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Ao contrário do que apregoam os críticos da energia nuclear, a aceitação dessa fonte energética vem crescendo em todo o mundo. “A opinião pública mudou nos últimos 20 anos e a nova geração está promovendo a energia nuclear”, afirmou Ralf Güldner, diretor- administrativo na Alemanha da Framatome, empresa pertencente ao grupo francês Areva. Ele citou como uma das evidências dessa mudança as declarações de renomados ambientalistas apontando a energia nuclear como necessária para combater o aquecimento global e salvar o planeta. Outra constatação é uma pesquisa recentemente realizada nos Estados Unidos, que mostra que 83% da população americana consideram a energia nuclear importante para o futuro energético do país. Apresentada pelo expresidente da Aben, Guilherme Camargo, a pesquisa mostra, ainda, que 70% dos entrevistados são favoráveis ao uso da energia nuclear, 74% aprovam a opção de construir novas usinas, 58% querem que elas sejam implantadas em um futuro próximo e 69% aceitam a instalação de novos reatores em locais próximos de onde vivem. Güldner e Camargo participaram da mesa-redonda “A geração da energia nuclear no mundo – o estado-daarte”, realizada na manhã do primeiro dia do Inac 2005.
Utilizando fotos noturnas realizadas por satélites, Guilherme Camargo mostrou que a distribuição de luz – e, portanto, de energia elétrica - no planeta, é extremamente desigual. “Há uma forte concentração de luz na parte leste dos EUA, na Europa, Índia e China (por conta da grande população desses países, embora o consumo de energia per capita seja bastante baixo), e no Japão. Verificamos que a América do Sul é quase um continente escuro. Vemos uma maior concentração na costa do Brasil e no eixo Rio-São Paulo e na região de Buenos Aires”, explicou. Em seguida, apresentou um cenário elaborado pelo Conselho Mundial de Energia, que prevê uma duplicação da demanda mundial de energia elétrica, de 1998 a 2050. Esse cenário aponta um crescimento expressivo – praticamente dobra – da participação da geração nuclear. “Entre 2020 a 2050, quatro fontes importantes estarão praticamente equiparadas no cenário mundial: nuclear, carvão, óleo e gás natural”, garantiu.
Complementando a ilustração, ele apresentou dados que mostram a disparidade do consumo de energia elétrica per capita no mundo. “Enquanto o Canadá já ultrapassou a faixa de 20 mil kW/hora per capita, o Brasil que está abaixo da média mundial, com um consumo que é um terço da Espanha ou da Coréia”, disse. Ele ressaltou que o consumo de energia elétrica per capita no Brasil está praticamente estagnado desde 1980, na faixa de 1700/1800 kW/hora. “É importante notar que há, nos países mais desenvolvidos, uma paridade entre o consumo de energia elétrica per capita e a renda per capita, o que não acontece na América Latina e em outras regiões do mundo. A energia elétrica está associada a uma melhor qualidade de vida e é um indicador semelhante ao IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)”, explicou.
Depois de apresentar diversos estudos sobre o consumo do petróleo no mundo e projeções sobre o seu declínio a partir de 2020, ele alertou para a instabilidade e a volatilidade dos preços dos combustíveis fósseis no mercado mundial. “A percepção atual é que o preço do barril de petróleo chegará a 80 dólares no final do ano e ficará em um patamar básico de 60 dólares no futuro. O preço do gás, por ser este um produto associado ao petróleo, também deverá subir, o que encarecerá a geração térmica a gás”, explicou. Comparando o custo do kW/hora de cada alternativa, ele mostrou que enquanto o custo do urânio representa apenas 8% do custo do kW/hora de uma usina nuclear, o gás natural representa mais de 70% do custo do kW/hora de uma usina térmica. “Se o preço do urânio dobrar no mercado internacional, o custo do kW/hora de uma usina nuclear aumenta apenas 8%. Mas, se dobrar o custo do gás, o custo do kW/hora da usina térmica aumenta em 70%. Portanto, a opção nuclear garante um hedge, um seguro contra a volatilidade do mercado do combustível”, afirmou.
Outra vantagem da energia nuclear, segundo ele, é contribuir para a redução do aquecimento global. Com cerca de 440 usinas, a energia nuclear representa hoje 16% da energia gerada no mundo. “Essa participação gera uma economia nas emissões de CO2 equivalente às emissões de 500 milhões de automóveis”, afirmou. “A geração nucleoelétrica significa segurança, desempenho, economia e independência de abastecimento, sem emissão de gases causadores do efeito estufa”, concluiu.
O representante da Japan Atomic Comission, Sueo Machi, mostrou as mudanças verificadas na matriz energética japonesa. Se, em 1973, ela era composta majoritariamente pelo petróleo (77%) enquanto a energia nuclear representava apenas 2%, em 2001 a participação da energia nuclear cresceu para 13%, enquanto que a dependência da matriz em relação ao petróleo caiu para 50%. Segundo ele, a tendência é que essa proporção continue se invertendo e que, em 2012, a energia nuclear represente 41% da capacidade de geração japonesa, enquanto o petróleo terá uma participação de apenas 7%. “A energia nuclear deverá ter uma participação de 30% a 40% neste século”, afirmou.
Segundo Machi, a energia nuclear é uma das principais fontes de energia no Japão devido a dois fatores, a sua garantia de suprimento estável e a compatibilidade ambiental. Esses dois fatores, junto com o custo competitivo, são os três pilares básicos da política energética japonesa, sancionada em junho de 2002.
“Nossa estrutura de suprimento energético é frágil. Não temos petróleo, nem gás natural. Nossa única fonte natural de energia, a hidroeletricidade, representa somente 10% de nossas fontes de energia. Devido a isso, temos que importar gás e petróleo, mas isso não é bom para a segurança energética”, afirmou.
O Japão possui 53 usinas nucleares em operação, está construindo mais três e tem planos para colocar mais 11 em operação até 2014. O país é signatário do Protocolo de Kyoto e a expansão do seu parque nuclear faz parte de sua política para reduzir o nível de emissões CO2 na atmosfera.
A ampliação do parque nuclear faz parte da política nuclear japonesa, que está em elaboração e deverá ser concluída ainda este ano, segundo Machi. Outro importante item dessa política é o domínio tecnológico do ciclo do combustível. O país possui uma planta de enriquecimento e, em 2007, deverá inaugurar a primeira usina comercial de reprocessamento de combustível já utilizado, com capacidade de 8 mil toneladas anuais. Essa usina terá capacidade para produzir não só urânio como o plutônio, que será o combustível utilizado pelos futuros reatores FBR (fast breed reactor). O primeiro protótipo de um reator FBR deverá entrar em operação em 2008, na usina de Monju. Mas o primeiro reator comercial dessa categoria só estará disponível em 2050.
Outro ponto da política nuclear japonesa é assegurar uma correta percepção pública da energia nuclear, através de um trabalho para oferecer informações transparentes sobre a questão da segurança e outros assuntos. A adesão ao tratado de não-proliferação de armas nucleares e ao protocolo adicional de salvaguardas da AIEA é outro importante ponto da política japonesa.
No campo internacional, o Japão firmou acordos com vários países e com instituições internacionais como a AIEA. Além de ser um dos líderes mundiais na pesquisa de reatores de quarta geração, o Japão oferece treinamento e suporte a diversos países e conta com um programa especial para os países do leste asiático.
O representante da Areva, Ralf Güldner, revelou que a empresa manifestou ao Governo brasileiro o interesse de investir na construção de Angra 3. Segundo ele, se for tomada a decisão de retomar as obras da usina, a Areva tem planos de financiar o projeto. “Estamos abertos para negociar”, afirmou.
Güldner considerou muito positiva a conversa mantida com o presidente Luís Inácio Lula da Silva em sua visita à França, durante a comemoração do Ano do Brasil naquele país. Segundo ele, a Areva está muito otimista em relação a uma parceria com o Brasil na área nuclear. “Há um papel muito forte para o Brasil no desenvolvimento nuclear. A geração nuclear em países como o Brasil não é importante apenas como fonte de energia sustentável e para a política ambiental mas, também, para o desenvolvimento industrial do país”, afirmou.
O representante da Cnen, Odair Dias Gonçalves, apresentou a proposta Programa Nuclear Brasileiro, elaborada por um grupo interministerial, atendendo a uma solicitação do Presidente da República. Ele explicou que a metodologia de ação foi baseada em três fases: na primeira, as instituições gestoras (Nuclep, CTMSP, Eletronuclear e INB) formularam cenários possíveis e desejáveis em diversas áreas; a segunda fase prevê que representantes dos ministérios selecionem as melhores opções de cenários; a decisão final sobre o Programa, com suas metas e ações, deverá ser tomada, na terceira fase, pelo Presidente da República e por um conselho de ministros da área.
Além de algumas orientações estratégicas gerais, o Programa formulou três cenários independentes (mínimo, médio e máximo) para as áreas de geração nucleoelétrica, produção de combustível nuclear, aplicações e desenvolvimento tecnológico. A combinação desses cenários resultou em 81 opções diferentes, que foram depuradas até a formulação de sete cenários e 26 ações. Terminada a primeira etapa, os representantes dos Ministérios recomendaram a adoção de 17 ações de curto prazo, a serem iniciadas a partir do próximo ano. As demais ações seriam adotadas dentro de uma estratégia futura.
Entre as diretrizes gerais do Programa estão a segurança e a proteção. “Hoje não se concebe mais energia nuclear sem o investimento associado à questão da proteção, que significa não só o investimento nas próprias instalações como na área de fiscalização e controle”, explicou o presidente da Cnen. Outra diretriz do Programa é o desenvolvimento de recursos humanos na área nuclear. Segundo Gonçalves, este é um problema grave, pois a idade média dos profissionais do setor é razoavelmente alta. “Deve-se repor esse conhecimento para que ele não se perca”. Ele também ressaltou a necessidade de se investir na construção de uma área de rejeitos. “Temos que resolver a questão dos depósitos finais e isso deve ser feito em curto prazo, aliás, independente de qualquer programa nuclear. É uma obrigação nossa e deve ser feito”, afirmou.
O Programa propõe que a geração nucleoelétrica seja ampliada para 5% ou, pelo menos, mantida na faixa de 4% da matriz energética. O cenário mínimo de geração prevê a construção de Angra 3 e, ainda, uma outra central, de menor porte, a ser instalada em um estado do Nordeste. Esse novo reator deverá ser baseado no projeto que vem sendo desenvolvido pela Marinha. O segundo cenário projetado para a área de geração prevê, além de Angra 3, uma nova usina de 1300 MW e duas usinas nacionais de 300 MW. “Uma vez que o Brasil vai precisar de muita energia nos próximos anos, está implícita a necessidade de produção de novas centrais”, explicou o presidente da Cnen.
O prazo previsto para a implantação do Programa é de 18 anos e o gasto estimado ao longo desse período é de US$ 13 bilhões. No entanto, segundo Odair Gonçalves, já em 2017 as receitas obtidas da energia nucleoelétrica estarão emparelhadas com as despesas do Programa.