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A Volta das Cassandras

No ano passado foi apresentado o Plano Nacional de Energia 2050, no qual é prevista a instalação, até aquele ano, de 10 gigawatts de potência núcleo-elétrica, o que equivale a oito reatores. Como Pernambuco está muito bem posicionado nesse aspecto, em função da experiência – internacionalmente reconhecida – do sítio de Itacuruba, no Sertão, em boa hora um programa de rádio pernambucano promoveu recentemente uma interessante e instrutiva “live” com o diretor da Associação Brasileira de Energia Nuclear - Aben e o diretor nacional da Associação Brasileira para o Desenvolvimento das Atividades Nucleares – Abdan.

Isso foi suficiente para pôr em estado de alerta as cassandras antinucleares.

O público pernambucano deve ficar preparado para ser bombardeado pelas costumeiras diatribes, baseadas nos argumentos de sempre: Goiânia, o caso – hoje quase esquecido – da fonte radioativa de uso médico que foi violada e “matou centenas” (na realidade, quatro pessoas); Chernobyl, a ‘maior catástrofe da História, resultando em dezenas de milhares de mortos” (na realidade, menos de 70); e Fukushima (onde estão bem perto de provar que a usina provocou o terremoto).

Que os dois primeiros episódios tenham acontecido há mais de 30 anos e o terceiro esteja completando sua primeira década não parece ter importância. O que importa, como se diz hoje, é a narrativa e a constatação de que “o mundo está abandonando a energia nuclear”.

Da mesma maneira que, para o poeta Murilo Mendes, “o mundo começava nos seios de Jandira”, para essas cassandras o mundo começa e termina na Alemanha.

Elas se esquecem dos 53 reatores em construção em todo o mundo, inclusive os quatro contratados à Coreia do Sul pelos Emirados Árabes Unidos, grandes exportadores de petróleo. Elas não dizem que o desligamento paulatino dos reatores levou a Alemanha a aumentar a sua dependência nos combustíveis fósseis, como o carvão e o gás (o que cria uma situação geopolítica delicada, já que a torneira do gás é controlada pelo Senhor Putin), colocando o país – que luta para passar uma imagem de obstinado defensor do meio ambiente – entre os seis maiores emissores de gases de efeito estufa per capita, o dobro da França, que é mais de 70% nuclearizada.

E, sobretudo, seu discurso empalidece diante da atual crise sanitária, com seus superlativos números e que, para desespero delas, não tem causa ‘nuclear” ou “radioativa”.

O que as cassandras locais não conseguem ver é o mal que sua atitude pode trazer ao desenvolvimento do Nordeste, particularmente de Pernambuco. Se seis reatores forem construídos em Itacuruba – e o sítio é perfeitamente capaz de recebê-las, sem qualquer dano ao meio ambiente, particularmente no que tange ao suposto aquecimento das águas do São Francisco – o Nordeste aumentará sua geração de energia elétrica em 80% (tomando por base a geração média dos últimos 10 anos).

 

E será energia firme, de boa qualidade, sem influência do clima e sobre o clima. Fora o significado do investimento de 35 bilhões de dólares no estado. Fora as melhorias que serão introduzidas em Itacuruba e áreas circunvizinhas. Fora o treinamento e o aproveitamento da mão-de-obra local. Fora o que o estado receberá, doravante, de royalties.

Cassandra, como se sabe, era uma princesa troiana que recebeu de Apolo um dom, o de prever com exatidão o futuro, e uma maldição, a de que jamais acreditariam nela. Na Guerra de Tróia ela descreveu tudo o que realmente iria acontecer, inclusive o estratagema do cavalo, a destruição da cidade e, até mesmo, sua própria morte.

Só que ninguém acreditou nela e deu no que deu. As cassandras antinucleares defendem tão apaixonadamente a energia solar que certamente se julgam íntimas de Apolo. Só que, pelo que elas vêm pregando há tantos anos, essas cassandras modernas podem até não ter recebido do deus do Sol a maldição, mas certamente não receberam o dom.

 

Heldio Villar é professor da Escola Politécnica da UPE.

O artigo foi originalmente publicado no Blog de Jamildo

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