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CAPA DA EDIÇÃO Nº 46
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EDIÇÃO Nº 46

Primeiros formados pela Engenharia Nuclear da UFRJ chegam ao mercado

Verônica Couto

A única graduação brasileira em Engenharia Nuclear, criada em 2010 na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), formou 22 profissionais no final de 2016. "Com a abertura do curso, a UFRJ deu uma contribuição importante para a preparação de recursos humanos na área", diz Aquilino Senra, professor titular da Coordenação de Programas de Pós-Graduação (Coppe-UFRJ) e um dos idealizadores do curso de Engenharia Nuclear. "Do que precisamos, agora, é da retomada dos projetos estratégicos do setor, que estão com financiamentos aquém do necessário para atender aos cronogramas originais".

Segundo ele, a reabertura das contratações nas empresas brasileiras para os novos profissionais que chegam ao mercado é crucial para assegurar a tecnologia nuclear adquirida no país. A maior parte do pessoal qualificado na área, observa Senra, formou-se durante as décadas de 1960 e 1970 para o então Programa Nuclear Brasileiro. "Esses técnicos estão se aposentando sem a oportunidade de transmitirem o que sabem para as novas gerações", alerta o professor. "O que vejo são programas de incentivo à demissão ou à aposentadoria. Assim, sob o argumento da eficiência econômica, vai se promovendo a desconstrução das empresas, por meio da perda de seu capital intelectual".

Dos 14 alunos que se formaram na primeira e na segunda turmas de Engenharia Nuclear da UFRJ, oito estão trabalhando no setor: na Westinghouse, na Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) e na empresa Amazul. Entre os demais, informa o professor Alessandro Gonçalves, coordenador do curso, quatro fazem mestrado no Programa de Engenharia Nuclear da Coppe, e outras duas alunas, doutorado nos Estados Unidos, na PennState University e na Universidade de Wisconsin-Madison.

Dos 14 alunos que se formaram na primeira e na segunda turmas de Engenharia Nuclear da UFRJ, oito estão trabalhando no setor

"O resultado é muito bom", avalia Senra, que destaca a aceitação internacional da qualificação. "A maioria dos alunos está sendo contratada. Aqueles que não estão, foram fazer doutorado no exterior ou outras atividades de formação". Por exemplo, uma das alunas da segunda turma do curso, Fernanda Werner, foi premiada em 2016 no concurso EDF-Areva Public Acceptance Competition (ver matéria abaixo), com o melhor projeto de aceitação pública da energia nuclear no Brasil. E Alice Cunha da Silva, da mesma turma, ganhou a Olimpíada Nuclear Mundial de 2015.

Para Fernanda, a grande barreira no Brasil ainda é a falta de novos concursos públicos - o principal canal de ingresso às estatais que tocam os projetos nacionais estratégicos. Enquanto eles não acontecem, a alternativa são os estágios, aliás obrigatórios no curso de Engenharia Nuclear. Desde maio, Fernanda faz estágio na Gerência de Segurança Nuclear da Eletronuclear, com contrato já renovado até maio de 2017.

Várias entidades do setor apontam a necessidade de reposição de quadros na área. De acordo com dados da revista Brasil Nuclear (edição nº 45), 623 funcionários deixaram no final de 2015 a Eletronuclear, em um programa de desligamento incentivado. E o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), que já teve 1.300 integrantes, soma, hoje, 830. Além dos afastamentos incentivados, a média de idade do setor é alta. No Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN), cerca de 70% da força de trabalho têm mais de 50 anos.

"Reposição de capital intelectual não é igual a jogador reserva no futebol, que entra imediatamente em campo se for necessário", explica o professor Senra. "Na área técnica, é preciso um tempo de coexistência entre as gerações, para que a transferência de conhecimento aconteça".

O curso de Engenharia Nuclear foi criado pelos docentes do Programa de Engenharia Nuclear da Coppe e da graduação da Escola Politécnica da UFRJ. O objetivo, de acordo com o professor Gonçalves, foi "formar uma nova modalidade de engenharia com conhecimentos específicos de engenharia nuclear e uma sólida base profissional e técnica-científica, capaz de absorver e desenvolver novas tecnologias, de modo a responder às demandas iminentes do mercado". Entre essas demandas, ele aponta empreendimentos que, embora atrasados, estão em desenvolvimento: a construção da usina nuclear Angra 3, o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB) e o submarino nuclear SN-BR (incluindo o "estaleiro nuclear") da Marinha.

Juntos, o Departamento de Engenharia Nuclear da Poli/UFRJ e o Programa de Engenharia Nuclear da Coppe contemplam cinco grandes áreas de pesquisa: Análise de Segurança, Engenharia de Reatores Nucleares, Engenharia de Fatores Humanos, Física Nuclear Aplicada e Física de Reatores Nucleares. Todas são abordadas na graduação durante o ciclo profissional. Antes da existência do curso, Gonçalves lembra que a formação na área se dava exclusivamente na pós-graduação (mestrado e doutorado), com ênfase acadêmica.

Mercado de trabalho

Alice Cunha da Silva, 26 anos, ganhadora da Olimpíada Nuclear Mundial de 2015, ingressou na segunda turma do curso e, atualmente, trabalha na Westinghouse com cálculo de recarga de reatores. Ela fica no escritório da empresa no Rio e trabalha on-line com as equipes da sede, nos Estados Unidos.

A Westinghouse presta serviço para instalações envolvendo cerca de 60 reatores. No Brasil, onde essa atividade é exclusiva da Eletronuclear, oferece serviços de software e treinamento à estatal. O contato de Alice com a empresa norte-americana aconteceu em um estágio nos EUA, durante o período em que participou do programa federal Ciências sem Fronteiras, de bolsas de intercâmbio. Além do estágio, cursou dois semestres na Universidade Estadual da Pensilvânia (PennState) e observou que, em apenas um semestre, 80 alunos se formaram nesta universidade em Engenharia Nuclear. "Muito diferente do Brasil", compara.

No ano passado, Alice disputou a World Nuclear Olympiad (WNU), olimpíada organizada pela World Nuclear University (WNU) voltada para o público universitário de diferentes áreas, que tinha como tema o uso de técnicas nucleares para o desenvolvimento global. Com uma dissertação sobre radioisótopos, a brasileira ganhou o troféu, entregue a ela em Viena, na Áustria, pelo diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, Yukiya Amano.

Colega de turma de Alice na UFRJ e na PennState, e também contratado pela Westinghouse, André Luiz Pereira Rebello Jr., 22 anos, fez a graduação com foco em Física de Reatores. No Brasil, entre as estrangeiras, ele diz que apenas a Westinghouse oferece vagas para atuar diretamente com engenharia nuclear. "Como tudo é on-line, pelo computador ou em salas de videoconferência, não faz diferença onde estamos", explica. "Nas outras multinacionais, a procura é, principalmente, por profissionais para vendas e prospecção de negócios".

De acordo com o professor Alessandro Gonçalves, os salários da área acompanham o piso dos engenheiros de nível superior, que, segundo a lei, é de 8,5 salários mínimos para jornadas de trabalho de 44 horas semanais. No caso do setor nuclear, há um adicional de radiação ionizante de 30% do salário-base. "Ainda assim, é possível achar profissionais recém-ingressos no mercado de trabalho com remunerações superiores, devido a peculiaridades do engenheiro nuclear", avalia.


Um tour nuclear na França

As alunas brasileiras Fernanda Werner, da graduação de Engenharia Nuclear, e Paula Rodrigues, da Engenharia Naval e Oceânica, ambas da UFRJ, venceram o concurso EDF-Areva Public Acceptance Competition, com o melhor projeto para aceitação pública da energia nuclear no Brasil. Como prêmio pelo aplicativo "Supernuclear", foram convidadas a um "Nuclear Discovery Tour", de 26 de junho a 2 de julho, na França, onde funcionam 58 reatores, responsáveis por 80% da matriz energética do país. Junto com Monise Boaro, vencedora do melhor trabalho técnico no Inac 2015, as estudantes visitaram os escritórios da Areva-EDF, a Usina de Reciclagem de Combustível La Hague, a Usina Nuclear de Flamanville 3, o Centro de Treinamento (Cetic), a Fábrica de Equipamentos Pesados Chalon/St-Marcel, a Central Nuclear de Gravelines e a World Nuclear Exhibition (WNE), principal feira global do setor, que reuniu cerca de 700 empresas.

Em Flamanville 3, conheceram de perto o principal projeto da indústria nuclear francesa - o European Pressurized Reactor (EPR), reator de 1650 MWe -, previsto para entrar em funcionamento em 2018. Segundo Fernanda, é a terceira geração de reatores, com um conceito inovador que inclui uma série de sistemas passivos de segurança, baseados em fenômenos físicos naturais.

"Em um acidente, não seria necessário, por exemplo, acionar mecanismos com bombas que dependam de energia, como aconteceu no acidente de Fukushima, em 2011, no Japão", diz. "Os sistemas novos usam leis da natureza para trocar calor, promover a circulação e manter o gradiente de temperatura. O projeto também prevê um sistema de segurança adicional denominado 'core catcher': no caso, pouco provável, de fusão do núcleo, há sob ele um compartimento blindado para evitar que o material chegue ao solo ou ao lençol freático".

Fernanda também destaca a planta de reciclagem, com 300 hectares, capaz de reciclar 96% de um elemento combustível usado, para gerar energia novamente, e a experiência desenvolvida na cidade de Gravelines, onde está a maior usina nuclear do oeste europeu (6 PWR de 900 MW), produzindo cerca de 37.5 TWh.

Para Paula Rodrigues, a visita revelou a grande preocupação dos franceses com a qualidade. "Como sou da área naval, acostumada a visitar estaleiros e indústrias de materiais pesados, fiquei impressionada com a organização das plantas e com a atenção aos processos. Ainda estamos na fase de desenvolver métodos de construção, mas eles já estão na etapa de otimizá-los".

Associação Brasileira de Energia Nuclear

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