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ENTREVISTA | Capacidade plena da produção de urânio em Caetité/BA e Santa Quitéria/CE suprirá a expansão da geração nucleoelétrica prevista no PNE 2050

(14/07/21) Com décadas de experiência na iniciativa privada em áreas como avaliação de recursos e reservas minerais, planejamento e projeto de minas e estudos de viabilidade econômica e desenvolvimento, o diretor de Recursos Minerais da Indústrias Nucleares do Brasil (INB), Rogério Mendes Carvalho, aborda, em entrevista à Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben), os projetos da empresa na área mineral.

Segundo ele, a expectativa é que em 2027 a produção de urânio nas reservas de Caetité, na Bahia, e Santa Quitéria, no Ceará, atinja 100% da capacidade. "Seriam 800 toneladas em Caetité e mais 2.300 t em Santa Quitéria. Em termos de atendimento ao Programa Nuclear Brasileiro, a demanda de Angra 1 e Angra 2 e a futura usina Angra 3 situa-se na faixa de 750 toneladas anuais de concentrado de urânio. Então, com Caetité atingindo 800 toneladas de produção, já teríamos condições de atender ao complexo de Angra", declara.

Além de Caetité e Santa Quitéria, Carvalho detalha as unidades da INB em descomissionamento, localizadas em Caldas/MG, Buena/RJ e São Paulo capital (bairro de Interlagos) e outras regiões brasileiras nas quais existem recursos significativos de urânio. Confira a entrevista com Rogério Mendes Carvalho, que ocupa o cargo de diretor de Recursos Minerais da INB desde junho de 2019, abaixo.

Quais os principais projetos da INB na área mineral?

O primeiro grande projeto é a Província Uranífera de Lagoa Real, localizada em Caetité/BA, que é a nossa unidade em produção. Temos metas de expansões sucessivas até que possamos alcançar uma produção de concentrado de urânio - em forma de U3O8 - de 800 toneladas/ano na unidade. O segundo grande projeto na área mineral é o de Santa Quitéria/CE, localizado na Fazenda Itataia, onde o urânio aparece como um coproduto em adição a rochas fosfatadas. Haverá produção conjunta de fertilizantes e urânio. Planeja-se produzir cerca de 1.200.000 toneladas de produtos fosfatados, das quais 200 mil toneladas de fosfato bicálcico, para ração animal, e um milhão de toneladas de produtos para o setor agrícola. Em adição a esse produto principal, chegaremos a produzir 2.300 toneladas/ano de concentrado de urânio. Também existem unidades em descomissionamento. A principal é a de Caldas/MG, que foi a primeira mina de urânio no Brasil - produziu de 1983 até 1995. Ainda temos uma unidade em descomissionamento em Buena/RJ, onde foram produzidos materiais derivados de areias monazíticas: ilmenita, rutilo, zirconita e monazita. Planejamos finalizar a produção desta unidade no fim de 2021. A partir de 2022, seriam feitas operações relacionadas a direito minerário e territorial e o próprio desmantelamento da unidade. Já a unidade em descomissionamento em São Paulo, no bairro Interlagos, concentra resíduos da abertura das monazitas para produção de terras raras. Trabalhamos para descontaminar uma parte do solo da área. A última unidade é uma de estocagem que fica em Itu/SP (Botuxim). Além disso, temos uma equipe aqui na sede, no Rio de Janeiro, dedicada à parte de engenharia, projetos e licenciamento, tanto o ambiental quanto o nuclear.

O volume de 3.100 toneladas/ano de concentrado de urânio, somando as produções totais de Caetité e Santa Quitéria, supre a demanda das usinas de Angra?

Pelo nosso cronograma, em 2024 o ritmo será de 260 toneladas em Caetité e cerca de 800 t em Santa Quitéria. Haverá um crescimento da produção em Santa Quitéria: 2025 (80% da capacidade), 2026 (90%) e 2027 (100%). Ao atingir capacidade plena em 2027, haverá uma coincidência com o máximo de produção em Caetité. Seriam 800 toneladas em Caetité e mais 2.300 t em Santa Quitéria. O ritmo é esse: 1.100 toneladas, 2.100, 2.300 e finalmente, 3.100 toneladas de produção global. Em termos de atendimento ao Programa Nuclear Brasileiro, a demanda de Angra 1 e Angra 2 e a futura usina Angra 3 situa-se na faixa de 750 toneladas anuais de concentrado de urânio. Então, com Caetité atingindo 800 toneladas de produção, já teríamos condições de atender ao complexo de Angra. Hoje, o objetivo do Projeto Santa Quitéria é exportação. Teríamos uma capacidade muito grande e poderíamos nos posicionar no mercado como um player expressivo, ocupando cerca de 5% da produção global. Seríamos a 9ª ou 10ª maior empresa do mundo na produção de concentrado de urânio. Mas temos que considerar também que o Programa Nuclear Brasileiro vai bem além de Angra. Se pensarmos em mais 10 gigawatts (GW) de expansão no Plano Nacional de Energia (PNE) 2050, a demanda anual de urânio seria de algo como 3 mil toneladas. Ajusta-se a expansão da área mineral com o Programa Nuclear Brasileiro em termos de centrais nucleares.

A mineração de urânio foi retomada na Unidade de Concentração de Urânio (URA) em dezembro de 2020 e, em abril de 2021, a movimentação de material na Mina do Engenho, em Caetité, alcançou 91% da meta. Quais foram as dificuldades e a que atribui o sucesso da empreitada?

Fizemos modificações no planejamento de lavra com o objetivo de liberar a maior quantidade possível de áreas na mina. O cenário original previa 40 mil m³ por mês. E já em abril conseguimos fazer 68 mil m³ e, em maio, fizemos praticamente a mesma quantidade. Em abril e maio atingimos um patamar de 91% da meta de movimentação da mina. Tudo indica que, em junho, em termos de movimentação, de fluxo de caminhões, ultrapassaremos a meta de 75 mil m³. Foi um esforço conjunto da Gerência de Planejamento com a demanda da Diretoria de Recursos Minerais de flexibilizar operações de mina. Além disso, para produzir grandes movimentações na mina, temos que remover dois materiais: o estéril, que não possui valor econômico, e o minério. É preciso trabalhar de forma planejada nos dois. Então, aumentamos a capacidade de armazenagem de minério em um pátio próximo do britador de tal forma que a mina não pare.

Atualmente, quantas anomalias são exploradas em Caetité?

Hoje trabalhamos em uma única anomalia, que já é uma mina, pois está em produção. É a Anomalia 9, na área denominada Mina do Engenho. Essa mina terá uma vida de 16 anos, tanto no cenário de produção de 260 toneladas/ano, quanto no de 800 t/a. Obviamente, para um aumento da escala de produção, precisaremos abrir, ao longo de 30 anos, mais 13 novas minas. Algumas a poucos quilômetros de distância da usina de beneficiamento e outras mais distantes.

Há previsão de exploração de mina subterrânea em Caetité?

Abaixo da mina exaurida Cachoeira, o corpo de minério continua se aprofundando em uma condição em que a extração a céu aberto não é mais econômica. Então, é necessário um projeto de mineração subterrânea. Esse projeto foi contemplado no passado pela INB, mas na nossa visão é fundamental um grau maior de confiança. Precisamos fazer sondagens por meio de galerias subterrâneas de forma a validar esse recurso mineral em profundidade, e depois projetar uma mina com um horizonte de tempo de, pelo menos, 15 a 20 anos. O planejamento inicial previa a abertura dessa mina subterrânea com uma vida em torno de cinco anos. Acreditamos piamente que esse período não é suficiente para amortizar todos os investimentos na mineração subterrânea. O cenário de 30 anos que já comentei contemplará, em um primeiro momento, somente minas a céu aberto. Detalharemos o planejamento da mina Cachoeira subterrânea e, se houver viabilidade técnica, ambiental e econômica, substituiremos parte do planejamento de alguma anomalia mais distante pelo minério da Mina Cachoeira. A extração de mina subterrânea é sempre mais complexa do que uma operação a céu aberto.

Em que passo está a instalação do Projeto Santa Quitéria?

Se o projeto tiver que ser resumido em uma única palavra, é sinergia. A capacidade de produção plena de urânio em Santa Quitéria é três vezes maior que em Caetité. O projeto se encontra em fase de engenharia conceitual, no que diz respeito à planta de urânio, e em fase de projeto básico, com relação ao fertilizante. A diferença ocorre porque como o Grupo Galvani tem o know-how de implantação de projetos similares realizará as adaptações de engenharia para Santa Quitéria. O Grupo Galvani adquiriu uma planta de ácido sulfúrico, que é uma unidade muito importante no complexo mineroindustrial de Santa Quitéria. Isso possibilita um aumento em relação ao que foi originalmente previsto em termos de produtos fosfatados. Com isso, o produto urânio, originalmente planejado em 1.600 toneladas, cresceu para 2.300 toneladas. A INB está alocando sua equipe de engenharia para poder especificar tudo que é necessário para a implantação do projeto básico da planta de urânio. Queremos implementar toda a engenharia e a construção de forma muito rápida. 2023 é o ano de construção do projeto, então terminaríamos a engenharia em 2022. Na metade de 2024, a unidade entraria em produção: a planta de fertilizantes em maio e a de urânio, em junho.

Qual o investimento da INB no Projeto Santa Quitéria e quantos empregos serão gerados?

Grosso modo falamos da geração de 600 empregos diretos e 1.800 indiretos. A INB e a antiga Nuclebrás investiram na área algo como 60 mil metros de sondagem. Se considerarmos 200 dólares por metro, o investimento somente em sondagem foi de mais ou menos 12 milhões de dólares. Como os teores de urânio são muito baixos na rocha, a geração comum de dois produtos é o grande diferencial. A Galvani investe cerca de 350 milhões de dólares de forma direta e aproximadamente 50 milhões de dólares em serviços correlatos de logística e centros de distribuição para que possa escoar toda a produção de fertilizantes para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Considerando a grande quantidade de urânio no País, há expectativa de novos projetos de exploração do mineral além de Caetité e Santa Quitéria?

É relevante diferenciar recurso mineral de reserva mineral. O Brasil tem cerca de 250 mil toneladas de urânio no subsolo, um dado já quantificado por meio de sondagens. Precisamos materializar mais esse recurso e colocá-lo em categorias que sejam comparáveis ao resto do mundo, seguindo metodologias definidas pelos códigos de apresentação de relatórios de recursos e reservas e que são padronizados hoje, principalmente no Canadá e na Austrália. É um trabalho em curso na INB. Quando falamos em converter recurso em reserva, significa viabilidade técnica, econômica, financeira, ambiental e social. Só conseguimos converter 20 mil toneladas em Caetité. O recurso total lá é de 99 mil toneladas. Precisamos de mais estudos para termos a garantia de conversão desse recurso em reserva. Já em Santa Quitéria, o recurso está na ordem de 80 mil toneladas, mas só estamos aproveitando 39 mil. No caso de Santa Quitéria, a previsão atual é de um projeto com duração de 20 anos.

Gostaria de dar uma palavra final?

Dentro da área mineral, o foco é em produtividade e economicidade. Planejar o futuro começa com uma ação feita agora. O ideal seria ter perpetuidade, que pudéssemos propor projetos com prazo superior ao de 30 anos. Conduzimos as ações na área mineral nesse sentido e, também, no de demonstrarmos para a empresa a rentabilidade de cada projeto, analisando de forma ampla a estrutura de custo e os investimentos que têm que ser feitos, tanto os de capital quanto os correntes. Então, estamos colocando todo esse modelo disponível para a empresa e pretendemos mostrar isso para fora da INB. O País tem que ter garantia de que, ao longo do ciclo do combustível nuclear, tudo fique muito bem suportado. Isso é particularmente verdadeiro no caso da grande necessidade da INB de sair do orçamento fiscal e migrar para um conceito de autossuficiência financeira, no qual tomaremos conta do nosso plano de investimentos e criaremos um portfólio de projetos. O Brasil precisa não só converter recurso mineral quanto o potencial de mineralização em outras áreas como, por exemplo, a Bacia do Paraná (Figueira), a região de Rio Cristalino (Pará), Amazonas, Goiás e Tocantins.

Associação Brasileira de Energia Nuclear

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