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CAPA DA EDIÇÃO Nº 46
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EDIÇÃO Nº 46

Por uma matriz elétrica diversificada

Eduardo Azevedo

O secretário de Planejamento e Desenvolvimento do Ministério de Minas e Energia, Eduardo Azevedo, define-se como um profissional, ao mesmo tempo, de Estado e de mercado. Engenheiro eletricista, com mestrado em Engenharia de Produção, ambos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e MBA em Comercialização de Energia, pela Universidade de Pernambuco, ele tem experiência na área privada em geração de energia, planejamento energético e segurança energética. Nos últimos cinco anos, esteve à frente da Secretaria Estadual de Energia de Pernambuco, com ênfase nas áreas de eficiência energética e energia renovável. Por essa experiência, uma de suas metas, no Ministério, é tornar a eficiência energética uma prática comum em todos os setores da economia. Defensor de uma participação cada vez mais relevante das fontes renováveis na matriz energética, ele diz que a estabilidade do sistema elétrico demanda a adoção de novas tecnologias, como os sistemas inteligentes de redes, a geração distribuída e a diversificação das fontes, de forma a colocar a geração mais próxima dos centros de carga e das áreas de consumo. "Se falta chuva, vamos ter vento, se falta vento, temos sol, se falta sol, temos biomassa, biogás, temos eventualmente nuclear e térmicas complementando", diz ele, em entrevista a Vera Dantas, da Brasil Nuclear. Embora sem ter "um número exato", uma vez que todo o modelo elétrico está sendo revisto, o secretário estima uma participação de 8 GW a 10 GW de geração termonuclear no horizonte de planejamento do Plano Nacional de Energia (PNE) 2050.

Estudos técnicos do setor elétrico no Brasil e no mundo têm alertado para o risco representado pela crescente participação das fontes renováveis como eólica e solar na matriz energética. Devido ao seu caráter intermitente, com frequentes oscilações, essas fontes estariam colocando em risco a estabilidade do sistema elétrico. O senhor concorda com isso?

Se considerarmos isoladamente, sim, a estabilidade do sistema é um problema. Mas, na prática, as fontes renováveis vão trabalhar em consórcio com as demais fontes que estão no grid. Nós contamos com uma estratégia de operação, o Sistema Regional de Alívio de Carga (Erac), que possibilita que se houver uma queda brusca de uma determinada fonte, outra fonte assuma a geração, para que possa atender a carga sem variações. Normalmente, devido à sua grande capacidade de geração, as hidrelétricas têm uma atuação importante no Erac. Neste momento, no entanto, devido ao nosso regime hidrológico desfavorável, as hidrelétricas, principalmente as do Nordeste, não têm sido capazes de atender as demandas geradas pela variação das eólicas. Por esse motivo, temos despachado térmicas para poder garantir a estabilidade da carga. Mas, em condições normais, o Brasil, diferentemente de outros países do mundo, tem uma posição muito privilegiada de usar uma fonte renovável, as hidrelétricas, para poder manter as fontes renováveis intermitentes, eólica e solar.

Segundo alguns técnicos, as oscilações no sistema podem causar danos em alguns tipos de geradores, mais leves. O senhor concorda?

Não é bem assim. Realmente, existe algum impacto. Mas as perturbações são minimizadas ou zeradas por um sistema de controle que os sistemas possuem. Para poderem ser conectados à rede, os geradores precisam receber um selo de controle que comprove que não irão perturbar nem serão perturbados por uma variação momentânea na rede.

- Ainda não temos um número exato, mas nossa estimativa é que, ao longo do horizonte de planejamento do PNE 2050 haja em torno de 8 GW a 10 GW de geração termonuclear

Em sua opinião, a solução para a questão da estabilidade da rede estaria na adoção de sistemas inteligentes de gestão como os smart grids, como defendido na conferência de abertura do encontro anual do Cigré (International Council on Large Electric Systems), realizado em agosto passado em Paris? Ou será preciso ampliar a participação da energia térmica na base do sistema elétrico como defendem especialistas?

A solução seria ampliar a adoção dos sistemas de operação inteligentes da rede. Mas, durante algum tempo, numa época de transição entre o que nós queremos, que vai ser a operação do Erac utilizando os reservatórios das hidrelétricas com as térmicas que já existem na base, para que nesse período de transição a gente possa operar com estabilidade o sistema. O desafio tem sido operar o sistema com o mínimo impacto ambiental e econômico possível e projetar as próximas térmicas de forma que elas tenham algum sentido econômico depois que a transição ocorrer. Ou seja, que elas possam colaborar para um backup do sistema e não só para uma atuação momentânea para segurar o sistema.

Nesse caso, mesmo sendo temporário, a energia nuclear teria um papel a desempenhar?

Temporário que estou falando seria o período de transição para o sistema inteligente. Quando houver a inteligência aplicada no sistema e os reservatórios recompostos, o próprio sistema tem condição de se restabelecer com muito mais facilidade. Uma térmica nuclear, devido ao seu baixo impacto, tem uma vocação importante para retirar parte dessa carga.

Recentemente, em entrevista ao Jornal do Commercio, de Pernambuco, o ministro Fernando Bezerra declarou que a energia nuclear tem uma participação pequena na matriz energética brasileira e que poderia ter uma relevância maior, muito mais pelo domínio da tecnologia e também pela geração. Em sua opinião, qual deveria ser essa participação?

Todo modelo atual está sendo revisto, uma vez que foi projetado e estava sendo operado baseado em premissas que hoje não acontecem mais, que não são mais realidade. Essas premissas estão sendo reavaliadas e, a partir da validação dos contratos e da verificação de que projetos e em que condições estão gerando, vamos identificar as necessidades de cada uma fonte, inclusive a termonuclear. Ainda não temos um número exato, mas nossa estimativa é que, ao longo do horizonte de planejamento do Pano Nacional de energia (PNE) 2050, haja em torno de 8 GW a 10 GW de geração termonuclear.

Ainda na mesma entrevista, o ministro levantou a possibilidade de haver, do ponto de vista estratégico, uma descentralização da geração nuclear, hoje concentrada em Angra dos Reis. Isso significaria a construção de novas unidades em outras regiões do país? Quais?

Devemos pensar em fontes estáveis próximas aos centros de carga. Dentro dessa metodologia, a Eletrobras, em conjunto com a Coppe e o Eletropower Research, dos EUA, fez um estudo verificando quais as principais áreas com mais vocação para receber um sítio nuclear. Mais de 40 áreas foram estudadas, sendo identificados locais na região do alto São Francisco, que inclui Minas Gerais e Bahia, e na região Nordeste, que inclui Pernambuco, que poderiam abrigar essas termonucleares.

A Eletronuclear realizou e encaminhou para o ministério um estudo sobre a localização das novas usinas a serem construídas no país. Qual a avaliação do ministério sobre esse estudo?

O estudo que a Eletronuclear nos enviou demonstra que existem sítios que tinham condições de receber as plantas termonucleares. Desse ponto de vista, existe a vocação técnica para receber esses empreendimentos. Escolher nesse momento é muito precipitado, porque não sabemos o horizonte em que essas usinas irão entrar. Dentro do horizonte do planejamento, vamos verificar sua real necessidade, inclusive temporal, e sua proximidade do centro de carga e das demais gerações que estarão próximas. Por isso, não podemos dizer, ainda, qual o local onde começar.

O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) deveria ter tomado uma decisão sobre a retomada das obras da usina nuclear Angra 3, em sua 33ª reunião, realizada no último dia 14 de dezembro. A expectativa é que a construção da usina seja reiniciada em 2017. O senhor confirma esta data?

De fato, é o CNPE que irá deliberar o próximo passo para Angra 3. Na última reunião, o MME informou aos conselheiros que estão sendo concluídos por parte da Eletrobras e do MME os estudos sobre a viabilidade da retomada das obras e alternativas, que serão apresentados no início de 2017.

Declarações de representantes do governo dão conta de que, devido à escassez de recursos públicos, haverá uma mudança no modelo de construção e geração das próximas centrais nucleares, que será aberto à participação da iniciativa privada e de empresas estrangeiras. O senhor confirma essa tendência?

Eu diria que não existe uma tendência, mas uma atenção especial para que possamos entender melhor essa oportunidade ou esse desafio. Na prática, trata-se de um desafio, uma vez que não temos recursos para atender essa necessidade. E é uma oportunidade para que, dentro da estratégia que estamos traçando para a energia nuclear, possamos ter ou não parceiros que tenham conhecimento, tecnologia e recursos para investir no Brasil. Esta não é uma decisão simples, pois envolve segurança nacional, envolve planejamento energético, envolve planejamento ambiental. Sem falar que, em relação à participação estrangeira, nós temos uma limitação constitucional. Então, estamos primeiro avaliando se faz sentido estrategicamente, se o modelo de negócios faz sentido, e a partir daí, se vale a pena ou não brigar por uma mudança na Constituição.

O ministério já recebeu alguma proposta de empresas estrangeiras?

Somos frequentemente procurados por várias empresas de diversas nacionalidades, com tecnologias comprovadas - segundo elas. Atendemos todas e usamos isso como subsídio técnico para poder entender melhor a tecnologia, para uma possível participação dessas empresas em nossa matriz. Se houver mesmo a necessidade de contar com a participação externa, vai ter uma grande procura, vai ter uma discussão muito boa.

- Estamos avaliando se faz sentido estrategicamente a participação estrangeira na área nuclear e, a partir daí, se vale a pena brigar por uma mudança na Constituição
Eduardo Azevedo

Anunciado há três anos, o PNE 2050 ainda não foi lançado. Há previsão de lançamento?

O PNE é um trabalho de muitas mãos, que tem sido coordenado até então pela EPE. É um trabalho muito complexo e que exigiu a dedicação de muitas horas de alguns dos melhores profissionais do país na área do planejamento. Só que foram empregadas premissas que talvez não sejam mais válidas. Por esse motivo, todo o material que foi feito para publicação está sendo revisto. Como o ministério tem a atribuição constitucional de fazer o planejamento e elaborar políticas, trouxemos para nossa responsabilidade e vamos entregar para a EPE um caderno de encargos onde apresentamos as políticas e as premissas validadas pelos órgãos que tenham legitimidade para tratá-las. Vamos falar sobre política de transportes, sobre políticas agrárias. Baseado nessas premissas, vamos ter impactos na oferta e na demanda e, a partir daí, vamos calcular, novamente, o cenário de matrizes, para que possamos identificar o caminho a seguir para o PNE 2050. Ainda não há uma data prevista para publicação, mas estimamos que isso deva ocorrer no começo do segundo semestre deste ano.

No PNE 2050, o que o governo espera da energia nuclear nas próximas décadas?

Não temos ainda nenhuma previsão.

Nos últimos tempos, observa-se que, cada vez mais, as mudanças climáticas têm impactado o sistema elétrico brasileiro na forma de anos extremamente secos, o que sobrecarrega a rede, e eventos extremos no sul do país, onde estão localizadas as grandes linhas de transmissão de Itaipu. Nesse sentido, o que está sendo pensado pelo ministério para tornar o sistema elétrico brasileiro mais robusto, face a essas mudanças?

Estamos trabalhando para tornar o sistema elétrico mais robusto, e a forma de conseguirmos isso é tornar a operação do sistema mais eficiente. E tornar a demanda mais qualificada. Precisamos tornar a eficiência energética uma prática comum nos setores residenciais, comercial, industrial, enfim, em todos os setores da economia. Assim, poderemos gastar de forma mais consciente e sobrecarregar menos o sistema; poderemos trabalhar a geração distribuída, a geração próxima à carga e, com isso, perder menos energia no transporte e diversificar as fontes. Com a diversificação de fontes, ficaremos menos vulneráveis às características sazonais e, principalmente, àquelas que têm impacto com a mudança climática. Então, se falta chuva, vamos ter vento, se falta vento, temos sol, se falta sol, temos biomassa, biogás, temos eventualmente nuclear e térmicas complementando... E temos, também, a operação inteligente, como falamos no começo.

Caso sejam construídas novas usinas nucleares, será preciso um contingente de especialistas para operá-las. Estima-se que cada usina demandará cerca de 200 técnicos especializados, o que significa a necessidade de 800 desses profissionais até 2030. Ainda segundo especialistas do setor, nesse prazo, o mercado não conseguirá formar recursos humanos para suprir essa demanda. A previsão é que será necessário importar técnicos estrangeiros. Qual sua opinião sobre esse cenário, em que um setor estratégico como o nuclear terá total controle externo (capital, tecnologia e operação)?

Quando um empreendimento de qualquer natureza começa a ser construído, antes ele precisa ser planejado. No planejamento de uma usina que demora seis, oito, dez anos, para ficar pronta, está prevista a formação de pessoal para operar. Pensando numa formação de nível superior, tem cinco, seis anos para formar esse pessoal. Se essa nova unidade vai demorar dez anos para ficar pronta, há tempo mais que suficiente para formar e capacitar pessoal. Portanto, eu não vejo isso com grande preocupação.

Associação Brasileira de Energia Nuclear

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