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Indústrias Nucleares do Brasil (INB) já iniciou o comissionamento, ou fase de testes, da fábrica de enriquecimento de urânio de Resende, no interior do estado do Rio de Janeiro, que deve se estender até julho. A operação comercial está prevista para o segundo semestre. Além de investir na consolidação e na expansão da unidade, a empresa também pretende entrar no mercado internacional de yellowcake, concentrado de urânio nãoenriquecido fabricado após a mineração.
A primeira cascata de centrífugas já se encontra instalada na unidade. A montagem da segunda cascata foi iniciada e deve ser concluída ainda este ano. No total, serão quatro módulos, compostos de dez cascatas cada, que, por sua vez, contêm centenas de ultracentrífugas. Até outubro, deverá ser concluída a construção dos prédios dos módulos 3 e 4. Quando todos os módulos estiverem instalados, a INB enriquecerá urânio suficiente para suprir 60% das necessidades de Angra 1 e 2, o que representará uma economia de cerca de US$ 12 milhões a cada 14 meses. Com a tendência de valorização do Euro – o processo é feito atualmente na Europa –, a economia feita pelo Brasil pode aumentar com o tempo.
Apesar do progresso, o cronograma do enriquecimento encontra-se atrasado. A previsão era, originalmente, de que os quatro módulos estariam instalados em 2008. Posteriormente, esta data foi empurrada para 2009 e, atualmente, está prevista para 2010. O atraso não se deve à capacidade técnica. O problema são os sucessivos cortes orçamentários que a empresa sofre desde 2000, quando assinou contrato com a Marinha para implantar a unidade industrial.
Caso haja mais recursos disponíveis, este prazo pode ser encurtado. A Marinha já tem pronta uma nova versão das ultracentrífugas que poderá ser utilizada na fabricação da segunda cascata.
A intenção da INB é realizar 100% do enriquecimento necessário para as usinas nucleares nacionais no Brasil. Esta previsão inclui a operação de Angra 3, caso seja concluída pelo governo federal. Tudo depende de uma nova negociação com a Marinha, da disponibilidade de recursos para investir na expansão da fábrica de Resende e da decisão sobre a terceira central nuclear de Angra.
A INB também pretende entrar no mercado de enriquecimento de urânio, que movimenta cerca de US$ 5 bilhões a cada ano. “Mesmo que conseguíssemos somente uma pequena fatia do mercado, já valeria a pena. Poderia significar a autosuficiência da empresa em relação ao Tesouro Nacional”, explica o presidente Luiz Carlos dos Santos Vieira. Apenas quatro empresas dominam este mercado: a americana USEC (34% de share); a francesa Eurodif (25%), a russa Tenex (23%); e a Urenco (18%), de capital alemão, inglês e holandês, que realiza o serviço para as usinas nucleares brasileiras.
Num prazo bem mais curto, a empresa pretende exportar o concentrado de urânio, ou yellowcake, obtido após a mineração. A principal fonte de urânio para exportação seria a mina de Santa Quitéria, no Ceará, que será implementada e produzirá 800 toneladas/ano, exclusivamente voltadas para o mercado externo. Lá, o urânio se encontra associado ao fosfato, utilizado na indústria de fertilizantes, e, por isso, a INB estuda a possibilidade de procurar um parceiro para tocar o empreendimento. “O fosfato tem subido muito em valor e, com a expansão da fronteira agrícola em direção ao Norte, a exploração do urânio acaba dando retorno substancial”, explica Luiz Carlos Vieira.
O minério extraído de Santa Quitéria poderá ser transformado em yellowcake no local, com a construção de uma planta química própria, ou em Caetité, na Bahia – onde a empresa mantém a única mina de urânio em atividade no país hoje – com a expansão da planta química que já existe lá. A INB pretende começar as obras da nova unidade industrial no segundo semestre deste ano. A previsão é que a produção comece em 26 meses.
A INB pretende ainda duplicar a produção da mina de Caetité para 800 toneladas/ ano, utilizando-a unicamente para abastecer o programa nuclear brasileiro, incluindo Angra 3. “Apenas Caetité é suficiente para atender as necessidades de Angra 1 e 2 por 100 anos. Acontece que nem uma, nem outra, vão durar esse tempo todo. O que vamos fazer com o resto do urânio que temos? Vamos ficar sem usar este bem? Só temos a ganhar ao entrar no mercado de exportação. O urânio de Santa Quitéria, por exemplo, poderia nos ajudar a pagar parte do financiamento de Angra 3. Também poderíamos investir os recursos obtidos na fábrica de enriquecimento. Vale lembrar que apenas 30% do território nacional já foram prospectados”, analisa Vieira.
Outra reserva que poderá ser explorada visando à exportação é a de Pitinga, que fica a 280 km de Manaus, no Amazonas. A mina é de propriedade da Mamoré Mineração e Metalurgia, controlada pelo grupo Paranapanema. No local, a mineradora extrai a cassiterita, minério utilizado na produção do estanho e que tem o urânio como subproduto. A INB estuda, junto com o grupo, como melhor concretizar o projeto.
A empresa quer ainda construir uma planta industrial para realizar a conversão do yellowcake em gás hexafluoreto de urânio (UF6) para atender as necessidades das usinas nucleares nacionais e oferecer o serviço ao mercado externo. A conversão é atualmente realizada no Canadá, pois apenas a demanda de Angra 1 e 2 não justifica o investimento. Entretanto, a conclusão de Angra 3 poderia tornar interessante a construção de uma planta nacional. A INB planeja erguer uma unidade com capacidade produtiva de 800 toneladas de gás hexafluoreto por ano, o que seria suficiente para abastecer as três centrais nucleares brasileiras – que necessitariam de 700 toneladas/ano – e sobrar um pequeno excedente para exportação. A base para a tecnologia poderia ser a planta-piloto de conversão que a Marinha está construindo na unidade de Aramar, em Iperó, São Paulo, que terá capacidade de produzir 40 toneladas anuais.
Neste cenário de expansão de suas atividades, a INB considera a conclusão de Angra 3 fundamental. Porém, o presidente Luiz Carlos Vieira ressalta que a terceira usina do complexo de Angra dos Reis é peça-chave não só para a empresa, mas para o programa nuclear brasileiro como um todo. Em sua opinião, o Brasil fez um esforço muito grande desde a década de 70 que pode ser perdido sem a conclusão da usina. “Angra 3 garantirá a continuidade do programa nuclear brasileiro. Na verdade, o ideal era que fôssemos além dela. Não podemos parar de investir no programa. A energia nuclear é uma fonte importante de geração elétrica para o país”, frisa.
Ele afirma que, com a conclusão de Angra 3, a participação da energia nuclear no sistema elétrico brasileiro permanecerá entre 3% e 4%. “Não se trata de uma ampliação e, sim, de uma manutenção da contribuição nuclear para a geração energética. Mesmo que construíssemos Angra 3, outra usina do mesmo porte e mais duas usinas de 300 megawatts (MW), a participação nuclear subiria para apenas 5%, porque as outras fontes também crescerão a longo prazo”, lembra Vieira.
O presidente da INB destaca que o Brasil terá que dobrar seu sistema elétrico até 2018 e que precisará de todas as fontes disponíveis para arcar com o crescimento da demanda, incluindo a hidroeletricidade, o gás natural, as energias renováveis e também a energia nuclear. “Não podemos depender somente da energia hidrelética. Hoje, a água é relativamente barata, mas estudos mostram que ficará cada vez mais cara. A Agência Nacional de Águas (ANA) acabará cobrando pelo seu uso e, como resultado, o preço da geração hidráulica vai se elevar. Adicionalmente, o custo ambiental de se expandir a matriz hidrelétrica é grande. A maior parte do potencial que pode ser aproveitado está na Amazônia e áreas enormes terão que ser inundadas”, conclui.
Durante todo o ano de 2004, a fábrica de enriquecimento de urânio de Resende, no interior do estado do Rio de Janeiro, foi alvo de pressões internacionais. A polêmica começou depois que o jornal americano Washington Post publicou matéria insinuando que o Brasil poderia estar planejando fabricar armas nucleares e camuflando a intenção com um programa pacífico. A controvérsia foi alimentada por artigo da revista Science, onde pesquisadores americanos afirmavam que o Brasil teria capacidade de produzir bombas nucleares em Resende. Ambos davam voz a especialistas de think tanks – centros de estudos privados – americanos que buscam controlar a proliferação de tecnologia nuclear no mundo.
No centro da polêmica, estavam as negociações entre a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e o governo brasileiro para definir como seriam as inspeções na fábrica de enriquecimento. O Brasil não queria permitir acesso visual às ultracentrífugas, cobertas por biombos, alegando a necessidade de preservar segredos industriais. Por sua vez, a AIEA insistia em obter acesso irrestrito aos equipamentos. Após meses de negociações e várias visitas dos inspetores da agência, em novembro, o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) anunciou que o Brasil havia chegado a um acordo com a AIEA, que permitia a preservação do sigilo sobre a tecnologia nacional.
Pelo acordo, os inspetores têm uma série de contrapartidas que tornam a visualização das centrífugas desnecessária. Primeiramente, eles poderão fazer amostragens ambientais no hall das cascatas que permitem detectar partículas microscópicas de urânio e determinar seu grau de enriquecimento. Também poderão realizar ensaios não-destrutivos com detectores de nêutrons e raios gama.
Haverá um sistema de vigilância, com câmeras operando 24 horas, que controlará o movimento de todas as pessoas e materiais na unidade. A agência poderá auditar todo o urânio utilizado no processo, o que torna possível saber se a quantidade que entrar nas centrífugas será igual a que sairá. Os inspetores terão ainda acesso visual aos dutos de entrada e saída dos equipamentos, além de modelos digitais que reproduzem o processo realizado nas ultracentrífugas.