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Segundo Adilson Oliveira, professor de economia da
energia do Instituto de Economia da UFRJ e autor do livro
“Diálogos da Energia”, que acaba de ser lançado, o sistema
elétrico brasileiro, por ser predominantemente hídrico, é
afetado profundamente pelas variações climáticas. Ele explica
que a capacidade de geração do
país é suficiente para atender a um
consumo de energia igual ou superior
ao atual, desde que ocorra um quadro
de chuvas regulares e abundantes.
“Mas como não é possível garantir
que São Pedro providenciará um
volume de chuvas na medida de nossas
necessidades, há risco crescente
de faltar energia antes de 2010, que
é quando entram em operação todas as usinas projetadas e
em construção”, adverte o especialista.
A dependência climática assume maior proporção diante
da falta de disposição da iniciativa privada em investir
em novos empreendimentos nas áreas de geração e
distribuição. A inibição do setor privado deve-se, em grande
parte, às regras estabelecidas pelo governo para a venda
de energia. Diante dos baixos preços alcançados no
último leilão de energia “velha” (de usinas já existentes),
realizado em abril, os investidores redobraram a cautela em relação a novos empreendimentos, por temer que não
apresentem a rentabilidade adequada.
Também contribui para o quadro de incerteza o atraso
no cronograma de construção das novas usinas hidrelétricas
previstas para entrar em funcionamento até 2010. A
maioria dos projetos ainda depende da licença ambiental
para sair do papel. Isso porque, pelas regras do novo modelo
do setor elétrico, as licitações só podem ser realizadas somente
depois da aprovação dos órgãos de meio ambiente -
uma exigência que não existia no antigo modelo. “A instalação
de grandes reservatórios, com a inundação de extensas
áreas, só foi possível em uma época em que as restrições
ambientais e ao uso da terra eram menores e quando a
contestação social ou econômica dos investimentos era
menos intensa. Obras que fizeram
desaparecer o salto de Sete
Quedas, o Canal de São Simão
não seriam aceitáveis nas atuais
circunstâncias. Igualmente, a
inundação de grandes áreas florestais,
como as realizadas no
passado, não pode ser mais considerada,
devendo o planejamento
energético se adaptar a tal realidade”,
afirma estudo realizado pela organização não governamental
Economia e Energia. Segundo o estudo, de
autoria de Carlos Feu Alvim, José Israel Vargas, Othon Luiz
Pinheiro da Silva, Omar Campos Ferreira e Frida Eidelman,
um reflexo dessa nova realidade é a mudança sofrida pelo
atual projeto de Belo Monte cuja área inundada foi reduzida
a 1/3 (1200 para 400 km2) sem redução da potência a ser
instalada (cerca de 11.000 MW).
Com o esgotamento gradativo da maior parte das bacias
do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a expansão do parque hidrelétrico brasileiro acontecerá na Região Norte. Isso
adiciona novos complicadores ao cenário de geração de
energia. Um deles é a impossibilidade de construir na região
grandes reservatórios, com capacidade de armazenar
energia hídrica suficiente para enfrentar muitos meses de
estiagem. Os reservatórios da maioria das usinas previstas
para a região têm capacidade para apenas dois meses de
energia. Além disso, como a região é marcada por uma
forte sazonalidade, os períodos de seca afetarão o desempenho
de todas as usinas. A distância dos centros consumidores
é outro problema detectado
e que é agravado pelo
fato do sistema de transmissão
estar sobrecarregado.
Adilson Oliveira aponta a
necessidade de se lançar imediatamente
um conjunto de
projetos para superar esses problemas
e evitar, em um período
relativamente curto, um novo
racionamento. “Em 2000 apostamos
nas chuvas. Não podemos repetir esse erro”, afirma.
Ele propõe uma estratégia baseada na diversificação
tecnológica como forma de reduzir o risco dos períodos
hidrológicos desfavoráveis e, ainda, dar mais confiabilidade
no sistema. “Num sistema basicamente hidrológico, quando
há períodos de seca, todas as usinas de uma região são
afetadas. Já em um sistema diversificado, que utiliza fontes
diferentes de energia, isso não acontece. Essa é a vantagem
da diversidade. Quando há problema em usinas de
um determinado tipo de fonte, as de outro tipo continuam
funcionando”, afirma.
O novo modelo energético brasileiro prevê a construção
de usinas termelétricas para complementar a energia
hídrica em ocasiões de falta de chuvas ou de aumento
da demanda acima do esperado. Mas, segundo o especialista,
essa opção também não é segura, uma vez que
depende fundamentalmente do aumento da oferta de
gás. O gás produzido no país é suficiente apenas para
suprir as necessidades de outros mercados como o industrial,
não atendendo à demanda da geração de energia.
Segundo admitiu a ministra das Minas e Energia,
Dilma Rousseff, ao jornal Valor Econômico, no início de
maio, se ligadas todas as termoelétricas já construídas
no país, não haveria gás natural suficiente para abastecêlas.
Na entrevista, a ministra citava entre as iniciativas
para para reduzir o déficit existente a aceleração das obras de construção de gasodutos
e, também, o aumento
da importação do insumo da
Bolívia e da Argentina.
A segunda alternativa, no
momento, mostra-se inviável diante
da crise política boliviana,
que ameaça comprometer o fornecimento
do gás natural para o
Brasil. O corte no fornecimento
do gás boliviano teria como conseqüência
imediata o desligamento
das usinas termelétricas movidas a gás.
Para Adilson Oliveira, a construção de Angra 3 surge
como a opção ideal de complementação da energia hidrelétrica
e, ainda, aumentar a confiabilidade do sistema no Sudeste.
“Hoje estamos dependentes da energia de Itaipu e
isso vai cada vez mais tornar nosso sistema no Sudeste
vulnerável à flutuação de freqüência”, afirma. Em sua opinião,
Angra 3 é a solução ideal para o Sudeste, por ter uma
localização estratégica muito favorável, entre o Rio e São
Paulo, ou seja, no miolo do sistema industrial brasileiro.
Já o secretário de Energia, Indústria Naval e Petróleo
do Rio de Janeiro, Wagner Victer, diz que os 1300 MW
gerados por Angra 3, equivalentes à energia de termelétrica
a gás natural, permitira economizar 7 milhões de m3/dia
de gás, que é um volume equivalente a 30% do que é hoje
importado da Bolívia.
O estudo da ONG Economia e Energia também preconiza
a implantação de usinas nucleares, que teriam um
papel central em um parque de geração térmica formado
por um conjunto de centrais, com diferentes combustíveis.
“As perspectivas de médio prazo indicam um papel
importante para a geração nuclear. A conclusão da usina
de Angra 3, que se insere perfeitamente nas necessidades
energéticas do futuro próximo, é um passo importante na
consolidação do acesso a esta fonte energética”, conclui
o estudo.