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EDITORIAL

BRASIL NUCLEAR, ANO 11, NÚMERO 29, FEV - 2006
Energia, trabalho e renovação

Anuncia-se para breve uma nova versão do filme “Racionamento de energia, a crise anunciada". A exibição, em todo o território nacional, está prevista para o período 2008/2010, mas há quem aposte que ela pode estrear já no ano que vem.

Esperava-se que a versão original, de 2001, não tivesse desdobramentos uma vez que as causas do déficit de energia – a falta de investimento na construção de usinas geradoras e na interligação entre as linhas de transmissão – seriam sanadas dentro de um programa de investimento de longo prazo. No entanto, inúmeros estudos indicam que, infelizmente, são muito grandes as chances de nos vermos novamente frente a um quadro de escassez de energia.

Um desses estudos, realizado pela Câmara Brasileira de Investidores de Energia Elétrica (CBIEE) – entidade formada por 15 grupos empresariais do Brasil, Portugal, França, Espanha, Bélgica e EUA –, feito em parceira com a Câmara Americana de Comércio, aponta risco de déficit no fornecimento de energia entre 2008 e 2009 caso haja um aumento anual de 5% na demanda. Estudos do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE) mostram que, para sustentar o seu crescimento econômico sem enfrentar um novo apagão, o país precisa instalar anualmente cerca de 3.000 MW. Mas a realidade mostra que esta é uma meta difícil de ser alcançada.

Os novos projetos para o setor elétrico estão aquém do necessário para suportar o crescimento econômico que o governo prevê para o país nos próximos anos. As usinas hidrelétricas têm grande dificuldade para obter licenciamento devido ao seu grande impacto ambiental. Além disso, as principais se situam na Região Norte, o que acarreta custos vultosos de construção e transmissão. Para construir Belo Monte, por exemplo, seria necessário investir mais de US$ 2 bilhões apenas em linhas de transmissão, de acordo com o BNDES. Este valor por si só é superior ao custo de conclusão de Angra 3, estimado em US$ 1,8 bilhão.

A alternativa para suprir esse déficit em tempo útil seriam as usinas térmicas a gás natural e biomassa. No entanto, no primeiro caso, o país não tem hoje gás natural para abastecer todas as usinas existentes rodando a plena capacidade e teme-se que não terá combustível e infra-estrutura de gasodutos para suprir novas plantas em 2009. Quanto à bioeletricidade, sua oferta, mesmo com o aumento da produção, será insuficiente para substituir a energia que seria gerada pelas hidrelétricas.

Grande parte desse problema poderia ter sido evitado se o atual governo, contrapondo-se à política de sucessivos adiamentos dos governos anteriores, tivesse tomado a decisão acertada de construir Angra 3. Iniciadas as obras em 2003, a usina estaria operacional em 2009, contribuindo para reduzir significativamente o déficit de energia, que deverá ser de 7.000 MW.

O primeiro leilão de energia nova do novo modelo do setor elétrico mostrou a competitividade econômica da energia nuclear em relação às demais formas de geração energética.

Por estas razões, Angra 3 precisa ser concluída. O país já gastou US$ 750 milhões com a aquisição dos equipamentos de Angra 3 e gasta US$ 20 milhões por ano com sua manutenção. Mais importante que o dinheiro até hoje gasto, ao adiar uma decisão sobre a construção da usina, o governo penaliza um setor que há mais de 20 anos vem lutando bravamente para preservar e ampliar o seu conhecimento. Dando uma mostra desse vigor, a comunidade nuclear realizou em setembro o Inac 2005, hoje considerado o maior congresso de energia nuclear do hemisfério sul e um dos maiores do mundo, com 700 trabalhos técnicos selecionados e 80 publicados na íntegra em revista científica internacional.

Sem Angra 3 e sem o Programa Nuclear Brasileiro, essa comunidade corre o risco de desaparecer pela falta de renovação de seus quadros. Portanto, além de energia para o país, Angra 3 é trabalho, é pesquisa e renovação. Somente uma política ampla que garanta a continuidade do desenvolvimento da tecnologia nuclear evitará a perda deste patrimônio, pois a renovação só ocorrerá se houver perspectiva de investimento.

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