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A energia eólica está perdendo o fôlego na Alemanha. O país, que tem 15 mil estações geradoras de eletricidade pelo vento, passou por um vendaval de construção de usinas nos últimos anos que, agora, começa a se estabilizar. A revista alemã Der Spiegel publicou matéria de capa no início deste ano, dizendo que em 2003, pela primeira vez, o número de novas estações construídas foi menor que no ano anterior.
O quadro, entretanto, vinha sendo de crescimento. Só nos últimos 4 anos, o número de estações eólicas duplicou na Alemanha. Hoje são 15 mil, gerando 14,6 Gigawatts para o país. E as empresas operadoras querem ainda quadruplicar este número, segundo a mesma revista. Até usinas eólicas em plataformas marítimas (offshore) já estão em construção.
A Alemanha, principal produtora e consumidora de energia eólica no mundo, tem dado grandes incentivos ao crescimento do setor, fundamentalmente por meio de renúncia fiscal. A soma total dos impostos deduzidos passa de 1 bilhão de euros, e pode chegar a 7 bilhões em 2019, segundo cálculos da própria indústria. A energia eólica já representa cerca de 70% dos investimentos públicos em energia de fontes renováveis. A lei de fomento às energias renováveis (EEG), aprovada em 2000, regulamentou uma série de privilégios ao setor, como a garantia de compra e o preço fixo acima do de mercado.
A questão em torno da energia dos ventos já é causa de disputas dentro da própria coalizão verde-vermelha que compõe o governo. Enquanto o ministro do Meio Ambiente, Jürgen Trittin, é um dos seus principais defensores, o seu colega de gabinete Wolfgang Clement, da Economia, opõe-se à implantação de novas usinas eólicas. Trittin, do Partido Verde, insiste na política de seu partido para aumentar a qualquer custo a infraestrutura energética de fontes renováveis, em detrimento de outras fontes "convencionais", como a nuclear. Hoje, as renováveis significam 8% de toda a geração elétrica da Alemanha, mas a meta oficial é aumentar esta participação para 12,5% até 2010 e 20% até 2020.
A decisão do governo alemão de abandonar progressivamente a energia nuclear provocou um problema. O país terá que substituir 25 Gigawatts de energia gerados pelas centrais nucleares. Fontes renováveis são as alternativas mais propostas como solução para esta tarefa, em oposição às fontes minerais, altamente poluidoras. E, dentre elas, a eletricidade gerada pela força do vento vinha despontando como mais vantajosa. Entretanto, a energia eólica está saindo mais cara do que econômica para os alemães.
Atualmente, na Alemanha, é mais rentável instalar estações eólicas do que operá-las ou distribuir sua energia. Isso ocorre porque o Estado também garante a compra e a distribuição de todo Watt gerado pelo vento, a preços fixos preestabelecidos quase três vezes mais altos que o de fontes convencionais. Não importa onde: se for construída uma usina eólica na Alemanha, as empresas de distribuição são obrigadas a integrá-la à rede elétrica.
Além dos prejuízos ao tesouro público, os adversários de Trittin alegam que a diminuição das emissões de CO2 - um dos principais motivos colocados para a adoção da energia eólica - na verdade não ocorrerá. O ministro do Meio Ambiente já planeja um sistema de cotas de emissão de CO2, que fixará tetos mensais de emissão para cada indústria ou central elétrica, e permitirá que as empresas liberando gás abaixo do limite negociem suas cotas excedentes umas com as outras.
O irônico é que os protestos da sociedade, que nas décadas de 1960-70 eram capitaneados pelos oposicionistas Verdes contra a energia nuclear, agora combatem um tipo de energia apoiado justamente pelos Verdes, que hoje estão no poder. Sobra para eles a inusitada acusação de agredir o meio ambiente. Mas, como estão na situação, apostam em políticas públicas para seus objetivos, dificultando a vida dos adversários. Já que a energia eólica ainda é cara, a solução seria diminuir a competitividade das concorrentes. Segundo a Der Spiegel, a estratégia dos Verdes é fazer subir o preço da energia convencional para que a energia eólica sobre como opção mais barata. E a revista alerta para o fato de que, em pouco tempo, essa política poderia provocar desemprego.
A energia eólica, chamada de "menina dos olhos" de Trittin, foi apresentada como tendo as vantagens da energia nuclear (autosuficiência energética, poluição zero) sem demandar tantos cuidados com segurança. No entanto, seus defensores minimizam as desvantagens, como a poluição visual - as torres chegam a encobrir a paisagem, principalmente nas áreas rurais, e piscam intensamente à noite -, a irregularidade na produção e o aumento dos preços das tarifas de energia, a médio prazo.
Especialistas ouvidos pela Der Spiegel prevêem subida de 10% nas contas de luz até 2010, em média 12,20 a mais para cada consumidor. O Ministério do Meio Ambiente diz que o número não passará de 1 ao mês. Mas algumas distribuidoras já começam a repassar esses custos de manutenção "preventiva" aos usuários. No final do ano passado, a operadora E.ON elevou suas tarifas em 10%, alegando aumento da carga de energia eólica nas redes. Quem vai pagar a conta, literalmente, são os consumidores.
Seja como for, a febre eólica alemã é de proporções faraônicas. O grande monumento à energia eólica está em Brunsbüttel, região da Baixa Saxônia. Ali, o governo ergueu um gigantesco rotor, batizado de Growian (Gross Wind Anlage) que, depois de gastar 90 milhões de marcos para ser construído, simplesmente não funciona. A maior ironia foi que a empresa mais capacitada para a obra e à qual foi confiada a construção foi o Centro de Pesquisas Nucleares de Jühlich.