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Uma demonstração de força em um momento delicado, de luta pela sobrevivência. Esta é, segundo o presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben), Edson Kuramoto, a grande contradição exposta pela 2ª International Nuclear Atlantic Conference (Inac 2005), realizada em setembro, em Santos (SP). Com a apresentação de mais de 700 trabalhos técnicos, a realização de três fóruns, a participação de convidados internacionais e um número recorde de inscrições, o congresso consolidouse como um dos mais importantes eventos do setor nuclear mundial e mostra a pujança da comunidade nuclear brasileira. No entanto, toda essa força e o cabedal de conhecimento adquirido nos últimos 50 anos correm o risco de desaparecer devido à falta de uma política para o desenvolvimento do setor. “O Programa Nuclear Brasileiro está parado, assim como as obras da usina Angra 3 e outros projetos que são vitais para a sobrevivência do setor”, afirmou Kuramoto.
Segundo o presidente da Aben, a situação brasileira mostra-se ainda mais preocupante por estar na contramão do cenário internacional, de franca retomada e revitalização da energia nuclear. “O aumento do custo do petróleo – cujo preço tornará inviavel o consumo dessa valiosa fonte de energia neste século – e do aquecimento global estão obrigando os países a repensarem suas matrizes energéticas. Nesse contexto, a energia nuclear é uma das principais alternativas, uma vez que garante energia em grande quantidade sem a emissão de gases”, explica, citando como exemplos dessa movimentação a China, os Estados Unidos, a Índia e outros países que estão iniciando a implementação de programas nucleares para fins pacíficos. Outro sinal da retomada da opção nuclear é, segundo ele, o interesse que o setor vem despertando nos jovens. “Há 10 anos atrás, quando estive na Alemanha em treinamento na Siemens, havia uma grande dificuldade na contratação de engenheiros jovens, uma vez que eles não queriam trabalhar nessa área. Hoje, esse problema não mais existe em alguns países europeus”, completa.
Se esses países já não enfrentam mais o problema de renovação de quadros, o mesmo não acontece com o Brasil. Os participantes da mesa apontaram a falta de investimentos e de uma política para o setor como as principais causas do problema. Segundo o ex-presidente da Aben, Guilherme Camargo, a comunidade nuclear vem resistindo, há cerca de 30 anos, ao preconceito, à contra-informação, às vicissitudes do dia-a-dia, às frustrações profissionais, aos baixos salários e à falta de reconhecimento pessoal e profissional. Para ele, é fundamental que a nova política nuclear brasileira redigida pelo Presidente da República, e que já se encontra praticamente pronta, seja sancionada e implementada. “Precisamos de uma decisão urgente em favor da usina nuclear Angra 3. Esta decisão, além de contribuir para minimizar os riscos de um novo racionamento de energia, dará novo fôlego ao setor, dinamizando todas as suas instituições, dos institutos de pesquisa às empresas como INB, Eletronuclear e Nuclep, e possibilitará uma renovação de nossos quadros técnicos, através da contratação de jovens pesquisadores e engenheiros, físicos, químicos, geógrafos e toda uma gama de profissionais que poderão contribuir para o vasto cabedal de conhecimento técnico e científico adquiridos pelo Brasil a duras penas nos últimos 50 anos. Que esse conhecimento não se perca para sempre. Esta seria uma perda irreparável para a Nação e que certamente nos seria cobrada pelas futuras gerações”, alerta.
Na mesma linha, o representante da Eletronuclear, Paulo César Carneiro, afirmou que a sobrevivência do cabedal de conhecimento e de competência que o país construiu a um custo bastante elevado requer ações de direcionamento, a definição de uma política nuclear para o País. “Ao olharmos para os técnicos aqui presentes, vemos que, em sua grande maioria, têm um perfil de idade já avançado. Ou se toma agora as decisões que permitirão o engajamento de jovens profissionais e propicionarão a oportunidade de transferência do conhecimento adquirido, ou este país verificará uma descontinuidade que poderá levar a perdas irreparáveis em relação às quais nós, seguramente, estaremos mais à frente nos penalizando”, desabafou.
Carneiro citou como exemplos dos desafios enfrentadas pelo setor o reequilíbrio econômico-financeiro da Eletronuclear, empresa que tem um papel de extrema importância como responsável pelo projeto, construção e operação das usinas nucleares do país, que é a atividade que gera a escala necessária aos investimentos para o desenvolvimento industrial do setor não só ao que se refere ao ciclo do combustível, mas também com relação a toda a parte de equipamentos e serviços. A empresa, hoje, tem como principal desafio o seu reequilíbrio econômico-financeiro. “A empresa vem trabalhando com tarifas de venda da sua energia bastante abaixo do necessário para fazer frente aos seus compromissos financeiros, mormente o que se refere aos encargos financeiros das dívidas contraídas para a construção de Angra 2”, explica. Para alcançar o equilíbrio, a empresa está atuando em três frentes: a revisão da tarifa de venda de energia, processo já iniciado; o equacionamento de suas dívidas para com Eletrobrás e Furnas e, também, nos ajustes internos para trabalhar de uma forma melhor alinhada com a receita originária da venda de energia. Em relação ao segundo ponto, Carneiro adiantou ter recebido, naquela semana, a primeira sinalização positiva do governo, com a aprovação pela diretoria da Eletrobrás do aporte de recursos na forma de antecipação de integralização de capital, o que permitirá à empresa uma melhor condição de honrar seus compromissos este ano.
Já o deputado Luis Sérgio (PT-RJ) procurou levar uma palavra de confiança aos participantes do Inac 2005, ao garantir que o governo vai investir no setor. “Mesmo que demore um pouquinho, Angra 3 será uma realidade”, afirmou. O deputado se declarou convicto de que as obras da usina serão retomadas não só pelo fato de que “em nenhum outro governo, em tão pouco espaço de tempo, tanto Angra 3 quanto as outras políticas para o setor foram debatidas tão democraticamente”, mas também, e principalmente, “porque o Brasil precisa e porque ela completa um ciclo importantíssimo para o desenvolvimento tecnológico do setor”. Assim como o deputado, o presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), Odair Dias Gonçalves, acredita na disposição do governo de reforçar o setor nuclear. Segundo ele, embora a nova política para o setor tenha sido adiada, devido à crise política, ela faz parte dos programas estratégicos do Ministério da Ciência e Tecnologia. “Em dois anos e meio do atual governo, tivemos três ministros da Ciência e Tecnologia e, ainda assim, notamos uma trajetória transparente e contínua, onde a política existente, há muito restrita às ações às vezes frágeis dos comitês do CNPq, foi amplamente discutida e tomou porte. Prioridades foram definidas e as dotações orçamentárias aumentaram”, afirmou.
Depois de citar algumas importantes vitórias do setor, como o início do enriquecimento de urânio na INB, o reerguimento da Nuclep, a discussão aberta sobre Angra 3, a inauguração da sede do Centro de Ciências Nucleares do Nordeste e o lançamento dos editais para implantação de dois novos cíclotrons, em Recife e outro em Belo Horizonte, e o projeto de criação da Empresa Brasileira de Radiofármacos – estatal a ser criada a partir do Centro de Produção de Radiofármacos do Ipen, de São Paulo, o presidente da Cnen garantiu haver razões para continuar acreditando no estado brasileiro e para ter esperança de uma retomada do programa nuclear. “É claro que estamos longe do ideal, há muita coisa a fazer, mas temos um ano e meio de trabalho pela frente e muito pode ser conseguido”, afirmou.
O deputado Luís Sérgio, o presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo, e o ex-ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos foram homenageados pela Aben com o prêmio Almirante Álvaro Alberto, por sua luta na defesa da energia nuclear. Ao receber o diploma, o deputado Luís Sérgio lembrou que envolveu-se com o tema nuclear a partir de sua gestão na Prefeitura de Angra dos Reis, de 1993 a 1996, quando foi tomada a decisão de concluir a usina Angra 2. “Muito me orgulho de ter contribuído para isso porque a usina teve um papel importantíssimo de manter a confiabilidade do sistema de abastecimento de energia elétrica na região Sudeste do nosso país, quando houve a crise que levou ao racionamento de energia. Sem Angra 2, provavelmente, teríamos tido alguns blecautes em cidades importantes como Rio, São Paulo e Espírito Santo. Exatamente por ter participado desse processo, alguns chamados movimentos ecológicos, que respeitamos mas que podem também ser manipulados para buscar deter o desenvolvimento da ciência e tecnologia, quiseram me crucificar. Isso me levou a me interessar ainda mais pelo tema. E, hoje, podemos afirmar que é impossível se pensar o desenvolvimento tanto da indústria como da medicina e da geração de energia elétrica sem a presença da tecnologia nuclear”, afirmou.
Segundo o deputado, um encontro como o Inac 2005, com mais de mil inscritos e 700 trabalhos mostra que a luta pelo desenvolvimento da tecnologia nuclear não está restrita a apenas alguns loucos, como muitos insistiam em afirmar. “E até para castigo dessas pessoas, que garantiam que esta tecnologia colocava o mundo em risco, podemos afirmar que, diante do efeito estufa e do aquecimento global, ela é a única alternativa existente no momento para produzir energia na escala que o mundo necessita, sem comprometer a qualidade de vida das pessoas”, completou.
O deputado Aldo Rebelo disse receber o diploma que tem o nome do almirante Álvaro Alberto como uma grande honraria, mas acima de tudo como uma grande responsabilidade. “Este congresso acontece na cidade de Santos, que é o berço do Patriarca da Independência do nosso país - o primeiro brasileiro que concebeu um projeto de Nação, de emancipação política, econômica e social para a nossa terra. Em nome dos ideais de José Bonifácio gerações e gerações de patriotas têm se batido para tornar nosso país mais rico, mais democrático, mais justo e mais independente. E entre esses nomes está o do almirante Álvaro Alberto, ele próprio perseguido, injustiçado, incompreendido e alvo não apenas do preconceito mas também da fúria daqueles que não queriam que o Brasil também fosse um país tecnologicamente e cientificamente emancipado”.
A Aben concedeu ao ex-ministro Eduardo Campos o prêmio Almirante Álvaro Alberto, em reconhecimento pelo grande trabalho desenvolvido no curto período em que ele permaneceu à frente do MCT. O ministro priorizou o investimento em áreas estratégicas para o Brasil, não somente na área nuclear como na nanotecnologia, na tecnologia aeroespacial e na biotecnologia, dando uma injeção de ânimo na comunidade técnico-científica no Brasil.