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FONTE NUCLEAR
Ano 15, NÚMERO 37, 27 de Dezembro de 2010

Energia nuclear deveria ter papel mais importante na matriz energética

Helder Queiroz Pinto Jr.

Com o forte crescimento da demanda por eletricidade, há espaço para uma diversificação que contemple diferentes fontes de energia

Qualquer previsão de longo prazo sobre a economia brasileira deverá comportar um crescimento muito grande da demanda de energia elétrica. Hoje, não se coloca mais em dúvida a necessidade premente de expansão da oferta de energia. O que se discute é a sua dimensão. A taxa de crescimento da demanda de eletricidade, estimada em cerca de 5% há dois anos, está sendo revisada e deverá ficar em torno de 8%. Esse aumento bastante expressivo sinaliza, por sua vez, que é preciso acelerar o ritmo de entrada de novas usinas no sistema elétrico. Nesse cenário, uma pergunta se coloca: como deverá a ser composição dessa oferta? É viável manter a atual composição, majoritariamente assentada na hidroeletricidade? A resposta é sim e não. Sim, porque o país possui uma dotação extraordinária de recursos hídricos, que continuarão predominantes. Mas, a médio e longo prazo, esses recursos não serão suficientes e será necessário complementá-los com outras fontes de energia.

Das alternativas disponíveis, e viáveis do ponto de vista ambiental, dois candidatos principais destacam-se. O primeiro é o gás natural, impulsionado pelas reservas descobertas no pré-sal. O segundo candidato, muito provavelmente, em minha opinião, é a energia nuclear. Além do país já dominar essa tecnologia – com duas usinas, Angra 1 e Angra 2, funcionando, e uma terceira em construção -, trata-se de opção de energia limpa, sem emissão de CO2, e que contribui para que seja atingido um dos objetivos da política energética brasileira, que é não poluir a nossa matriz energética. Mas, apesar desse aspecto positivo, a expansão da energia nuclear ainda deverá ser tímida no curto prazo. O maior incremento se dará a médio e longo prazo, a julgar pelo planejamento divulgado para os próximos 10 anos. Evidentemente, um terceiro candidato seriam as usinas de geração com base na energia renovável, em particular a energia eólica. Estas, no entanto, ainda não se beneficiaram dos ganhos de escala que permitirão, no longo prazo, uma substancial redução de custos. Essa alternativa será seguramente importante, mas ainda não se encontra, do ponto de vista econômico, no mesmo estágio de maturidade dos dois candidatos principais mencionados acima.

No caso particular da energia nuclear, um dos principais entraves à sua expansão diz respeito à complexidade tecnológica e financeira desses projetos.Por esta razão, o plano decenal elaborado pela Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE), com horizonte 2019, não contempla uma participação importante da energia nuclear. Desse modo, o motivo seria, a princípio, o fato de que a energia das quatro novas usinas previstas pelo Programa Nuclear Brasileiro não estaria sendo contratada em um horizonte
tão curto. Sua entrada no sistema deverá se dar num horizonte mais longo, ou seja, no planejamento energético de 2035.

Hoje, a contribuição da nuclear na matriz energética está em torno de 2%. E, pelas previsões oficiais, deverá atingir uma participação de 5% em 2035. Embora o dobro do atual, esse percentual é, ainda, modesto. Se o projeto brasileiro é, progressivamente, diversificar sua matriz de geração de eletricidade, a energia nuclear deveria ter um papel mais importante do que o que lhe está, até agora, reservado.

Para tal, será indispensável a implementação de instrumentos de política industrial, bem como a definição de um modelo sustentável de financiamento para os investimentos da Eletronuclear e a retomada do processo de construção das redes de inovação em tecnologia nuclear. Mas, para isso, acima de tudo, é preciso vontade política.

Com a demanda por eletricidade crescendo em ritmo cada vez mais forte, há espaço para ter uma diversificação que contemple diferentes alternativas energéticas. E a nuclear é, sem dúvida, uma delas.

Helder Queiroz Pinto Jr.
Economista, com especialização em Planejamento Energético, é professor e pesquisador do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro
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Documentos

A ABEN elaborou relatório que faz uma análise comparativa sobre a emissão de gases-estufa das principais fontes de geração de energia elétrica. O documento foi protocolado no Ibama como parte do dossiê das audiências públicas sobre Angra 3 realizadas nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo


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