| Publicações : Revista Brasil Nuclear | Fonte Nuclear | voltar |
REVISTA BRASIL NUCLEAR, ANO 15, NÚMERO 35,
O acordo assinado entre o Brasil e a França, envolvendo a construção de um submarino nuclear e de quatro convencionais, além da compra e montagem no país de 50 helicópteros de transporte, e as negociações com o governo francês para a compra de 36 caças de combate colocaram o ministério da Defesa em grande evidência durante o mês de setembro. Além de ser muito solicitado para entrevistas, o ministro Nelson Jobim participou de uma audiência pública na Comissão de Relações Exteriores e Defesa do Senado, onde detalhou os acordos com o governo francês. Na ocasião, o ministro enfatizou que os acordos visam não a compra de armamentos, mas de tecnologia e capacitação na área de defesa. Segundo Jobim, a modernização das forças armadas brasileiras é um dos pontos da Estratégia Nacional de Defesa, mas não o único. “Quando falamos em defesa nacional, geralmente as pessoas enxergam apenas o aspecto
militar, que é importante, mas não o único. Questões como energia, alimento, saúde pública, são dimensões também da defesa nacional. Por isso, na Estratégia Nacional de Defesa prevemos a proteção militar das infraestruturas críticas do país”, afirmou em entrevista a Vera Dantas, da Brasil Nuclear. O ministro define a Estratégia Nacional de Defesa como um instrumento de integração dos esforços de desenvolvimento e de defesa, para que eles se apóiem mutuamente. Explicando que a maioria das pesquisas da área de defesa gera conhecimentos tanto para atividades militares como para a indústria civil, ele disse que o reator que irá mover o submarino de propulsão nuclear servirá de base para pequenas usinas de geração de energia elétrica, que alimentarão cidades e indústrias brasileiras, em complemento à energia hidrelétrica. De acordo com o ministro, a energia nuclear com fins pacíficos é considerada uma prioridade nacional, juntamente com a área cibernética e espacial. Sua importância reside não só na sua grande contribuição para o controle do aquecimento global, como também por seu potencial para gerar o hidrogênio que alimentará, no futuro, as células de combustível. Por isso, ele diz ser importante “que nós tenhamos em nossa matriz todas as possibilidades que permitam a melhor combinação de fontes energéticas possíveis e com fontes seguras de matéria prima”. O mesmo deverá ocorrer com a área de saúde. Segundo o ministro, área de fármacos é uma das preocupações da estratégia no setor nuclear, assim como o uso da energia na agricultura. Nelson Jobim garante que o Brasil já venceu a crise, como mostram os indicadores econômicos recentes, e voltou a crescer. Mas adverte que é preciso sustentar esse crescimento e que, para isso, “o investimento em infraestrutura, sem dúvida, é fundamental”.
Estamos em uma era de grandes desafios, mas também de imensas oportunidades para países emergentes como o Brasil. Nesse mundo multipolar, o Brasil passou a ser presença obrigatória nas discussões dos grandes temas internacionais, como finanças, saúde, energia, meio-ambiente, etc.
A tendência é nosso peso político aumentar, pois a América do Sul, com o Brasil, possui três riquezas que se tornarão cada vez mais relevantes para o mundo: potencial para produção de alimento; fontes de energia fósseis e renováveis, principalmente com o petróleo do pré-sal; e imensas reservas de água potável, na Amazônia e no Aquífero Guarani. No item energia, eu incluo a energia nuclear, pois somos um dos poucos países que possuem simultaneamente a tecnologia do combustível e as reservas do urânio.
Ao mesmo tempo, cresceram no mundo as ameaças difusas e essas riquezas nos obrigam a estruturar uma defesa consistente, baseada na dissuasão. E a buscar cada vez mais a integração política, econômica e física com nossos vizinhos, compartilhando inclusive uma visão comum de defesa. O Brasil não tem pretensões expansionistas, nem inimigos.
Precisamos nos planejar, com vistas à capacitação, e é exatamente isso que Estratégia Nacional de Defesa nos proporciona. E aqui, mais uma vez a energia nuclear revela seu valor, proporcionando ao Brasil o equipamento com a maior capacidade dissuasória existente no meio naval, que é o submarino de propulsão nuclear.
Sim, é exatamente esse o nosso objetivo, integrar os esforços de desenvolvimento e de defesa, para que eles se apóiem mutuamente. A Estratégia Nacional de Defesa é o instrumento que faz essa ligação.
A maioria das pesquisas da área de defesa gera conhecimentos de uso dual, tanto para atividades militares, como para a indústria civil. O caso clássico, é o desenvolvimento do avião AMX, junto com a Itália, que deu à Embraer o conhecimento sobre jatos que permitiu sua projeção no mercado mundial de aviões civis.
O mesmo se passa com a pesquisa nuclear. O reator que servirá para mover o nosso submarino de propulsão nuclear, servirá de base para pequenas usinas de geração de energia elétrica que alimentarão cidades e indústrias brasileiras, em complemento à energia hidrelétrica.
Além disso, uma defesa robusta é a garantia para o país exercer sua soberania e defender seus interesses políticos e econômicos. Ela nos permitirá dizer não quando tivermos que dizer não.
O Brasil já venceu a crise, é o que mostram os indicadores econômicos recentes, e voltou a crescer. Mas é preciso sustentar esse crescimento e o investimento em infraestrutura, sem dúvida, é fundamental. Esse é o objetivo do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que tem contribuído para gerar emprego, renda, movimentar a economia e tornar o Brasil mais competitivo no cenário econômico mundial. No âmbito da Defesa, a Infraero planeja investir mais de R$ 7 bilhões, até 2014, na ampliação ou readequação de aeroportos, principalmente para atender as necessidades da Copa do Mundo Futebol de 2014. E os batalhões de engenharia do Exército estão contribuindo com o PAC, tocando obras em aeroportos, portos e projetos hídricos.
Não existe desenvolvimento sem energia e não existe solução para a Amazônia sem desenvolvimento sustentável. Sempre digo que o futuro da Amazônia está na inclusão econômica dos mais de 20 milhões de seres humanos que lá habitam. Senão, eles terão que optar entre a sobrevivência e a legalidade, e a sobrevivência sempre fala mais alto. Na Amazônia, a questão energética apresenta duas faces: é a última reserva hidráulica brasileira, apta a suprir o país com energia gerada por grandes hidrelétricas, e é também carente de soluções alternativas e descentralizadas para suprir as necessidades das pequenas comunidades isoladas. Por isso, a questão tem que ser olhada de maneira abrangente, buscando-se a melhor solução para cada problema específico.
As soluções para o atendimento de cada necessidade precisam ser vistas pelas autoridades do setor. Temos técnicos gabaritados para fazer o planejamento e apontar os caminhos mais adequados. O papel da Defesa será o de garantir a segurança dessas e das demais estruturas estratégicas no Brasil.
Certamente. Um país não pode desconhecer as riquezas que tem. Hoje, mapear as potencialidades da Amazônia, sejam elas minerais ou da biodiversidade, é uma questão de defesa. Só podemos defender aquilo que conhecemos bem e reconhecemos o valor. Por essa razão considero importante o Brasil mapear as novas reservas de urânio, mas sempre tendo em vista a pesquisa e a utilização apenas e exclusivamente para fins pacíficos.
É importante frisar que o Brasil fez a opção, explícita na Constituição Federal, de utilizar a energia nuclear apenas para fins pacíficos. A nossa Constituição proíbe a construção e o uso de armas nucleares. Tanto que os armamentos que utilizaremos no submarino movido a propulsão nuclear, que construiremos em parceria com a França, serão armamentos convencionais porque nós não vamos produzir e nem utilizar armas nucleares.
E a energia nuclear veio para ficar no mundo. Até mesmo ambientalistas que lutavam no passado contra essa tecnologia entendem hoje que ela é um grande caminho no controle do aquecimento global. E a energia nuclear é vista também como a grande fonte para gerar o hidrogênio que alimentará, no futuro, as células de combustível. Então, é importante que nós tenhamos em nossa matriz todas as possibilidades que permitam a melhor combinação de fontes energéticas possíveis e com fontes seguras de matéria prima.
A parceria estratégica assinada entre os dois países em dezembro de 2007 já prevê a cooperação para o desenvolvimento de novas centrais nucleares no Brasil, de acordo com o planejamento nosso nessa área. Mas essa é uma questão conduzida pelo Ministério de Minas e Energia.
Quando falamos em defesa nacional, geralmente as pessoas enxergam apenas o aspecto militar, que é importante, mas não o único. Todas essas questões que abordamos aqui, energia, alimento, saúde pública, são dimensões também da defesa nacional. Por isso, na Estratégia Nacional de Defesa prevemos a proteção militar das infraestruturas críticas do país.
E o mesmo deve ocorrer com a área de saúde. Devemos buscar a maior autonomia possível do Brasil, sem xenofobia, mas sem descuidar do interesse nacional. E a área de fármacos é uma das preocupações da Estratégia no setor nuclear, assim como o uso da energia na agricultura.
Eu discordo dessa avaliação de fracasso nas ações. Haja vista que hoje nós já temos a tecnologia completa do ciclo do combustível e estamos prestes a dominar o ciclo industrial completo. E isso tudo teve seu embrião na teimosia e na clarividência do Almirante Álvaro Alberto, que furou o bloqueio dos países desenvolvidos e trouxe para o Brasil a primeira centrífuga, que permitiu deslanchar as pesquisas que temos hoje.
É óbvio que as coisas poderiam ser mais rápidas, mas temos que agir de acordo com a nossa realidade. O Brasil enfrentou bloqueios internacionais ao desenvolvimento tecnológico e enfrentou uma séria crise fiscal que atravessou mais de uma década.
O importante é que hoje a energia nuclear com fins pacíficos é considerada uma prioridade nacional, juntamente com a área cibernética e espacial. É isso que determina o decreto da Estratégia Nacional de Defesa, assinado aprovado pelo presidente da República com a concordância do Conselho de Defesa Nacional.
[Voltar para o Índice]