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ENTREVISTA

BRASIL NUCLEAR, ANO 11, NÚMERO 29, FEV - 2006

Irradiação de alimentos: a tecnologia a favor da saúde


Eric Marchioni - "A irradiação é um processo de tratamento de alimentos que não traz nenhum risco para o consumidor."

Quais são as vitaminas que estão presentes nos alimentos e como elas agem no organismo humano são algumas das questões que Eric Marchioni, professor de Química da Faculdade de Farmácia da Universidade Louis Pasteur, em Strasbourg (França) está empenhado em responder. Atualmente trabalhando em programas de alimentos nobres, o professor também dedica-se à avaliação dos efeitos provocados por componentes específicos como, por exemplo, o fitosterol (proveniente das plantas e vegetais e que seria o equivalente ao colesterol) que as indústrias alimentícias estão adicionando aos produtos com o intuito de proporcionar maior bem-estar aos consumidores. Segundo Marchioni, o fitosterol poderá ser um forte aliado no combate a doenças cardiovasculares e cancerígenas. "Estudos demonstraram que o fitosterol reduz a incidência de câncer do cólon, mas ainda há muitas pesquisas a serem feitas nesse sentido. Muitas indústrias já estão adicionando fitosterol nos alimentos no sentido de auxiliar a reduzir as ocorrências de doenças cardiovasculares, mas é importante verificar até que ponto esse procedimento não estará, na verdade, aumentando o teor tóxico dos produtos", explica.

Especializado nos métodos de análises dos alimentos, o professor Marchioni também é um profundo conhecedor da irradiação de alimentos, somando mais de dez anos de experiência na área e tendo escrito vários livros sobre o tema. E é sobre esse assunto que ele fala nesta entrevista exclusiva à Brasil Nuclear, realizada durante o Inac 2005, do qual Eric Marchioni participou como palestrante.

A tecnologia de irradiação de alimentos avançou nos últimos anos? Quais foram as pincipais mudanças?

Em termos de técnicas de irradiação, uma das inovações é uma máquina poderosa, comercializada por uma empresa da Bélgica, que opera de duas formas. A primeira é através da aceleração de elétrons, de forma bastante potente. A outra, é utilizando os elétrons, fazendo-os incidir em alvo metálico gerando raios X. É uma grande inovação porque permite à indústria utilizar o acelerador de elétrons com grande poder e, com isso, obter uma boa qualidade na irradiação de produtos. Dessa forma não teremos mais problemas administrativos para obter autorização para trabalhar com fontes de Cobalto e outras dificuldades do tipo. Com o acelerador de elétrons é possível obter os aspectos positivos da tecnologia, sem a utilização de material radioativo.

Como é feita essa conversão?

A eficiência da conversão de um processo para outro é físico. Não é preciso trocar de máquina. Com isso se obtém uma baixa eficiência de conversão, mas um altíssimo poder de penetração dos raios X. É aceitável perder um pouco de eficiência, mas se aumentarmos a energia do acelerador de elétrons, sua potência será muito maior. Se aumentarmos duas vezes mais a energia, teremos quatro vezes mais potência. Mas, isso pode ser um pouco perigoso. A questão é que se aumentarmos a energia, também aumentará a possibilidade de reação fotonuclear. Então é preciso tomar alguns cuidados no que se refere à segurança do processo. Estudos atuais estão sendo feitos para verificar o máximo de energia que se pode usar. Pode-se aumentar muito a energia e, com isso, se terá grande ganho de eficiência no processo de conversão. Mas ainda é necessário que sejam feitos mais estudos na indústria de irradiação de produtos no que tange às máquinas, aos objetivos pretendidos e, também, em relação aos resultados.

Quais são os principais benefícios propiciados pelo uso do acelerador de elétrons?

Obtém-se maiores ganhos, vantagens e eficiência ao se utilizar o acelerador de elétrons, em comparação à irradiação com o Cobalto 60. Essa máquina específica chama-se Rodotron e é o que há de mais moderno atualmente. A França desenvolveu o Rodotron, mas transferiu a tecnologia para uma empresa belga, que paga a patente e produz esse tipo de máquina. Alguns desses equipamentos já estão em operação em países como a Suíça, o Japão e a Alemanha. Esse acelerador de elétrons pode ser usado, na indústria, para irradiar polímeros, e também pode ser utilizado para irradiação de alimentos e para esterilização de materiais cirúrgicos, porque as máquinas são potentes e versáteis.

E com relação à detecção de alimentos irradiados, quais são as novidades?

Cada vez mais os consumidores querem saber o que estão comendo. Eles querem ter o poder de decidir se irão consumir produtos irradiados ou produtos não irradiados. Por isso, é necessário que isso esteja especificado nos rótulos e nas embalagens dos produtos. É um direito do consumidor decidir o que quer, de acordo com suas preferências e crenças. Algumas pessoas ainda presentam resistência a adquirir produtos irradiados. Hoje, existem dez métodos oficiais para detectar se determinado alimento foi irradiado. São dez métodos para identificar um único rocesso. Eu não conheço nenhum outro processo, utilizado na área de alimentação, que apresente tantos métodos de controle. E é importante ressaltar que a irradiação é um processo de tratamento de alimentos que não traz nenhum risco para o consumidor.

Esses métodos são eficientes?

É possível identificar os alimentos que foram irradiados com grande eficiência. Mas atenção: apenas alimentos que foram irradiados. Alguns alimentos são compostos de um mix de produtos, como condimentos e outros ingredientes que podem ter sido processados por radiação, e isso não é possível detectar. Os métodos empregados não conseguem detectar se um determinado componente do alimento em questão foi irradiado porque a porcentagem de irradiação, nesses casos, é extremamente pequena. Mas existem outros métodos mais sofisticados que permitem verificar o nível do processamento por radiação nos componentes dos alimentos, para controle e para efeito de constar essa informação no rótulo dos mesmos. Se a empresa quiser saber, ela terá como identificar. Mas, na minha opinião, porque alguém precisaria saber disso? De que adianta o consumidor saber, por exemplo, que aquele salame que ele está comprando tem 0,02% de um componente processado por radiação? Qual a utilidade disso? Não faz sentido a empresa gastar tanto dinheiro para analisar uma série de componentes dos produtos, cujo nível de mistura destes componentes processados por radiação é tão baixo. Claro que é um direito do consumidor saber, e também, há leis que determinam essa exigência. E, se os políticos querem isso, nós temos algumas possibilidades a oferecer para se detectar a irradiação de alimentos.

Quais países estão mais avançados em termos de irradiação de alimentos?

A França e os países do sul da Europa têm uma aceitação muito maior dessa tecnologia do que os países do norte europeu, como Alemanha, Finlândia, Holanda, etc. Utiliza-se mais a tecnologia para irradiar especiarias e condimentos, além de grãos para exportação. Na Europa, a irradiação de alimentos está diminuindo porque os supermercados não querem vender os produtos que foram submetidos a esse processo. Eles temem perder os consumidores por causa disso. Por isso, eles preferem produtos que não foram irradiados e, também, os que não possuem componentes que foram irradiados. A indústria não tem esse temor e nem essa visão, mas os comerciantes, sim. Isso está levando as empresas fabricantes de alimentos a investir num outro tipo de processo de tratamento de especiarias e condimentos - um processo de esterilização por vapor. Mas o custo é muito superior, e à medida em que você submete algumas especiarias ao vapor, perdem-se alguns componentes aromáticos e, por isso, as empresas acabam usando uma quantidade maior do produto para obter o mesmo gosto. Hoje, a Europa é uma união de países, e se uma indústria decide lançar um novo produto alimentício, por exemplo, ela sabe quais são os países mais ou menos resistentes à irradiação de alimentos e pode utilizar diferentes abordagens para comercialização nesses mercados. Uma empresa francesa, fabricante de queijo, decidiu não utilizar mais condimentos mas, sim, extratos de condimentos livrando-se, assim, da questão de se o condimento foi ou não irradiado, ou se passou por algum outro processo de esterilização. Ela usa um extrato natural, o que é mais simples, e não causa problemas emocionais nos comerciantes que ainda são resistentes à tecnologia nuclear.

Por que existe ainda tanta rejeição quanto à irradiação de alimentos? As pessoas ainda são muito mal informadas a respeito?

Eu não acho que seja um problema de ignorância sobre o assunto. Acho que trata-se de um problema emocional. As pessoas têm crenças e opiniões e, algumas vezes, essas opiniões não têm base científica. E elas têm escolhas. Eu me lembro de uma ocasião em que duas belas jovens universitárias visitaram meu laboratório. Eu pedi a elas que escolhessem entre dois produtos: um que tinha sido irradiado e outro não irradiado. Mas as avisei que aquele que não tinha sido irradiado estava contaminado com a bactéria Salmonela e o que tinha sido irradiado estava livre essa bactéria e bom para o consumo. As duas escolheram aquele que não tinha sido irradiado, mesmo sabendo que estava contaminado. Claro que não permiti que elas consumissem o alimento contaminado, porque ficariam doentes. Mas essa é uma prova de que há um componente emocional importante que leva as pessoas a rejeitar a irradiação. E não eram pessoas incultas. Ambas tinham nível universitário.

Quais são os benefícios da irradiação de alimentos?

O maior benefício é a eliminação de várias bactérias patológicas. Nos EUA, há sérios casos de contaminação de alimentos pela bactéria E.Coli, e isso faz com que sejam destruídas várias toneladas de comida. Isso é um problema sério. Um estudo realizado naquele país revelou que, no período de um ano, 14 milhões de pessoas sofreram intoxicação alimentar, que levaram a 60 mil hospitalizações e resultaram em 1,8 mil mortes. Na França, temos o mesmo problema com a bactéria Listéria, muito comum nos queijos que são bastante consumidos, e também problemas com a Salmonela, que contamina a carne de frango, entre outros. A irradiação não é capaz de resolver todos esses problemas, mas pode contribuir para reduzí-los. Na África, existem problemas sérios de contaminação de alimentos, e isso está por toda parte. Poderíamos ajudar esses países através da esterilização de alimentos pela tecnologia nuclear e, com isso, eliminar as patogenias presentes nas carnes e em vários alimentos. Na minha opinião pessoal, a irradiação poderia ajudar esses países a produzir maior quantidade de comida saudável e segura, e também contribuiria para que pudessem exportar para os países ditos desenvolvidos. Eles poderiam vender produtos para a Europa, Ásia e América e obter mais dinheiro. A tecnologia também possibilita aumentar o tempo de prateleira de alguns produtos.

Que produtos não se pode irradiar?

Isso depende do processo a que são submetidos e, também, do tipo de alimento. Em alguns casos, não vale a pena, irradiar um produto menos nobre e de produção fácil e abundante, porque a irradiação é um processo caro. Um exemplo é o Japão, que irradia batatas. Não há sentido nisso, porque o preço da batata é muito inferior ao do processo de irradiação. Deve-se usar a irradiação para produtos de alto valor agregado, como condimentos e carnes. Os industriais e produtores investem muito dinheiro no processo produtivo, em maquinário e outros itens, e querem obter um retorno rápido do investimento. Mas, quando falamos do controle de contaminações em países como os da África, a tecnologia poderia ajudá-los. Apesar de o processo de irradiação ser caro, e isso acabar impactando no preço final dos alimentos, seria altamente compensador. Quanto aos alimentos que não devem ser irradiados, há alguns como, por exemplo, o amendoim. Para eliminar as microtoxinas, comuns nesse tipo de alimento, a dose necessária de irradiação é muito alta, e isso acelera a degradação do alimento. Isso, porque esse produto contém uma dose alta de óleo, de gordura. O mesmo ocorre com o leite. Quando se irradia o leite puro, ocorre uma quebra dos compostos, formando o ácido butílico, que altera o sabor. Por outro lado, o mesmo não ocorre com o queijo, que apesar de ser derivado do leite, é um alimento mais seco e tem a composição diferente. Quanto menos gordura, melhor. Em produtos ressecados, pode-se utilizar uma dose maior de radiação, e o sabor é menos alterado. O processo de irradiação é adequado, em muitos casos, mas não é algo mágico, no sentido de que não propicia a melhora da qualidade do produto. Trata-se de uma ferramenta para ser empregada em um objetivo específico. Existem muitos outros processos para conservação de alimentos, como o de redução de temperaturas com uso de nitrogênio, mas que são muito caras e, em muitos casos, inviabilizam sua aplicação. E, em muitos casos, a irradiação é o processo mais adequado e viável economicamente. No caso dos queijos, por exemplo, a irradiação possibilita a descontaminação de bactérias, como a Listéria. Na realidade, a irradiação se dá apenas na superfície do alimento, onde a bactéria se localiza. Esse é apenas um exemplo de inúmeras possibilidades e soluções que podem ser empregadas. É importante estudar e avaliar todas as possibilidades de forma a poder disponibilizar e propor novas alternativas para a indústria, que sejam viáveis economicamente.

Essa tecnologia, de modo geral, ainda é muito cara para fins comerciais?

Não disponho de números no momento, mas trata-se de um processo ainda dispendioso. Há custos altos em termos de investimentos em equipamentos, e em recursos humanos. Mas, depende de cada país e há vários estudos para viabilizar seu uso.

Existe muita discrepância no estágio em que o Brasil se encontra, em termos de desenvolvimento da tecnologia de irradiação, em comparação à Europa?

Eu não vejo por quê deveria haver alguma diferença no nível de conhecimento dessa tecnologia. Existe muito intercâmbio entre os cientistas no mundo todo. Em geral, o desenvolvimento ocorre primeiro nos países desenvolvidos, que dispõem demais recursos financeiros e tecnológicos (equipamentos mais modernos). Mas há sempre muita troca de conhecimento, especialmente entre a França, a Alemanha e o Brasil.

Na sua opinião, o que deveria ser feitopara aumentar o uso da irradiação de alimentos

Os jornalistas e a mídia têm um papel fundamental no que se refere a informar mais, e melhor, o público sobre o que é a tecnologia e os benefícios que pode propiciar. Da parte dos cientistas, nós estamos tentando auxiliar as pessoas a encontrar outros tipos de aplicações dessa tecnologia. Por exemplo, temos tido grande contato com a África do Sul, que enfrenta problemas relativos à fome. Com a irradiação, pode-se aumentar o valor nutricional de alguns alimentos. Os cientistas da África do Sul estão trabalhando nisso. Nosso papel é o de descobrir e propor novas e diferentes aplicações da tecnologia e promover seu uso. Na França, não se utiliza a palavra irradiação. O nome usado para isso é ionização, que na realidade é o mais preciso. Porque, quando se faz a irradiação com raios Gama, na verdade está se removendo alguns elétrons do átomo. E o termo ionização, além de ser mais preciso e mais correto, também tem um peso emocional menor.

O que mais acha importante acrescentar?

Na minha avaliação, a irradiação de alimentos é certamente o único processo que tem sido muito estudado no mundo do processamento de alimentos, sob o ponto de vista da segurança, da toxicologia, da adequação e do valor nutricional. É uma tecnologia que tem sido analisada e estudada de forma profunda, intensa e longa por vários cientistas no mundo todo. Daqui para frente, acredito que se utilizará menos os irradiadores a base de Cobalto 60, substituindo-os por máquinas aceleradoras de elétrons, cujos resultados são os mesmos.

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