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Força brasileira no setor nuclear internacional

(31/10/14) Embora o Programa Nuclear Brasileiro (PNB) não seja tão amplo quanto o de outros países, como Estados Unidos, França, China, Japão (que deverá religar paulatinamente algumas de suas usinas nucleares após o acidente de Fukushima), Rússia e Coreia do Sul, nosso país possui profissionais reconhecidamente de alto gabarito engajados no funcionamento da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto - CNAAA (onde se localizam as usinas Angra 1 e Angra 2, em operação, e Angra 3, em construção), na produção de elementos combustíveis e em levar adiante novos projetos, como as construções do primeiro submarino a propulsão nuclear e do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), a implantação do Laboratório de Fusão Nuclear (no Estado de São Paulo) e a ampliação da capacidade de processamento de urânio pela Indústrias Nucleares do Brasil (INB), por exemplo. Neste semestre, a qualidade do profissional do setor nuclear nacional ultrapassou nossas fronteiras, pois dois brasileiros passaram a ocupar importantes cargos nas instituições globais Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e Associação Mundial de Operadores Nucleares (World Association of Nuclear Operators - Wano, em inglês).

Em março passado, ocorreu o anúncio de que a partir do último dia 1º de agosto o então presidente da Biofábrica Moscamed Brasil (BMB) e secretário-geral da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Aldo Malavasi, assumiria a Diretoria do Departamento de Ciências Nucleares e Aplicações da AIEA, em substituição a Daud Mohamad, da Malásia. Três meses depois, no dia 24 de junho, o diretor de Operação e Comercialização da Eletrobras Eletronuclear, Pedro Figueiredo, foi eleito chairman do Centro de Paris da Wano. A princípio, eles permanecerão nesses cargos por três anos, no caso de Malavasi, e dois anos, no caso de Figueiredo. Contudo, há possibilidade de extensão em ambas as situações, dependendo, respectivamente, de prorrogação por parte do diretor-geral da AIEA e de reeleição na Wano (por um período apenas). Ao passo que Aldo Malavasi não tem mais vínculo direto com a BMB e a SBPC, Pedro Figueiredo continua trabalhando na Eletronuclear, pois sua eleição, inclusive, está diretamente ligada à posição que ocupa na empresa (ele terá que renunciar à função na Wano na hipótese de deixar a subsidiária da Eletrobras).

O novo diretor do Departamento de Ciências Nucleares e Aplicações da AIEA é o segundo brasileiro a ser empossado no cargo, sucedendo Hélio Bittencourt, no final da década de 1970. Apesar da responsabilidade, ele garante, com base em sua larga experiência, que não há pressão. "É natural que se espere bastante de um novo Diretor-Geral Assistente (DDG), independentemente da sua nacionalidade. Na verdade, a minha indicação reflete exatamente a importância cada vez maior da América Latina nesse campo, particularmente dos profissionais brasileiros que gozam de uma excelente reputação dentro da Agência. Tanto as funções na BMB como na SBPC me ajudaram extraordinariamente nesse novo posto, pois o principal aqui é liderar um grupo muito bem preparado para atingir metas bem precisas. Era exatamente o que ocorria no Brasil. Como sempre digo, o difícil não é a resolução dos problemas, mas colocar as pessoas de diferentes background (experiências e conhecimentos) para trabalharem juntas", afirma.

Além de ter sido presidente da Biofábrica Moscamed Brasil e secretário-geral da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Aldo Malavasi também foi membro do Standing Advisory Group for Nuclear Applications (Sagna) da AIEA, consultor e professor de genética e evolução na Universidade de São Paulo (USP), tendo trabalhado em muitos países. "Aprendi a respeitar a diversidade e a trabalhar com o que temos à mão. O meu background como professor foi muito importante para se compreender como a ciência é construída. Ter sido membro do Sagna e consultor em muitas missões da AIEA permitiram que eu conhecesse um pouco da sua estrutura e a forma de atuação. Como uma Agência das Nações Unidas, a estrutura administrativa é pesada e altamente hierarquizada, o que causa estranheza para muitas pessoas de fora. Nesse sentido, o Sagna foi um aprendizado. A atual experiência na Diretoria do Departamento de Ciências Nucleares e Aplicações da AIEA é muito rica e um grande desafio. A AIEA é uma agência muito grande, que atua em mais de 130 países, e o Departamento de Ciências Nucleares e Aplicações é encarregado de realizar pesquisa e desenvolvimento em áreas estratégicas, desde a agricultura até a aplicação industrial e saúde humana", completa.

Por sua vez, o atual chairman do Centro de Paris da Wano, Pedro Figueiredo, é o primeiro profissional não europeu a dirigi-lo. Responsável pela operação e comercialização das usinas nucleares brasileiras, ele é engenheiro eletricista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diretor de Operação e Comercialização da Eletronuclear desde 1997 e governador pela Eletronuclear do Centro de Paris desde 1991. Ao explicar a função que assume na Wano, Figueiredo destaca o orgulho que sente pela qualidade da mão de obra nuclear brasileira. "Eu fui eleito para um mandato de dois anos como chairman, ou seja, presidente da Junta de Governadores do Centro de Paris. Sinto-me bastante satisfeito pessoalmente, pelo reconhecimento dos meus pares, mas, na verdade, essa eleição representa um reconhecimento ao trabalho que é feito no Brasil no que se refere à operação de centrais nucleares. A eleição coloca o Brasil em pé de igualdade com os melhores operadores de centrais nucleares do mundo. Não devemos perder de vista que as usinas brasileiras encontram-se em posição de destaque em todo o mundo, no que se refere ao desempenho e à segurança", informa.

Desenvolvimento de novas tecnologias e aperfeiçoamento de critérios de segurança

Em visita ao Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD) em abril passado, Aldo Malavasi mostrou-se interessado em estabelecer parcerias com a instituição, que é subordinada à Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). Segundo ele, apesar de os projetos que tocará na Diretoria do Departamento de Ciências Nucleares e Aplicações da AIEA serem, em geral, para mais de um país, há planos específicos para o Brasil. "Em relação ao Brasil, pela liderança exercida pela Cnen, IRD e Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen/Cnen), por exemplo, há boas perspectivas de parcerias que permitirão não somente ao brasileiros, mas também a todos os latino-americanos, terem acesso a novas tecnologias nucleares que poderão afetar positivamente diferentes regiões do país além de outros países. Estamos em Viena, Áustria, à disposição de toda a comunidade de aplicações nucleares para ajudar naquilo que é a nossa missão", assinala Malavasi.

Em relação à Wano, não há nenhum novo projeto a ser implantado no Brasil em específico. Segundo Pedro Figueiredo, a novidade é que existe a instalação de um novo centro em Hong Kong, na Ásia, para atender às novas usinas chinesas que deverão entrar em operação por volta do ano de 2016 (cerca de 25 novas plantas termonucleares). Ele ainda enfatiza que a Wano é uma organização que completou 25 anos de existência e que, "sem dúvida nenhuma, é a responsável pela melhoria geral de segurança nas usinas nucleares de todo o mundo, bem como pelo aumento da confiabilidade e disponibilidade das mesmas fazendo com que todos os indicadores aceitos pela indústria nuclear tenham tido uma melhora significativa". E complementa: "A Wano fornece todo o suporte às empresas para as suas argumentações que for necessário. Nós não nos relacionamos com governos nem interferimos em políticas públicas de qualquer natureza, em nenhum país. O único relacionamento com um governo somente seria admissível caso alguma usina estivesse descumprindo práticas seguras de operação e o órgão regulador local não tomasse nenhuma providência."

Ainda no campo da segurança de uma central nucleoelétrica, o chairman do Centro de Paris da Wano detalha o que foi feito no Brasil após o acidente na usina nuclear japonesa de Fukushima-Daiichi, em março de 2011. "Houve uma autoavaliação (nos moldes das realizadas nas usinas europeias, denominada de “Stress Analysis”, ou seja, a rigidez da usina quanto à segurança durante eventos extremos) e constatou-se que a segurança das usinas de Angra era adequada. No entanto, tratando-se de eventos extremos, muito além daqueles imaginados como base de projeto, foi feito um plano de ação, já em plena execução, que constou de análises, aquisição de equipamentos e procedimentos para enfrentar situações extremas, principalmente aquelas em que possa ser provocado um blackout total na usina, por perda da alimentação elétrica externa. O cronograma para implantação de todas essas medidas será ao longo dos anos (até 2016) e o plano foi apresentado à Cnen", frisa.

Sob a égide de Fukushima, a Wano envolveu-se profundamente nas autoavaliações a que todas as usinas europeias se submeteram, inclusive as brasileiras, emitindo guias para tais autoavaliações. Em seguida, modificou o critério de inspeção, adicionando dois novos tópicos: análise da engenharia das usinas (projeto) e Plano de Emergência, no que tratar de eventos extremos como o de Fukushima e, principalmente, em questões referentes ao abastecimento de energia elétrica para a usina. Ao mesmo tempo, a Wano ampliou em mais de 100 engenheiros e técnicos o quadro permanente disponível para fazer inspeções nas usinas no Centro de Paris, pontua Pedro Figueiredo.


Aldo Malavasi é o diretor do Departamento de Ciências Nucleares e Aplicações da AIEA desde agosto / IAEA

Diretoria do Departamento de Ciências Nucleares e Aplicações da AIEA

De acordo com Aldo Malavasi, a Agência Internacional de Energia Atômica, que é vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU), possui uma estrutura muito grande e compartimentalizada. Mas existe, simultaneamente, uma relação bastante próxima entre os departamentos, com reuniões constantes entre os seis diretores-gerais assistentes que tratam de assuntos comuns, e conversas frequentes entre as divisões em cada departamento.

Especificamente no caso de ciências nucleares e aplicações, Malavasi acredita ser surpreendente a quantidade de produtos e processos que têm sido desenvolvidos dentro de seu departamento, que abrange as seguintes áreas: alimentos e agricultura, saúde humana, meio ambiente, recursos hídricos, produção de radioisótopos e tecnologia de radiação e ciência nuclear. "Além disso, é muito importante a questão de treinamento, no qual damos uma atenção especial aos nossos fellows (companheiros) que vêm de todo o mundo. As nossas metas são muito pautadas pelas necessidades dos Estados Membros. Assim nos adaptamos – na medida do possível – às expectativas dos países. Mas é um grande desafio combinar prioridades de pesquisa com a entrega de produtos e processos e treinamento com um orçamento que, embora aceitável, não tem sofrido expansão nos últimos anos", conclui.


Pedro Figueiredo foi eleito chairman do Centro de Paris da Wano em 24 de junho / Eletrobras Eletronuclear

World Association of Nuclear Operators

A Wano é uma organização que teve a sua carta de fundação assinada em 1989. Sua origem foi determinada após o acidente na usina de Chernobyl, na antiga União Soviética (atual Ucrânia), quando se constatou que havia a necessidade global de uniformização dos procedimentos de operação e manutenção de usinas nucleares em todo o mundo, considerando-se que um acidente em qualquer local afeta os demais países. Assim, todas as 437 usinas nucleares em operação no planeta, sem exceção, são signatárias da carta de fundação da Wano, que tem a seguinte missão: maximizar a segurança e a confiabilidade das usinas em todo o mundo, através da troca de experiências e comparações entre as mesmas, conseguida por meio de inspeções mútuas, buscando-se sempre a excelência.

A Wano atua através de quatro centros regionais: Paris (França), Atlanta (Estados Unidos), Moscou (Rússia) e Tóquio (Japão), sob a coordenação de um centro localizado em Londres (Inglaterra). Cada centro tem como associadas as usinas de sua região ou as usinas de fabricantes daquela região. O Brasil, com Angra 1 (americana da Westinghouse) e Angra 2 e 3 (projeto e suprimento da alemã KWU), é participante dos centros de Atlanta e de Paris. O último tem como associadas todas as usinas europeias; o Brasil (usina alemã); a Argentina (usina alemã); e parte da China (usinas francesas). Os centros são administrados de maneira autônoma, sendo sociedades registradas nos países onde estão localizados. Cada centro tem um diretor-geral (profissional contratado no mercado) e vários outros diretores. A mão de obra para cumprir os diversos programas (inspeções mútuas, experiência operacional, suporte técnico e outros) é fornecida pelos associados. O Centro de Paris tem cerca de 150 engenheiros.

A mais alta administração de cada centro é composta por uma Junta de Governadores. Cada governador (normalmente diretor de Operação ou presidente da empresa) representa uma empresa e um grupo de usinas de propriedade daquela corporação. São cerca de 20 governadores que se reúnem três vezes por ano para acompanhamento dos programas, definição de estratégias, aprovação de orçamentos e de quadro de pessoal e análise da situação das diversas usinas que fazem parte daquele centro.

Todas as informações supracitadas são de Pedro Figueiredo, que ainda comenta sobre o financiamento da Wano. "A Wano é uma organização não governamental. É mantida pela anuidade paga pelas usinas associadas (todas em operação no mundo). O valor da anuidade é calculado em função da potência instalada de cada empresa. Por exemplo, a cota da Eletronuclear corresponde à soma da potência de Angra 1 e Angra 2 (640 MW e 1.350 MW, respectivamente), mais a metade da potência da usina Angra 3 que está em construção (700 MW), totalizando 2.690 megawatts (MW) instalados. O orçamento é calculado de modo a cobrir as despesas gerais com os diversos programas que são aprovados pelas juntas de governadores dos diversos centros regionais e do Centro de Coordenação de Londres", finaliza.

Associação Brasileira de Energia Nuclear

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