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CAPA

REVISTA BRASIL NUCLEAR, ANO 11, NÚMERO 28, JUNHO 2005

A luz subiu no telhado

país corre risco de enfrentar um novo racionamento de energia, a exemplo do que aconteceu em 2001. O alerta parte de especialistas em planejamento energético, que prevêem uma situação de desabastecimento a partir de 2009, caso o país mantenha ou intensifique o atual ritmo de crescimento econômico. Em 2004, segundo dados da Eletrobrás, o consumo de energia no país aumentou cerca de 5%.

Segundo Adilson Oliveira, professor de economia da energia do Instituto de Economia da UFRJ e autor do livro “Diálogos da Energia”, que acaba de ser lançado, o sistema elétrico brasileiro, por ser predominantemente hídrico, é afetado profundamente pelas variações climáticas. Ele explica que a capacidade de geração do país é suficiente para atender a um consumo de energia igual ou superior ao atual, desde que ocorra um quadro de chuvas regulares e abundantes. “Mas como não é possível garantir que São Pedro providenciará um volume de chuvas na medida de nossas necessidades, há risco crescente de faltar energia antes de 2010, que é quando entram em operação todas as usinas projetadas e em construção”, adverte o especialista.

A dependência climática assume maior proporção diante da falta de disposição da iniciativa privada em investir em novos empreendimentos nas áreas de geração e distribuição. A inibição do setor privado deve-se, em grande parte, às regras estabelecidas pelo governo para a venda de energia. Diante dos baixos preços alcançados no último leilão de energia “velha” (de usinas já existentes), realizado em abril, os investidores redobraram a cautela em relação a novos empreendimentos, por temer que não apresentem a rentabilidade adequada. Também contribui para o quadro de incerteza o atraso no cronograma de construção das novas usinas hidrelétricas previstas para entrar em funcionamento até 2010. A maioria dos projetos ainda depende da licença ambiental para sair do papel. Isso porque, pelas regras do novo modelo do setor elétrico, as licitações só podem ser realizadas somente depois da aprovação dos órgãos de meio ambiente - uma exigência que não existia no antigo modelo. “A instalação de grandes reservatórios, com a inundação de extensas áreas, só foi possível em uma época em que as restrições ambientais e ao uso da terra eram menores e quando a contestação social ou econômica dos investimentos era menos intensa. Obras que fizeram desaparecer o salto de Sete Quedas, o Canal de São Simão não seriam aceitáveis nas atuais circunstâncias. Igualmente, a inundação de grandes áreas florestais, como as realizadas no passado, não pode ser mais considerada, devendo o planejamento energético se adaptar a tal realidade”, afirma estudo realizado pela organização não governamental Economia e Energia. Segundo o estudo, de autoria de Carlos Feu Alvim, José Israel Vargas, Othon Luiz Pinheiro da Silva, Omar Campos Ferreira e Frida Eidelman, um reflexo dessa nova realidade é a mudança sofrida pelo atual projeto de Belo Monte cuja área inundada foi reduzida a 1/3 (1200 para 400 km2) sem redução da potência a ser instalada (cerca de 11.000 MW).

Com o esgotamento gradativo da maior parte das bacias do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a expansão do parque hidrelétrico brasileiro acontecerá na Região Norte. Isso adiciona novos complicadores ao cenário de geração de energia. Um deles é a impossibilidade de construir na região grandes reservatórios, com capacidade de armazenar energia hídrica suficiente para enfrentar muitos meses de estiagem. Os reservatórios da maioria das usinas previstas para a região têm capacidade para apenas dois meses de energia. Além disso, como a região é marcada por uma forte sazonalidade, os períodos de seca afetarão o desempenho de todas as usinas. A distância dos centros consumidores é outro problema detectado e que é agravado pelo fato do sistema de transmissão estar sobrecarregado.

Diversificação

Adilson Oliveira aponta a necessidade de se lançar imediatamente um conjunto de projetos para superar esses problemas e evitar, em um período relativamente curto, um novo racionamento. “Em 2000 apostamos nas chuvas. Não podemos repetir esse erro”, afirma. Ele propõe uma estratégia baseada na diversificação tecnológica como forma de reduzir o risco dos períodos hidrológicos desfavoráveis e, ainda, dar mais confiabilidade no sistema. “Num sistema basicamente hidrológico, quando há períodos de seca, todas as usinas de uma região são afetadas. Já em um sistema diversificado, que utiliza fontes diferentes de energia, isso não acontece. Essa é a vantagem da diversidade. Quando há problema em usinas de um determinado tipo de fonte, as de outro tipo continuam funcionando”, afirma.

O novo modelo energético brasileiro prevê a construção de usinas termelétricas para complementar a energia hídrica em ocasiões de falta de chuvas ou de aumento da demanda acima do esperado. Mas, segundo o especialista, essa opção também não é segura, uma vez que depende fundamentalmente do aumento da oferta de gás. O gás produzido no país é suficiente apenas para suprir as necessidades de outros mercados como o industrial, não atendendo à demanda da geração de energia.

Segundo admitiu a ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff, ao jornal Valor Econômico, no início de maio, se ligadas todas as termoelétricas já construídas no país, não haveria gás natural suficiente para abastecêlas. Na entrevista, a ministra citava entre as iniciativas para para reduzir o déficit existente a aceleração das obras de construção de gasodutos e, também, o aumento da importação do insumo da Bolívia e da Argentina. A segunda alternativa, no momento, mostra-se inviável diante da crise política boliviana, que ameaça comprometer o fornecimento do gás natural para o Brasil. O corte no fornecimento do gás boliviano teria como conseqüência imediata o desligamento das usinas termelétricas movidas a gás. Para Adilson Oliveira, a construção de Angra 3 surge como a opção ideal de complementação da energia hidrelétrica e, ainda, aumentar a confiabilidade do sistema no Sudeste. “Hoje estamos dependentes da energia de Itaipu e isso vai cada vez mais tornar nosso sistema no Sudeste vulnerável à flutuação de freqüência”, afirma. Em sua opinião, Angra 3 é a solução ideal para o Sudeste, por ter uma localização estratégica muito favorável, entre o Rio e São Paulo, ou seja, no miolo do sistema industrial brasileiro. Já o secretário de Energia, Indústria Naval e Petróleo do Rio de Janeiro, Wagner Victer, diz que os 1300 MW gerados por Angra 3, equivalentes à energia de termelétrica a gás natural, permitira economizar 7 milhões de m3/dia de gás, que é um volume equivalente a 30% do que é hoje importado da Bolívia.

O estudo da ONG Economia e Energia também preconiza a implantação de usinas nucleares, que teriam um papel central em um parque de geração térmica formado por um conjunto de centrais, com diferentes combustíveis. “As perspectivas de médio prazo indicam um papel importante para a geração nuclear. A conclusão da usina de Angra 3, que se insere perfeitamente nas necessidades energéticas do futuro próximo, é um passo importante na consolidação do acesso a esta fonte energética”, conclui o estudo.

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