Pressionados pela demanda crescente de energia e a necessidade de cortar as emissões de CO2, países investem na ampliação da capacidade das usinas em operação e na construção de novas unidades
Fábio Aranha
Vera Dantas
O mundo experimenta um novo ciclo de crescimento da energia nuclear. Com a necessidade de atender a uma crescente demanda energética, eduzir a dependência de importações e cortar emissões de carbono, muitos países incluíram as usinas nucleares novamente na agenda política. O planejamento para a construção de novos reatores está em um nível que não se via há décadas. Além disso, países sem tradição nuclear buscam se juntar ao clube. Com o apoio até de ambientalistas, a indústria nuclear se prepara para crescer.
Desde a virada do milênio, o setor vem discutindo a iminência de um renascimento nuclear mundial e a velocidade em que esse processo acontecerá. Apesar de novas usinas ainda não terem sido construídas nos EUA e na Europa Ocidental (com exceção da Finlândia), houve um aumento na produção dos reatores em operação e muitas unidades sofreram aumento de potência e da vida útil.
“Sem fazer alarde, os países centrais ampliaram seu parque de produção nuclear em 50%, com o aumento, por mais 20 anos, da vida útil dos reatores”, afirma o físico e vice-diretor da Coppe/UFRJ, Aquilino Senra (ver Vida Útil).
E, enquanto no Ocidente, os investimentos na expansão do setor ainda andam devagar, na Ásia, caminham a passos largos. Esse cenário contribuiu para que a energia nuclear mantivesse sua participação na matriz elétrica mundial, que hoje é de 14%, mais ou menos estável desde meados dos anos 1980. Levando em conta que a demanda por energia elétrica cresceu em todo o mundo nesse período, isso significa que a geração nuclear aumentou de forma significativa nas últimas décadas.
Para o economista e escritor Jonathan Tennenbaum – autor de livros sobre o setor, como “A economia dos isótopos” e “Energia nuclear: dínamo da reconstrução econômica mundial” –, a retomada nuclear já começou e, em sua opinião, é praticamente impossível de ser interrompida. Ele ressalta, entretanto, que esse movimento acontecerá paulatinamente. “É claro, não se pode esperar que a construção de usinas nucleares vá simplesmente deslanchar de um dia para o outro. A energia nuclear é extremamente capital-intensiva, exige investimentos de longo prazo e preparação cuidadosa. Mas, se você examinar as políticas nucleares e o planejamento de longo prazo das nações mundo afora, há poucas dúvidas de que a construção de usinas se expandirá em proporções gigantescas durante os próximos 15 a 20 anos”, frisa.
Uma análise dos dados referentes ao planejamento para a construção de usinas em todo o mundo parece confirmar as afirmações de Tennenbaum. De acordo com dados da Associação Nuclear Mundial (WNA), existem hoje 58 reatores nucleares sendo construídos no planeta, com uma potência combinada de 60,6 gigawatts (GW). Além disso, existem 148 reatores planejados, que acrescentarão 163,7 GW à geração mundial.
Em 2010, cinco usinas iniciaram sua operação, e obras começaram em 14 unidades, incluindo Angra 3, no Brasil. Nesse período, apenas uma unidade foi fechada de forma definitiva, na França.
As previsões do governo americano também apontam um cenário favorável à expansão do setor. Segundo o relatório International Energy Outlook 2009, publicado pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos (DOE), a geração nuclear deverá aumentar em 40% até 2030. As principais razões para esse acréscimo, segundo o documento, são o aumento dos preços dos combustíveis fósseis, a busca dos países por segurança energética e a necessidade de se reduzir as emissões de carbono (ver Sustentabilidade).
Já o World Energy Outlook 2010, publicado em novembro pela Agência Internacional de Energia (AIE), afirma que a geração nuclear pode chegar a 2050 respondendo por 24% da eletricidade do planeta, o que permitiria uma grande contribuição para a redução das emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa. Dessa forma, as usinas nucleares assumiriam papel-chave no combate à mudança climática, segundo a entidade, ligada à Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Barreiras ultrapassáveis
No documento, a AIE destaca que existe potencial para triplicar, nos próximos 40 anos, a capacidade nuclear instalada do planeta, que atingiria 1.200 GW em 2050. A agência classifica essa possibilidade como ambiciosa, mas alcançável. Para a entidade, não serão necessários grandes avanços tecnológicos para a geração nuclear alcançar os níveis de expansão previstos no relatório. Entretanto, existem barreiras relacionadas a itens como regulamentação, indústria, finanças e aceitação pública que precisam ser abordados para permitir o crescimento rápido do setor.
Tennenbaum também ressalta que existem algumas limitações à construção de novos reatores que podem ser abordados pela indústria nuclear, principalmente em relação ao financiamento e, em muitos países em desenvolvimento, à falta de infraestrutura e mão de obra qualificada. Outras medidas importantes, em sua opinião, seriam diminuir o tempo de construção das usinas e melhorar ainda mais a economicidade da geração nuclear.
O economista chama atenção ainda para a necessidade de se renovar o quadro de profissionais do setor. “É necessário rejuvenescer de forma urgente o setor nuclear em todo o mundo. É preciso recrutar uma nova geração de cientistas e engenheiros para substituir as gerações pioneiras, que estão chegando ou já ultrapassaram a idade de aposentadoria”, comenta.
No entanto, para Tennenbaum, o financiamento continua a ser o “problema número um”, em nível global, à construção de novas usinas, devido à instabilidade contínua e ao funcionamento precário do sistema financeiro e monetário internacional e ao alto endividamento de alguns países, entre outros problemas correlatos.
Ele afirma que é necessário reorientar os fluxos de capital global em direção aos investimentos físicos de longo prazo, especialmente a infraestrutura de alta tecnologia, categoria em que a energia nuclear se enquadra. “Além disso, é essencial evitar bolhas financeiras como as que levaram à recente crise mundial. Mas, obviamente, esse é um problema que vai além da responsabilidade do setor nuclear”, acrescenta.
Metas ambiciosas
Mesmo com o crescimento limitado no Ocidente, há regiões em que o setor demonstra pujança, com destaque para a Ásia e o Leste Europeu. Nelas, os investimentos para expandir a geração nuclear vêm acontecendo de forma contínua.
O continente asiático é onde a energia nuclear mais cresce no planeta. A principal razão disso é o forte crescimento das economias da região e o aumento da demanda por energia elétrica. De acordo com projeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), a região que inclui Ásia e Oriente Médio responderá por 52% da capacidade
nuclear instalada no mundo em 2020. Em 2030, esse número subirá para 66%.
Na Ásia, o crescimento nuclear vem sendo impulsionado, sobretudo, pelos planos ambiciosos de China, Índia e Coreia do Sul. A expansão do parque nuclear chinês adquire contornos cada vez maiores. Um novo planejamento para o setor delineado pelo governo no início de 2010 prevê que a capacidade nuclear instalada do país crescerá, numa estimativa
conservadora, em 70 a 80 GW até 2020, o dobro do planejado anteriormente. Com isso, a participação da energia nuclear na matriz elétrica chinesa pode passar dos atuais 1,9% para cerca de 5%.
Essa meta mais ambiciosa de investimentos na geração nuclear tem como objetivo acelerar a entrada de fontes mais limpas na matriz elétrica e reduzir a dependência do país em relação ao carvão. Hoje, a China tem 13 reatores em operação, que geram 10,2 GW. Além disso, existem 23 reatores em construção e 39 unidades adicionais planejadas,
segundo dados da WNA
A Índia também pretende expandir de forma maciça seu parque nuclear nas próximas décadas. O país planeja aumentar a sua capacidade de geração nuclear para 60 GW até 2035. Hoje, os indianos têm 19 reatores nucleares em operação, que produzem 4,2 GW. Com o acréscimo, a previsão é de que a energia nuclear passe a responder por cerca de 10% da geração total, um aumento considerável em relação aos 2,2% atuais.
A Coreia do Sul vem se tornando nos últimos tempos um player de destaque no mercado nuclear internacional. Em dezembro de 2009, um consórcio sul-coreano venceu concorrência de US$ 40 bilhões para projetar, construir e operar quatro reatores nucleares, de 1.400 MW cada, nos Emirados Árabes Unidos, deixando para trás americanos e franceses em um dos maiores contratos de energia do Oriente Médio.
Em janeiro de 2009, o governo do país declarou que planeja exportar 80 reatores nucleares, num valor total de US$ 400 bilhões, até 2030. Isso transformará a Coreia do Sul no terceiro maior fornecedor de tecnologia de reatores no mundo, com uma participação de 20% no mercado internacional. Internamente, a estratégia é aumentar o parque nuclear em 56%, alcançando 27,3 GW instalados em 2020. Para 2030, a meta é chegar a 35 GW.
Outro país asiático com grande investimento em energia nuclear é o Japão. No momento, os japoneses tem 54 reatores operacionais, que respondem por 30% da energia nacional. Até 2017, a fatia nuclear da matriz elétrica deve subir para 40%. Atualmente, duas usinas estão em construção e 12 adicionais estão planejadas.
Tennenbaum afirma que a Ásia deve concentrar a maior parte da construção de novas usinas nucleares nos próximos anos. Mas ressalta que isso não quer dizer necessariamente que o continente será líder em termos de tecnologia nuclear. “Há esforços significativos dos EUA, da Europa (Ocidental) e da Rússia para manter uma posição de inovação tecnológica, com vistas, principalmente, à exportação”, explica, citando a França como exemplo no continente europeu.
Ele lembra que a Rússia tem planos de obter uma fatia de 25% do mercado mundial de tecnologia nuclear. O governo pretende praticamente dobrar a capacidade nuclear instalada do país, chegando a 35 GW em 2016 e 51 GW até 2020.
Já os franceses objetivam exportar o EPR (reator europeu de água pressurizada, projetado pela Areva) para o mundo inteiro. O modelo também será a base para a construção interna de novas usinas. A partir de 2020, a França começará a substituir gradualmente seus 58 reatores operacionais, numa taxa de uma usina de 1.650 MW por ano. Uma unidade de demonstração da linha de EPRs está sendo construída e há planos para uma segunda (ver A força dos novos reatores).
Na Europa Ocidental, além da França, a Finlândia está construindo um novo reator. O Reino Unido pretende substituir seu parque nuclear envelhecido com novas unidades. Quatro usinas EPR de 1.600 MW estão planejadas para entrar em operação em 2019, com mais 6.000 MW nucleares propostos para o futuro.
Preparando a volta
Suécia e Alemanha, que declararam moratória à energia nuclear, abandonaram planos para fechar prematuramente suas usinas e estenderam o seu tempo de operação. Os suecos também estão investindo no aumento de potência de várias unidades.
No entanto, talvez o caso mais emblemático da volta à energia nuclear na Europa seja o da Itália. Mais de duas décadas depois de ter abandonado a geração nuclear, o país prepara o caminho para voltar a investir nessa fonte energética, devido à necessidade de satisfazer a crescente demanda por energia e cortar as emissões de carbono.
Em junho, a Itália assinou acordo com a França que estabelece uma parceria na construção de novos reatores. A intenção do governo italiano é de que a geração nuclear responda por 25% da energia elétrica do país até 2030. Estudos estão sendo feitos com a francesa EdF para construir quatro EPRs de 1.650 MW na Itália.
Em relação aos EUA, Tennenbaum afirma que os americanos voltarão, em breve, a construir usinas. “Os EUA não têm alternativas à energia nuclear nos próximos 20 anos porque o país terá que substituir vários de seus 104 reatores que chegarão ao fim de suas vidas úteis”, diz.
Após três décadas de escassez em termos de projetos para novos reatores, há planos de construir quatro a seis unidades até 2018. E a movimentação do setor nuclear americano não para por aí. Desde 2007, 16 pedidos de licença foram submetidos à Comissão Regulatória Nuclear (NRC) para construir 24 novas usinas.
Mas o investimento em energia nuclear não está vindo somente de países com programas nucleares consolidados. Há um grande número de nações que pretende entrar no clube
nuclear e construir reatores para atender à crescente demanda energética interna.
Segundo a WNA, 45 novos países consideram a construção de reatores. No Oriente Médio, pelo menos 15 unidades podem ser construídas até 2025 em países como Turquia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Jordânia. Na África subsaariana, a Nigéria se destaca; na Ásia, Vietnã, Indonésia e Malásia. Na Europa, há planos concretos na Polônia e na Bielorrúsia. Na América Latina, três nações devem entrar no grupo de países que operam usinas nucleares: Chile, Equador e Venezuela.
Apesar de haver um grande número de nações em ascensão na área nuclear, a maior parte da expansão do setor deve ficar mesmo por conta dos países que contam com programas já estabelecidos, ao menos no futuro imediato. A WNA calcula que mais de 80% da expansão prevista devem vir de nações que já utilizam a energia nuclear na geração de energia.
Em contrapartida, de acordo com a associação, num prazo mais longo, a tendência de urbanização nos países menos desenvolvidos aumentará significativamente a demanda por eletricidade, em especial a gerada por fontes na base do sistema, o que favorece a energia nuclear. Isso pode significar um novo ciclo de expansão para a tecnologia cujo fim já foi decretado várias vezes, mas que teima em ressurgir das cinzas.
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A ABEN elaborou relatório que faz uma análise comparativa sobre a emissão de gases-estufa das principais fontes de geração de energia elétrica. O documento foi protocolado no Ibama como parte do dossiê das audiências públicas sobre Angra 3 realizadas nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo