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ENTREVISTA | Para atingir a meta de emissões zero de gases de efeito estufa, o Brasil precisa de, pelo menos, 40 a 50 GW de energia nuclear até 2050

(15/09/21) Com décadas de experiência profissional em renomadas instituições do setor energético, como Eletrobras, Light, Itaipu, Furnas, Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), Eletrosul, antiga Nuclebrás Engenharia S.A. - Nuclen (atual Eletronuclear), Companhia Energética de São Paulo (Cesp), CPFL Energia, Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), EDP e World Energy Council, e atualmente trabalhando como consultor e conselheiro de Administração de algumas empresas, o engenheiro José Luiz Alquéres dá uma verdadeira aula sobre a matriz nacional e os setores de transporte, agropecuário e industrial em entrevista à Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben).

Especificamente sobre nossa matriz elétrica, o especialista ressalta o papel indispensável da fonte nuclear para o País cumprir metas climáticas. "Fazendo hoje um programa economicamente bem concebido, como a França fez, a fonte nuclear é a que possibilitaria a recuperação de nosso parque industrial de bens de capital. Deveriam ser construídos, nos próximos 30 anos, algo como 40 mil a 50 mil MW de geração nuclear. Complementando com 400 mil MW de outras fontes, teríamos um sistema hidrotermonuclear sem emissões de gases de efeito estufa capaz de atender a todas as necessidades dos setores elétrico, de transporte urbano (automóveis e ônibus) e de transporte interurbano", explica.

E complementa: "O Plano Nacional de Energia (PNE) 2050 prevê um aumento da geração nuclear na ordem de oito a dez GW, além de Angra 3, mas o Brasil precisa de, pelo menos, 40 a 50 GW nesse horizonte. O PNE não prevê que o País atinja a meta de emissões zero de efeito estufa, ele é um programa ultrapassado. E não acredito que seja necessário flexibilizar o monopólio do setor, que é controlado exclusivamente pela União. Poderia ser apenas um facilitador". Confira a entrevista com José Luiz Alquéres abaixo.

O senhor poderia fazer um breve relato histórico da formação da matriz energética brasileira?

Como o resto do mundo, o Brasil começou construindo usinas termelétricas. Depois, as hidrelétricas ganharam proeminência. Em meados da década de 1950, quando o petróleo estava muito barato, ocorreu um seminário do qual saiu a conclusão que o Brasil tinha poucas reservas de petróleo identificadas e abundância de recursos hidrelétricos. Havia uma preferência dos estados, especialmente São Paulo, de fazer pequenas hidrelétricas. Por outro lado, órgãos financiadores como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Banco Mundial davam preferência em construir grandes hidrelétricas, que eram usinas de mil megawatts (MW). Então, foram construídas Furnas, Três Marias e Usina de Peixoto. Seguimos a tendência de hidrelétricas especialmente depois do choque do petróleo em 1973 e 1974, e depois em 1979, quando o custo do combustível importado ficou alto. A crise também aumentou a preocupação de autossuficiência do País e precipitou a negociação do Acordo Nuclear com a Alemanha, que não previa só a construção de oito usinas nucleares, mas o domínio do ciclo do urânio. Era uma época em que a mentalidade era de um projeto de Brasil grande e autossuficiente em tudo. O petróleo que andava para trás. Apenas depois de 1980, com contratos de risco e, posteriormente, com a quebra do monopólio, houve um grande desenvolvimento da pesquisa nacional no Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação Leopoldo Américo Miguez de Mello (Cenpes), da Petrobras. Tudo isso configurou nossa matriz energética.

E com relação à matriz elétrica?

Ela não deixou de ser marcada pelo peso das hidrelétricas, que chegaram a representar 96% do total da geração. Mas como hidrelétricas têm sazonalidade, havia justificativa econômica para ter uma quantidade de térmicas funcionando algumas horas por dia. Essa situação inviabilizou um maior desenvolvimento do programa nucleoelétrico. O setor elétrico chegou a criar o conceito de custo de hidrelétrica equivalente, que demonstrava que o quilowatt (kW) instalado de usina nuclear era mais caro que o de hidrelétrica. O Tesouro teria que compensar o setor com a diferença, porque não seria justo imputar aos consumidores o sobrecusto de financiar um programa nuclear muito mais caro. Aí ocorreu a crise energética de 2001 por deficiência de investimentos e construíram termelétricas aos montes. Era aquele "salve-se quem puder" e uma termelétrica se constrói mais rapidamente que uma hidrelétrica. Com isso, o Brasil possui hoje uma matriz com cerca de 110 mil MW de fontes hidrelétrica, biomassa, eólica e outras e uns 50 mil MW de fontes termelétricas muito pouca econômicas. Devemos, em um primeiro momento, pensar no futuro da energia elétrica no Brasil. Ele tem que ser de energia limpa, como no resto do mundo. Como podemos produzir energia elétrica sem emissão de gases de efeito estufa? Temos usinas eólicas, solares, termelétricas a biomassa e hidrelétricas, cujo grande potencial está na Amazônia. Contudo, construir uma usina hidrelétrica lá gera efeitos negativos, pois é preciso abrir estrada e deslocar milhares de pessoas. Isso acaba criando novas cidades, devastando a floresta e alterando o clima. Há experiência dos casos de Tucuruí e Belo Monte. Por mais medidas mitigatórias tomadas, a Amazônia paga um preço alto. Ela já foi 30% devastada, não por causa de hidrelétricas - a maioria é culpa da expansão da fronteira agrícola e do uso da terra. Mas, por conta disso, não acredito que a expansão deva ser feita com base em hidrelétricas. Durante toda minha vida fui ligado ao setor dos grandes barrageiros, que tiveram seu tempo, construíram um grande Brasil. Contudo, agora temos que pensar no futuro.

Como o senhor acha que deve ser o futuro da matriz elétrica brasileira?

Temos que usar o máximo possível as fontes eólica, solar, biomassa e nuclear. Por que a nuclear? Fazendo hoje um programa economicamente bem concebido, como a França fez, a fonte nuclear é a que possibilitaria a recuperação de nosso parque industrial de bens de capital. Deveriam ser construídos, nos próximos 30 anos, algo como 40 mil a 50 mil MW de geração nuclear. Complementando com 400 mil MW de outras fontes, sendo 100 mil MW de hidrelétrica, teríamos um sistema hidrotermonuclear sem emissões de gases de efeito estufa capaz de atender a todas as necessidades dos setores elétrico, de transporte urbano (automóveis e ônibus) e de transporte interurbano. Enfim, estaríamos apenas cumprindo o que prometemos na 22ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP 22). Mas até hoje nada foi feito. Precisamos abrir os olhos para a energia nuclear, elaborar um programa bem feito, primeiramente com grandes usinas de água pressurizada (PWR) e depois com usinas a sódio líquido. O Brasil vai precisar, em 2050, de 450 mil MW de energia limpa.

Para o País sair dos 170 mil MW atuais e em 30 anos chegar a 450 mil MW, é necessário um grande esforço do ponto de vista de recursos humanos, de gestão e de capacitação industrial. O que temos que fazer?

Dos atuais 170 mil MW, é preciso descartar 60 mil MW de térmicas caras, sobrando 110 mil MW. Dobrando em 12 anos, teríamos 220 mil MW em 2034. Dobrando novamente em 12 anos, teríamos 440 mil MW em 2046. Eu vivi em uma década em que houve crescimento de geração de energia elétrica na ordem de 15% ao ano. Não é nenhum absurdo. É necessário atrair investimentos de US$ 30 bilhões por ano. Desse total, US$ 10 bilhões viriam sob a forma de equity do exterior e US$ 20 bilhões de um mix de equity nacional e de empréstimos nacionais e internacionais. Também é necessário fazer retrofit de todo o parque hidroelétrico existente. Só aí possivelmente ganhamos 15% a 20% de potência. Não podemos ficar parados e achar que dez mil MW de energia nuclear resolverão o problema. Precisamos de muito mais. O Plano Nacional de Energia (PNE) 2050 prevê um aumento da geração nuclear na ordem de oito a dez gigawatts (GW), além de Angra 3, mas o Brasil precisa de, pelo menos, 40 a 50 GW nesse horizonte. O PNE não prevê que o País atinja a meta de emissões zero de efeito estufa, ele é um programa ultrapassado. E não acredito que seja necessário flexibilizar o monopólio do setor, que é controlado exclusivamente pela União. Poderia ser apenas um facilitador.

Em artigo recentemente publicado no jornal Valor Econômico (03/09/21), o senhor menciona a construção de usinas nucleares subterrâneas, refrigeradas a sódio. Qual seria a vantagem dessa tecnologia?

É muito mais segura, não agride visualmente o meio ambiente e está em fim de comprovação, com as primeiras usinas sendo construídas nos EUA. E é uma tecnologia que evitará a reação pública que as usinas nucleares suscitam, resultante de uma enorme desinformação sobre as vantagens e os riscos das usinas nucleares, que são muito pequenos.

O senhor já comentou sobre a crise energética ocorrida em 2001, quando o Brasil teve que investir na construção de usinas térmicas movidas a combustíveis fósseis. Contudo, o uso dessas plantas encarece a eletricidade e vai na contramão da necessidade de descarbonização da matriz energética. Considerando esse contexto, o que o Brasil deveria fazer para lidar com o grande risco de racionamento energético neste 2021?

Temos que usar tudo o que é possível do ponto de vista térmico, que sirva para privilegiar os reservatórios nas cabeceiras dos rios, onde o valor da água é mais elevado. Encher um reservatório no Rio Paraíba do Sul não gera o mesmo benefício de encher um reservatório em Três Marias. Em Três Marias, a água vai ser útil em Sobradinho, Paulo Afonso, Xingó. Não se pode sair gastando sem planejamento. Dentro do setor elétrico, temos as competências para resolver o problema, mas a situação é muito delicada. Um racionamento seletivo agora em utilizações que não comprometessem a capacidade industrial ajudaria.

Muito se fala em eletrificação do setor de transporte, mas pouco sobre as fontes que propiciariam essa transição. O que acha de hidrogênio verde e biocombustíveis?

O biocombustível é uma grande possibilidade no Brasil. Tanto o biodiesel quanto os próprios motores de ciclo Otto. Na Europa existe um trem a hidrogênio entre Munique e Viena. Essas soluções são positivas em transporte a longa distância, pois a bateria é um grande limitador. Já o hidrogênio é um combustível que tem um poder calorífico três vezes superior ao do diesel e ao do gás natural. Possui problemas de armazenamento, mas a tecnologia pode perfeitamente enfrentá-los. Os veículos internos das cidades poderiam se beneficiar de baterias. O veículo híbrido de motor de ciclo Otto é uma grande possibilidade para o Brasil.

O que acha da tecnologia de captura e armazenamento de carbono (CCS)?

As instalações mais eficientes hoje custam US$ 250/tonelada de carbono capturada. Ainda é muito caro, mas está se investindo muito. Instituições governamentais dos EUA investem na ordem de US$ 3 bilhões/ano em pesquisas energéticas. Já o Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel) investe US$ 40 milhões. Sem investir em pesquisa e ciência, não vamos para frente.

Como conciliar expansão agropecuária e a preservação do meio ambiente?

Todas as empresas hidrelétricas deveriam ser gestoras da bacia hidrográfica. Para você ter água no rio, tem que tomar conta da sua bacia e dos seus mananciais. O negócio da empresa de hidroeletricidade tem que ser a gestão territorial da bacia. É a única maneira.

Em que passo o Brasil está no setor de economia e conservação de energia?

São tecnologias que acabaram ficando na mão de pequenas empresas, mas muito criativas. Para o setor decolar, contudo, o preço da energia não deveria ter subsídios. O quadro de economia de energia é composto por decisões baseadas no preço. Não é um hábito cultural. Economiza-se energia se houver uma vantagem econômica.

Qual a importância de realizar cada vez mais ações em prol da descarbonização da matriz energética, que inclusive será o tema central da International Nuclear Atlantic Conference (INAC) 2021?

Caiu a ficha que as emissões de carbono estão extinguindo espécies como nunca antes visto. As emissões criam fenômenos extremos responsáveis por migrações, pandemias e degradação. É importantíssimo que o aumento da temperatura não passe de 2ºC. No caso do Brasil, que emite cerca de 2 bilhões de toneladas/ano de carbono, 60% são oriundas do uso da terra e da agropecuária. O restante é proveniente do petróleo. O seu uso na matriz elétrica não é muito grande, mas tem sido crescente e descontrolado porque é visto como a solução para a falta de planejamento de qualidade. Adia-se o problema - falta de energia, mas cria-se outro muito mais difícil de resolver - as emissões.

Considerando a necessidade de eliminação de emissões, qual é a correlação entre desenvolvimento econômico e aumento do tamanho da matriz energética?

O montante de US$ 30 bilhões por ano que mencionei deve representar 2% do PIB. Seria um investimento na área energética para mudar nossa matriz e gerar empregos. Já fui presidente da Alstom e exportei turbinas para a Usina de Três Gargantas, na China. Há cerca de 20 a 25 anos, o Brasil era um player no mercado internacional de bens de capital. E hoje importamos até parafusos. Há uma exacerbação da agroindústria, cujo custo das externalidades - poluição, degradação ambiental e migrações para cidades grandes - não é pago. Temos que reequilibrar o Brasil. A participação industrial no PIB já foi de 30% e hoje é de 11%. Estamos voltando a ser uma fazenda exportadora de grão, carne e minério: um país exportador de produtos primários. Temos a oportunidade de usar nosso soft power, que é nossa matriz limpa. Precisamos retomar um caminho virtuoso. Na década de 2000, vendemos trem para o metrô de Nova Iorque, além das turbinas para usina hidrelétrica na China.

Gostaria de dar uma palavra final?

O Brasil precisa reinventar uma política nuclear adequada aos novos tempos. Não é dar continuidade a tudo o que existe. Essa política nuclear tem 50 anos ou mais. Precisamos juntar nossos especialistas e desenhar um programa que possa servir não só para geração de energia elétrica, como domínio de todo o ciclo da energia nuclear e suas várias aplicações. É um trabalho de pesquisa em um primeiro momento. Escolher a rota e partir para ela, como a China está fazendo.

Associação Brasileira de Energia Nuclear

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