O ministro de Assuntos Estratégicos Samuel Pinheiro Guimarães Neto defende a expansão da energia nuclear como forma de sustentar o aumento da capacidade energética do país. Em sua opinião, a grande distância das últimas reservas hidrelétricas demandará a criação de linhas de transmissão extensas e sujeitas a interrupções. Já com a ampliação do parque nuclear, será possível construir usinas onde houver demanda energética, diminuindo, assim, a dependência das linhas de transmissão. Em entrevista a Vera Dantas, da Brasil Nuclear, ele diz haver espaço para que países como o Brasil se tornem players importantes no cenário mundial, principalmente no fornecimento de urânio enriquecido. Mas, para isso, é preciso ampliar o investimento na capacidade de produção de combustível, que ainda não atingiu o nível industrial. Em sua opinião, isso não aconteceu ainda porque não houve uma decisão a respeito: “Trata-se de uma questão de decisão política”, afirma.
Em setembro de 2009, o Brasil assinou acordo de cooperação com a França que prevê a construção de quatros submarinos convencionais e um nuclear, a construção de um estaleiro e de uma base naval, na Baía de Sepetiba, além da transferência de tecnologia. Qual é a importância desse acordo, na sua visão?
Este acordo tem grande importância para o país, seja pelo aspecto estratégico como econômico. Quando falamos de estratégia, nos referimos, em primeiro lugar, à questão da segurança nacional, e neste caso, em particular, da defesa de nosso litoral, que é muito extenso e rico. Mais do que recursos que nos permitam reagir e enfrentar qualquer ameaça à nossa segurança, precisamos contar com uma capacidade de defesa dissuasória, isto é, cujo poder seja suficiente para evitar qualquer intenção belicosa. Ainda do ponto de vista estratégico, outro aspecto a ser ressaltado no acordo é a capacitação tecnológica adquirida. Está prevista a transferência de toda a tecnologia envolvida no projeto, seja de equipamentos, de sistemas de informática e até mesmo do casco dos submarinos, este último um item de grande importância para o desenvolvimento de uma indústria naval. Do ponto de vista econômico, podemos citar a geração de empregos e de encomendas para a indústria, uma vez que o acordo prevê a fabricação no Brasil de submarinos convencionais.
O projeto e a construção do submarino nuclear estão orçados em 2 bilhões de euros. Não é um empreendimento barato, nem de baixa complexidade, uma vez que exigiu o desenvolvimento anterior e futuro de tecnologias. Qual a sua importância para o país?
Eu não considero que seja um investimento muito alto, principalmente se levarmos em conta sua relevância. O projeto do submarino nuclear é importante não só para a área de defesa como sob o ponto de vista do desenvolvimento tecnológico e, ainda, porque irá revitalizar o setor nuclear.
O Brasil vive desde maio 2009 uma crise sem precedentes na medicina nuclear nacional (parte de uma crise mundial) devido à escassez de molibdênio-99. Ela foi causada pelo desligamento do reator canadense NRU, que atendia a 100% da demanda nacional desse radioisótopo. De lá para cá, o Brasil se viu obrigado a diversificar seus fornecedores – muitas vezes, pagando mais caro pelo serviço – para garantir o suprimento interno do país. Médicos e especialistas da área nuclear afirmam que a solução definitiva virá com a construção do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), que terá capacidade de produzir todo o molibdênio-99 de que o país necessita. Mesmo assim, o projetoenfrentou dificuldades esse ano para conseguir entrar no orçamento do governo. Qual a importância do RMB, na sua opinião? Ele é uma prioridade para o governo? Que lições podem ser tiradas da crise do molibdênio-99?
O RMB é projeto de grande importância no campo da saúde, na medida em que vai eliminar dependência que temos hoje da importação do molibdênio-99, que é a base para a produção do tecnécio. Essa dependência é ainda mais grave devido ao processo de envelhecimento dos reatores que produzem esses radioisótopos, em todo mundo. Como a maior parte do molibdênio-99 que utilizamos é produzida em um reator canadense, a parada desse equipamento provocou um enorme prejuízo, com adiamento de um grande número de exames. Calcula-se que cerca de 150 mil pessoas foram eventualmente afetadas pela escassez desses radioisótopos. A implantação do RMB acabaria com essa vulnerabilidade na área de saúde, sem falar das outras aplicações que poderá ter. Como se trata de um projeto de longo prazo é necessário que sejam alocados recursos em caráter permanente, de forma a evitar interrupções. Tenho certeza de que governo está ciente da importância desse projeto e que os recursos virão a ser alocados.
Com o novo governo, tudo indica que haverá uma continuidade no projeto. Mas não se pode desconsiderar o risco de uma mudança. O senhor acredita que esse risco existe?
Minha impressão é que o próximo governo levará em consideração a grande importância desse projeto, por sua capacidade de atender a um número tão grande de brasileiros. Não estamos falando de um projeto qualquer, que possa ser substituído. Trata-se de algo muito específico: ou temos os radioisótopos para fazer os exames médicos ou não temos. Esses radioisótopos podem ser produzidos no Brasil ou ser importados. Se forem importados, tendo em vista a situação de escassez do mercado internacional, ficamos sujeitos ao risco de não podermos realizar os procedimentos médicos em caso de interrupção das importações. A situação só não afetará as pessoas mais ricas, que poderão fazer esses exames no exterior. Mas o resto da população, e aí está incluída a classe média e não somente as camadas mais pobres, terá grande dificuldade. Por isso, acredito que o novo governo estará ciente da importância do projeto.
O Plano Brasil 2022, preparado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos, propõe a ampliação da participação nuclear na matriz elétrica, com redução da dependência externa de urânio enriquecido, e inclui metas para o setor. De acordo com o documento, o Brasil deve passar dos cerca de 2 gigawatts atuais,
com Angra 1 e 2, para 4,4 gigawatts até 2022, o que significa construir Angra 3 e mais um reator. Como o senhor vê a evolução da geração nuclear no país? O caminho da energia nuclear é sem volta para o Brasil?
Nossa matriz energética é extremamente diversificada. Ao lado do grande potencial hidrelétrico, temos a possibilidade de utilização de outras fontes de geração de energia, como a eólica, a solar e a biomassa. Mas, é preciso levar em conta uma série de circunstâncias. A primeira é o fato de que uma grande parte do potencial hidrelétrico se encontra na Amazônia. Essa localização torna o aproveitamento desse potencial algo muito complexo, tanto pelas implicações ambientais como pela grande distância dos centros de consumo. Será preciso implantar linhas de transmissão muito extensas, que estão sujeitas a acidentes e interrupções que, por sua vez, comprometem a estabilidade do fornecimento de energia elétrica. Outro fator a ser considerado é que, apesar da abundância de reservas hidrelétricas, esse potencial está sujeito às variações nos ciclos hidrológicos, o que pode gerar escassez, como já aconteceu no passado recente. Já a característica das usinas nucleares é a regularidade no fornecimento, uma vez que não dependem das variações climáticas. Esta é um dos seus pontos fortes. Em vez de transportar a energia em linhas de grande distância, pode-se implantar várias usinas nucleares próximas dos centros de demanda.
Eu acredito que vai haver uma demanda mundial gigantesca por outras fontes de energia, e a nuclear está entre elas. Caso isso não aconteça, e o mundo continue priorizando o consumo do petróleo e do carvão, teremos uma catástrofe ambiental de enorme dimensão. Eu acredito numa reversão dessa tendência, devido à conscientização dos países que são os principais emissores dos gases do efeito estufa. Como não têm recursos hídricos suficientes ou capacidade de gerar energia eólica e solar economicamente, eles se voltam para a energia nuclear. Este é o caso da China, que tem um programa de construção de 120 usinas termonucleares. A Índia também vai pelo mesmo caminho. Mas a energia nuclear é uma solução também para países com pequena demanda e que não contam com reservas hidrelétricas ou outras fontes energéticas. Por isso é estratégico ter o domínio da tecnologia nuclear. O país capacitado a
fornecer reatores e combustível terá condição de atender a esse mercado.
O Brasil poderá ser um “player” importante no mercado do combustível nuclear?
Sim. Em primeiro lugar, temos a sexta maior reserva de urânio do mundo e podemos vir a ter uma das maiores, possivelmente a terceira. Nossas reservas conhecidas atuais já são suficientes para todo o programa nuclear brasileiro, cerca de 309 mil toneladas, e só prospectamos 25% do território. Falta conhecer 75%. Embora nossa produção de urânio enriquecido seja pequena e ainda não atenda à demanda atual do nosso parque nuclear, temos condições objetivas para realizar todo o ciclo do combustível (produção, beneficiamento, conversão e enriquecimento do urânio). Digo isso porque nós temos a tecnologia e os investimentos demandados são pequenos, cerca de R$ 800 milhões, dos quais R$ 550 milhões são para a construção das ultracentrifugas e R$ 250 milhões para a usina de conversão.
Se o investimento não é alto, o que falta para aportar os recursos necessários para a INB (Indústrias Nucleares Brasileiras) ampliar a escala de sua produção?
O problema não está, definitivamente, na dimensão dos investimentos. Para se atingir a autonomia total na tecnologia do enriquecimento, são necessários R$ 2,9 bilhões em cinco anos, o que dá cerca de R$ 600 milhões por ano. Em termos de orçamento, é uma quantia pouco elevada. Em minha opinião, trata-se de uma questão de decisão política. Mas eu tenho certeza de que o presidente está perfeitamente consciente disso e considera o programa nuclear da mais alta relevância.
Alguns setores na área nuclear estão pleiteando uma revisão na legislação que trata da exploração dos recursos minerais, uma vez que não vêem futuro na produção estatal do urânio. O senhor é a favor de uma flexibilização?
Não, eu não sou favorável à abertura da exploração do urânio. Não acho correto. Porque é uma questão extremamente importante, estratégica, e os recursos estão à disposição do estado brasileiro. Nem o volume de recursos necessários nem a tecnologia justificam digamos essa medida. Os países sabem que vai haver uma demanda extraordinária por urânio e, naturalmente, através de suas empresas, têm interesse na exploração e exportar o urânio em estado bruto. E, para isso, arregimentam apoio dentro do país.
Por que o BNDES não abre uma linha de financiamento para a mina de Santa Quitéria?
Não sei porque isso não ocorre. É uma questão a ser explorada com o banco.
A existência de uma reserva indígena na área de Santa Quitéria pode criar problemas para a exploração do urânio?
Não acredito. O Congresso nacional está analisando um projeto de lei que regulamenta a exploração de recursos minerais em terras indígenas. Essa legislação, que integra o Código de Mineração, prevê a divisão dos resultados da exploração com os indígenas.
O setor nuclear, que há muito tempo enfrentava o problema da falta de renovação de seus quadros, voltou a atrair os jovens. Mas os novos cursos, recém-criados, não têm capacidade de formar quadros no volume necessário para fazer frente à retomada do Programa Nuclear Brasileiro. Como, em sua opinião, se deve enfrentar esse problema?
Esta é uma questão da maior importância. Investir na formação de recursos humanos é uma tarefa de longo prazo em qualquer área, principalmente na área nuclear. Uma forma de resolver o problema, a médio prazo, seria atrair um grande contingente de engenheiros nucleares que, por razões do mercado de trabalho, foram para outras áreas de maior potencial financeiro. Esses profissionais poderiam ingressar em programas de re-treinamento e, dessa forma, voltar ao setor nuclear.
Qual a sua mensagem para a comunidade nuclear?
Reivindiquem.
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