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O Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP) deu mais uma importante contribuição ao desenvolvimento tecnológico na área de energia nuclear. No dia 28 de julho passado, concluiu a montagem do protótipo do primeiro reator nuclear projetado e fabricado inteiramente no Brasil e que será usado para a propulsão do submarino nuclear brasileiro. O anúncio foi feito pelo capitão-de-mar-e-guerra Leonam Guimarães, então coordenador do Centro de Propulsão Nuclear do CTMSP e hoje assessor da presidência da Eletronuclear, durante palestra proferida no Inac 2005.
A construção do protótipo demonstra a capacitação do país para projetar e construir reatores nucleares, independentemente do tamanho e da potência. “Quem projeta um desse tamanho pode projetar um maior”, afirmou Leonam Guimarães. Segundo ele, a conclusão da montagem do reator evidencia a capacidade da engenharia brasileira. “É um acontecimento inédito no Hemisfério Sul e deve ser motivo de grande orgulho para o CTMSP, bem como para todos os brasileiros que acreditam na competência do país em desenvolver de forma independente tecnologias complexas”, enfatizou.
O reator de água pressurizada (PWR) desenvolvido pelo CTMSP tem uma potência nominal de 40 MW térmicos, que poderá chegar a 90 MW térmicos com um segundo núcleo. Ele será instalado no Laboratório de Geração Nucleoelétrica (Labgene) que, no entanto, teve suas obras interrompidas em 2002 por falta de recursos. O custo global do laboratório de geração nucleoelétrica é de US$ 480 milhões, tendo sido dispendidos cerca de US$ 320 milhões. Faltam, portanto, US$ 120 milhões para a conclusão da obra.
O representante do CTMSP estima em cinco anos o tempo necessário para a conclusão do projeto. Segundo ele, 65% do projeto já estão prontos. Uma importante etapa, o pressurizador, foi entregue no ano passado e o gerador de vapor está em fase bem avançada de fabricação e deverá ser concluído até meados do próximo ano. “Chegamos a uma situação muito próxima à de Angra 3 - evidentemente numa escala menor. Temos todos os equipamentos mas não conseguimos levantar a obra”, afirmou.
Além de ser o protótipo em terra do reator que irá propulsionar o submarino nuclear brasileiro (que está sendo desenvolvido no Centro Experimental de Aramar, em Iperó-SP), o reator desenvolvido pelo CTMSP funcionará como uma ferramenta de desenvolvimento tecnológico do Laboratório de Geração Nucleoelétrico. “Ele abre uma possibilidade de experimentação única. Podemos aprender muito como ele e desenvolver experimentos, o que é impossível de se fazer em um reator PWR de grande porte”, afirmou o capitão Leonam Guimarães.
Segundo o representante do CTMSP, o programa nuclear da Marinha tem dado uma expressiva contribuição para reforçar uma cultura autóctone de geração e conhecimento tecnológico. “Desta forma, ajudamos a fugir da síndrome de consulta à matriz, que vem o cenário tecnológico no país”, explicou.
O programa, que vem sendo implementado há 25 anos, é baseado em uma estrutura de desenvolvimento cooperativo. Ele engloba um amplo conjunto de universidades, grupos de pesquisa, empresas de engenharia consultiva e indústrias, que trabalham em um processo de rede, coordenado pelo CTMSP. Desde sua criação, já gerou diversos spin offs, através dos quais foram realizados pela indústria programas de substituição de importação e o desenvolvimento de produtos de maior valor agregado. Um exemplo da capacitação da engenharia e da indústria nacional é o vaso do reator, totalmente fabricado pela Nuclep.
Para o representante do CTMSP, o grande desafio do programa da Marinha é a sua integração com um programa nuclear brasileiro. “Esperamos que essa integração, que já vem sendo feita com a INB na área de enriquecimento, se expanda para outras etapas, principalmente na área de reatores”, disse. Ele explicou que essa desejada integração consolidaria o domínio tecnológico já alcançado no país e, conseqüentemente, contribuiria para gerar oportunidades de novos projetos. Uma dessas oportunidades seria a possibilidade de construir centrais de pequeno porte tanto para o mercado interno como para o externo. E, ainda, de competir no mercado internacional fornecendo componentes para médias e grandes centrais.
O campo do combustível nuclear também apresenta várias oportunidades para o país, segundo Leonam Guimarães. “Vários fatores apontam nessa direção. O mercado internacional de combustível movimenta cerca de US$ 10 bilhões por ano e vive, hoje, um forte viés de alta. Além disso, diversas indústrias de combustível nuclear no mundo estão no fim de sua vida útil. O Brasil é riquíssimo em urânio e tório. Ele possui a sexta reserva de urânio do mundo, mas, como só um terço de seu território está prospectado, tudo indica que venha a ser a segunda ou terceira reserva mundial. Ao mesmo tempo, tem uma situação geopolítica privilegiada, sem zonas de conflito. Tudo isso contribui para que possamos atuar no mercado internacional de combustível, com produtos de maior valor agregado”, garantiu.