do nosso país.

* Coordenador do SOS Queimaduras e Feridas do Hospital São Marcos, em Recife


Arte restaura a autoestima

As imagens fazem parte do projeto Under the Skin, exposição de fotos e livro que utilizam a arte para restaurar a autoestima de vítimas de queimaduras. Realizada de 4 a 15 de outubro, numa parceria entre o Instituto de Apoio ao Queimado (IAQ), Shopping Iguatemi de Fortaleza e a agência Bolero Comunicação – que concebeu o projeto –, a mostra exibiu os trabalhos da artista Jasmin Walsh, que utilizou como tela os corpos (body painting) de seis voluntários vítimas de queimaduras, tratados pelo IAQ; e do fotógrafo Cival Jr, autor das fotos da exposição e que ilustram o livro sobre a iniciativa, lançado no evento. Os recursos arrecadados com a venda da publicação serão destinados ao IAQ e empregados no aprofundamento da pesquisa que utiliza a pele de tilápia no tratamento de queimados.

Associação Brasileira de Energia Nuclear

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