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James Lovelock: energia nuclear é solução,
para aquecimento global
Em maio deste ano, um artigo no jornal inglês The Independent causou grande polêmica. Nele, o autor defendia o investimento em energia nuclear para impedir o avanço do efeito estufa. A polêmica deveu-se mais à pessoa do que ao conteúdo. Tratava-se de James Lovelock, cientista britânico de 85 anos, guru dos ambientalistas, pioneiro nos estudos sobre o aquecimento global e um dos primeiros pesquisadores a alertar sobre suas conseqüências. Respeitado por trabalhar de forma independente, sem ter ligações com nenhuma instituição pública ou privada, Lovelock se tornou famoso como criador da Teoria de Gaia, postulada nos anos 60 e de grande influência no movimento verde desde então. De acordo com a teoria, a Terra seria um sistema auto-regulador que trabalha para manter o equilíbrio e a vida no planeta. Qualquer fator que rompa com esse equilíbrio poderia trazer conseqüências desastrosas.
Ele afirma que é exatamente isto que está acontecendo atualmente. As emissões de gases como o dióxido de carbono (CO2), provenientes da queima de combustíveis fósseis, causam o chamado efeito estufa, que provoca o aumento da temperatura na Terra. O resultado poderá ser o derretimento do gelo polar, que causaria o aumento do nível dos mares e, conseqüentemente, a inundação de cidades costeiras. O aquecimento global também poderia causar o colapso de ecossistemas tropicais, entre outros problemas associados às mudanças climáticas. Alguns efeitos já podem ser sentidos. Em 2003, uma onda de calor inédita matou milhares de pessoas na Europa. Em entrevista por e-mail a Fábio Aranha da Brasil Nuclear, o cientista afirma que a solução é substituir o uso de combustíveis fósseis pela energia nuclear, "a mais segura das fontes energéticas".
O aquecimento global pode ser considerado o problema ambiental mais grave que o mundo enfrenta na atualidade?
O aquecimento global é o problema mais sério que o mundo enfrenta hoje. As conseqüências para o planeta caso as emissões continuem serão terríveis. Quando a quantidade de dióxido de carbono (CO2) no ar exceder algo em torno de 450 e 550 partes por milhão, o sistema atravessará um limite além do qual o aquecimento global se tornará irreversível e um amplo leque de mudanças adversas ocorrerá. Entre elas, inclui-se um aumento do nível do mar de 7 a 10 metros, em conseqüência do derretimento do gelo da Groenlândia, e o provável colapso de ecossistemas de florestas tropicais. Estas mudanças não acontecerão em nosso tempo de vida, mas tornarão a vida demasiadamente difícil para os nossos descendentes. Se continuarmos com nosso modo de vida atual, em poucas décadas, ultrapassaremos o limite. Trata-se de um problema ético.
O Protocolo de Quioto foi, até o momento, a principal iniciativa internacional para combater o aquecimento global. Ele estabelece que os países industrializados reduzam suas emissões de gases causadores do efeito estufa em pelo menos 5,2% em relação aos níveis de 1990 até o período entre 2008 e 2012. Isto é suficiente para conter o seu avanço?
As propostas de Quioto não estão nem próximas de serem suficientes para reduzir as emissões a um nível seguro.
Que medidas seriam necessárias para conter e reverter o efeito estufa?
Não podemos reverter o aquecimento global. Mesmo a interrupção de todas as emissões de CO2 hoje não impediria que a Terra se tornasse aquecida pela maior parte deste século. Pense na resposta da Terra como a de um grande navio navegando em velocidade máxima. Desligar os motores não pararia o navio. Ele prosseguiria por inércia durante várias milhas. O consenso entre os climatologistas é que não seria recomendável, ou seria até perigoso, permitir um aumento de temperatura maior que 2º ou 3º C. Além disso, há o limite que, se ultrapassado, causará automaticamente um aquecimento adicional irreversível. Segundo relatório do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (IPCC), de 2001, existem inúmeros cenários diferentes de suprimento de energia elétrica e, a partir deles, pode-se calcular a extensão em que precisaríamos cortar emissões de combustão. Eles indicam claramente que os níveis permissíveis de emissão estão muito abaixo das propostas de Quioto. Em termos práticos, acredito que seria necessária a aplicação global de restrições de tempos de guerra. Não vejo isso acontecendo, a não ser que haja um desastre relacionado ao efeito estufa. Um desastre parecido, porém maior do que as mais de 20 mil mortes decorrentes do calor excessivo na Europa em 2003.
O que você acha da forma com que os países desenvolvidos vêm lidando com esta questão? E como os países em desenvolvimento deveriam entrar nesta equação?
As nações desenvolvidas se conscientizaram da seriedade do aquecimento global apenas nos últimos anos. Daí a crença de que Quioto seria eficaz. Os principais emissores de gases do efeito estufa são Estados Unidos, China, Índia e os países da Europa. Estas são as nações que precisam agir agora.
Por que demorou tanto para os países desenvolvidos prestarem atenção ao problema do aquecimento global?
A ciência tem demorado a reconhecer os perigos do aquecimento global porque, até seis anos atrás, os cientistas consideravam a Terra como uma bola de rocha, umedecida pelos oceanos e coberta por uma fina camada de ar. A vida era tida como uma passageira que havia se adaptado ao planeta, mas não o tinha afetado. Esta visão estranha da Terra surgiu porque a ciência foi fragmentada num grande número de especialidades que raramente se comunicavam. Desta forma, um biólogo molecular não saberia muita coisa sobre fisiologia ou botânica e quase nada sobre química inorgânica. Era fácil gastar uma vida inteira trabalhando num pequeno ramo da geologia e saber nada de climatologia ou de ecossistemas. Eu introduzi a Teoria de Gaia no início dos anos 60, que via a Terra como um sistema auto-regulador que normalmente regula o clima e a composição para serem favoráveis à vida. Poucos cientistas a consideravam uma visão verdadeira do nosso planeta até cerca de 1997, quando houve uma repentina compreensão em larga escala de que a Terra realmente era um sistema auto-regulador. O reconhecimento dos perigos das emissões que causam o efeito estufa veio quando se percebeu que a Terra respondia fisiologicamente e que agora estava num estado instável.
Em artigo publicado em maio no jornal The Independent, você afirmou que a energia nuclear é a única fonte de geração energética disponível imediatamente que não contribui para o aquecimento global. Por quê você acha isso?
A energia nuclear é hoje um procedimento de engenharia bem-estabelecido e está disponível imediatamente. As fontes energéticas alternativas que não emitem gases causadores do efeito estufa ainda são visionárias, como a energia de fusão, ou estão somente no estágio de protótipo, como o seqüestro de carbono nas usinas geradoras de energia atuais. A energia hidrelétrica é boa, mas, na maioria dos lugares, já chegou ao seu limite ou em breve chegará.
Qual seria o impacto da utilização da energia nuclear para reduzir as emissões e, em última instância, impedir o efeito estufa?
Se houvesse uma aceitação global da energia nuclear como nossa fonte principal de energia e se ela fosse suplementada pelo seqüestro de carbono e pelas energias renováveis, nós talvez tivéssemos uma chance de manter nossa civilização atual.
Como você chegou a esta conclusão em relação à energia nuclear?
Minha conclusão em relação à energia nuclear é, certamente, inevitável. Ela está disponível, é a mais segura de todas as fontes de energia, deixa o menor rastro e tem suprimento de combustível para milhares de anos. É também a fonte mais econômica e, se os medos irracionais do público pudessem ser atenuados, seria ainda mais econômica. Eu tenho sustentado este ponto de vista por, no mínimo, trinta anos.
Os opositores da energia nuclear afirmam que há alternativas ao aumento da geração nuclear na luta contra o efeito estufa e para satisfazer as necessidades energéticas do mundo. Eles normalmente mencionam o uso de energias renováveis, como solar, biomassa, eólica, energia das ondas, entre outras. Também citam o seqüestro de carbono, com o gás sendo armazenado em cavernas, em poços exauridos de petróleo ou no oceano. Estas opções são viáveis? O mundo pode abrir mão da energia nuclear?
Vale a pena buscar a energia renovável e ela dever ser utilizada. Entretanto, ela só é capaz de suprir uma pequena proporção das nossas necessidades energéticas. Eu tenho certeza de que não temos tempo de desenvolver as fontes de energia renováveis suficientemente para substituir a queima de combustíveis fósseis. De todas as alternativas, o seqüestro de carbono é o que apresenta a maior promessa, mas, também apresenta problemas sobre onde armazenar o CO2. Certamente não poderá ser nos oceanos, pois a acidificação que seria produzida acarretaria conseqüências biológicas sérias. O que precisamos é de um portfólio de fontes de geração de energia, com a energia nuclear ocupando um lugar de destaque. Eu considero a necessidade da energia nuclear como uma terapia. Nós precisamos dela para curar nosso excesso de emissões de gases do efeito estufa. Não é a solução ideal, mas pode nos levar a um mundo melhor onde ela não seja mais necessária.
Em seu artigo no The Independent você mencionou que a oposição à energia nuclear é baseada no medo irracional alimentado em parte pelo "lobby verde". Por que você acha que há tanta resistência à energia nuclear no movimento ambientalista?
O medo da energia nuclear começou durante a Guerra Fria entre as superpotências. Antes disso, ela era bem-vinda. O medo era compreensível e amplificado de forma significativa pela ficção e filmes de Hollywood de catástrofes nucleares. Os Verdes se aproveitaram do medo do público em relação à energia nuclear e agora não sabem como dizer aos seus apoiadores que estavam errados.
O que você achou da reação ao seu artigo?
A reação ao meu artigo tem sido bem maior do que eu esperava. Talvez fosse a hora certa para alguém dizer o que eu disse.
Seus pontos de vista em relação à energia nuclear têm sido muito criticados pelos Verdes. Que resposta você dá a seus críticos?
Eu sou um Verde e peço aos meus amigos no movimento que superem seus falsos medos da energia nuclear e a vejam como uma forma de tornar o mundo mais saudável.
Criada em 1996, EFF - em português, Ambientalistas a favor da Energia Nuclear - (www.ecolo.org) é presidida por Bruno Comby, outro conhecido anbientalista favorável à energia nuclear, e conta com 6 mil associados em 50 países. James lovelock é membro da EFN e autor do prefácio do livro de Bruno Comby, "Environmentalists For Nuclear Energy". A versão Eletrônica do livro está disponível no site: www.comby.org.