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A sucessão de problemas vividos pelo setor de energia neste primeiro semestre vem demonstrar que o país não pode abrir mão de Angra 3. A operação da central nuclear é vital para evitar um novo racionamento de energia e para garantir a segurança do sistema elétrico brasileiro.
O aumento do número de apagões tornou evidente a sobrecarga da rede de distribuição e o envelhecimento da rede geradora. A recente crise na Bolívia expôs a dependência do país em relação ao gás boliviano e a sua vulnerabilidade frente a um eventual corte na importação desse insumo que é vital para o programa de geração termelétrico. E, logo em seguida, a queda de duas torres que sustentam as linhas de transmissão de Itaipu pôs em risco o fornecimento de energia para a região Sudeste, coração industrial do país. A ameaça só não se concretizou devido à entrada em operação de outras hidrelétricas que estavam em manutenção e com o aumento da produção das centrais nucleares Angra 1 e Angra 2. As duas unidades funcionaram com carga completa, quando normalmente operam com 80% de sua capacidade.
Não é de hoje que os especialistas do setor alertam para o risco de um novo déficit de energia, caso a economia mantenha o ritmo de crescimento. Também não é de hoje que se adverte para a necessidade de diversificação da matriz elétrica brasileira, de forma a reduzir a dependência das hidrelétricas, sujeitas a instabilidades climáticas e a problemas ambientais, e que requerem grandes investimentos em linhas de transmissão.
A construção de Angra 3 contribui para equacionar todos esses problemas. Trata-se da obra mais fácil de ser iniciada e concluída dentre os empreendimentos do governo no setor elétrico. O projeto é idêntico ao de Angra 2, o local já está preparado para o início das obras, as linhas de transmissão estão instaladas, a subestação de energia já foi construída, toda a infra-estrutura para implantação do canteiro já existe e o relatório de impacto ambiental se encontra pronto. A energia que será produzida por Angra 3 corresponde a 35% do gás que importamos da Bolívia. Com a vantagem de que seu combustível é produzido internamente, é o combustível nacional. Temos a terceira maior reserva de urânio do mundo, com somente 30% do território nacional prospectado.
Com o investimento para se concluir a planta de enriquecimento de urânio, instalada na fábrica de elemento combustível da INB em Resende, e a planta de conversão do gás hexafluoreto de urânio, o País atingiria a autosuficiência na geração nuclear, além da redução do custo de operação das usinas nucleares nacionais devido ao ganho em escala. A indústria nuclear seria viabilizada e, assim, dariamos continuidade ao programa nuclear. O setor se auto-financiaria, planejando uma expansão de forma equilibrada e com metas a serem atingidas. Esta visão da reestruturação do programa nuclear brasileiro é o assunto da entrevista do ministro Eduardo Campos, que abre esta edição da Brasil Nuclear.
O País não pode perder as conquistas obtidas no desenvolvimento da tecnologia nuclear. Atingimos um patamar de desenvolvimento que poucos países conseguiram. Foram anos de investimento na capacitação tecnológica e justamente hoje, que se torna evidente a necessidade das usinas nucleares e da tecnologia nuclear em várias áreas da atividade humana, o governo patina na tomada de decisão.
Postergar significa abrir mão da capacitação adquirida, significa gastar US$ 20 milhões por ano na estocagem dos equipamentos, significa aumentar o custo de conclusão, finalmente significa perder mais de 20 anos de capacitação tecnológica. A perda só será sentida quando for preciso construir novas usinas e tivermos de adquirir pacotes fechados, sem um mínimo de compromisso com o desenvolvimento tecnológico do País.
A retomada de Angra 3 foi debatida
por todos os segmentos da sociedade
em audiências públicas, debates
no Congresso e em incontáveis
grupos criados pelo governo federal.
Não é mais possível, portanto, que se
continue adiando indefinidamente
uma decisão sobre a usina. Após tantos
anos de investimento no setor
nuclear, seria um contra-senso deixar
de concluir a obra que consolidará
todos esses esforços.
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