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Capacidade de gerar energia elétrica sem destruir ecossistemas e nem poluir o meio ambiente. Eliminação de pragas, esterilização e aumento do tempo de prateleira de vários alimentos. Criação de processos para melhorar produtos industriais e reduzir o consumo de energia. Auxílio no diagnóstico e tratamento de doenças graves. Técnicas para limpeza de resíduos e poluentes presentes na água e no ar. Esses são alguns dos exemplos do que é possível fazer - e do que efetivamente vem sendo feito - através da utilização da tecnologia nuclear. O assunto foi debatido com entusiasmo por algumas das mais importantes personalidades do setor, durante a mesa-redonda As Aplicações Nucleares para Benefício da Humanidade, realizada no penúltimo dia do Inac.
Segundo os especialistas, no mundo todo, uma das maiores e atuais preocupações se refere à geração de energia e à proteção ambiental. Andrzej Chmielewski, representante da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), lembrou que o crescimento econômico e populacional, especialmente nas grandes cidades, contribui para o aumento de emissões de CO2 e demais poluentes na atmosfera, devido à queima de combustíveis fósseis para geração de energia e também ao aumento de veículos em circulação, o que ocasiona mudanças climáticas e fenômenos como chuva ácida. “Na China isso já está acontecendo devido ao seu crescimento econômico muito acelerado e ao aumento da utilização de usinas a carvão”, salientou. Na sua avaliação, a tecnologia nuclear pode auxiliar a reduzir, de forma substancial, esses problemas. Chmielewski enfatizou que os países em desenvolvimento já deveriam começar a se preocupar com isso e a buscar alternativas que não prejudiquem o meio ambiente. “Limpar e despoluir dá mais trabalho e é mais caro que prevenir”, sugeriu.
Sueo Machi, representante da Comissão de Energia Atômica do Japão, destacou que a tecnologia nuclear usada para remover poluentes é relativamente simples. A limpeza de gases presentes na atmosfera é feita por aceleração de elétrons e, além de remover os poluentes (como o dióxido de enxofre e gás sulfúrico ao mesmo tempo), a tecnologia possibilita o uso desses resíduos para produção de fertilizantes. “A Polônia é um dos países que já adotaram essa tecnologia e também estão sendo construídas usinas semelhantes na China e na Bulgária - neste último, o acelerador foi doado pelo Japão”, exemplificou. Segundo Machi, no Japão o emprego desse recurso possibilitou reduzir em 90% os poluentes emitidos pela incineração do lixo.
A tecnologia nuclear também se mostra bastante eficaz para limpeza de poluentes presentes na água. Na Coréia foi implantado um projeto piloto numa fábrica de tecidos em que a água ficava muito suja devido aos corantes utilizados. A tecnologia está sendo usada para remover esses resíduos da água, apresentando, ótimos resultados. “O processo deverá torna-se comercial em pouco tempo”, destacou Sueo Machi.
Na avaliação de Andrzej Chmielewski, preservar a água é uma necessidade cada vez mais premente. Existem muitos países no norte da África e na Ásia que já estão sofrendo pela falta de água e até 2025 a situação deverá piorar. “A primeira preocupação é com a água e a segunda maior preocupação é com a água potável”, salientou, acrescentando que a tecnologia nuclear mostra-se bastante eficaz não apenas para tratamento da água, como também de esgotos. Um dos exemplos é o da Índia que utiliza um irradiador de lodo e água servida, o que permitiu a redução da contaminação microbiológica comum nesses ambientes. O processo também possibilita o aproveitamento dos resíduos para fabricação de fertilizantes, bastante aceitos na agricultura.
A medicina é outro campo em que a tecnologia nuclear está avançando de forma significativa. Para Sueo Machi um dos principais destaques é o Hidrogel – um material empregado para recuperação de feridas e processos de cicatrização, que visa substituir o uso da gase. “Trata-se de um material transparente que permite ao médico acompanhar a evolução da cicatrização em pacientes que passaram por Limpar e despoluir é mais caro que prevenir” “ cirurgias, sem precisar remover o curativo”, explicou. A tecnologia nuclear também é amplamente utilizada para diagnóstico e tratamento de doenças como o câncer. Machi salientou que, no Japão, uma entre cinco pessoas sofrem com a doença e a radioterapia beneficia 35% dos pacientes. Nos Estados Unidos esse índice é da ordem de 50%.
A agricultura é outra área em que são empregadas várias técnicas nucleares, destacando-se as empregadas para esterilização de insetos, cujo principal benefício é a redução do uso de pesticidas químicos. No Japão, as moscas das frutas (melão) foram totalmente erradicadas. Outros destaques são as técnicas de mutações, que criam novas variedades de vegetais, frutas e flores mais resistentes a pragas; e a irradiação de alimentos – na China são irradiados anualmente 100 mil toneladas de produtos.
A mesa-redonda contou também com a participação de Virgílio Franco do Nascimento Filho, então representante e atual diretor do Cena – Centro Nacional de Energia Nuclear Aplicada à Agricultura -, situado em Piracicaba, interior paulista. Ele aproveitou a ocasião para relembrar um pouco da história do instituto e para enunciar os trabalhos feitos em prol da produtividade vegetal, animal, da agroindústria, do meio ambiente e da saúde. Atualmente, o Cena conta com 40 pesquisadores e 140 técnicos de apoio.
Entre os trabalhos mais significativos se incluem pesquisas sobre como os agrotóxicos afetam o meio ambiente, o efeito das queimadas no aquecimento global, estudos do uso racional dos cerrados e da Amazônia, e a utilização de fontes seladas para determinar a densidade e a umidade do solo. Virgílio lembrou, ainda, que o Cena possui grande tradição na área de irradiação de alimentos, tendo realizado, em 1973, o primeiro curso no Brasil a respeito do tema.
A atuação do Ipen – Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares – também foi muito bem defendida por Wilson Aparecido Parejo Calvo, gerente do Centro de Tecnologia das Radiações (CTR) que falou sobre as inúmeras pesquisas e trabalhos realizados no país. “Atualmente, temos o estado-da-arte das aplicações nucleares no Brasil”, afirmou. De acordo com Calvo, dos 11 irradiadores Gama instalados na América do Sul, sete estão no Brasil (e está sendo construído mais um), e dos 13 aceleradores de elétrons, 11 estão no país. Atualmente, 42% das aplicações nucleares são utilizadas pela área médica, 32% pelas indústrias e 22% pelas áreas de pesquisa.
Dos projetos mais significativos, Calvo destacou o uso combinado da Tomografia Computadorizada com os equipamentos PET para possibilitar diagnósticos mais precisos. “Em 32% dos casos, a conduta médica foi alterada em conseqüência da melhoria do diagnóstico propiciado por essa combinação”, exemplificou. A indústria também é grande beneficiária das técnicas nucleares empregadas para melhoria dos produtos, principalmente das áreas de gás e petróleo, química, prospecção e exploração mineral e de tratamento de rejeitos. “Há também as aplicações rotineiras que são empregadas basicamente para irradiação de cabos e fios elétricos e, ainda, para irradiar mantas para fabricação de pneus”, completou.
Atualmente, há vários projetos em andamento no país, entre os quais se incluem a construção de equipamentos para irradiação de sangue armazenados em bancos de sangue, a construção de um tomógrafo com tecnologia nacional e a criação de unidades móveis de irradiação para facilitar os tratamentos de efluentes.