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POLÍTICA

BRASIL NUCLEAR, ANO 11, NÚMERO 27, SET/OUT - 2004

Enriquecimento de urânio: Inspeções nucleares causam polêmica

Brasil resiste a pressões de agência nuclear da ONU para permitir acesso visual às ultracentrífugas de Resende

Há seis meses, o Brasil está envolvido em uma polêmica que levou a energia nuclear às manchetes dos jornais. Em abril, fomos acusados de impedir o trabalho dos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), braço nuclear da ONU, nas instalações da fábrica de enriquecimento de urânio que será inaugurada em Resende, no Estado do Rio de Janeiro. O país estaria impedindo o acesso visual às ultracentrífugas que realizam o processo, alegando proteção de segredos industriais. A acusação surgiu em matéria publicada pelo jornal americano The Washington Post, causando grande repercussão, que trouxe à tona questões antes adormecidas, como a soberania nacional e o caráter estratégico da tecnologia nuclear.

Na matéria, o jornal insinua que o Brasil poderia estar planejando fabricar armas nucleares, camuflando a intenção com um programa pacífico. No texto, especialistas de think tanks - centros de estudos privados - americanos pedem medidas enérgicas por parte do governo dos Estados Unidos para impedir que o Brasil inaugure a fábrica de enriquecimento ou, ao menos, insista para que o país permita as inspeções planejadas pela agência.

De acordo com os especialistas, permitir que o Brasil enriqueça urânio e restrinja a capacidade de inspeção da AIEA seria prejudicial aos esforços da entidade em impedir que Irã e Coréia do Norte tomem atitudes semelhantes. A iniciativa também seria contrária à intenção dos Estados Unidos de impedir a disseminação da tecnologia do enriquecimento de urânio. Em discurso no dia 11 de fevereiro, o presidente George W. Bush anunciou planos para impedir que países que não produzem combustível nuclear venham a fazê-lo, como uma forma de evitar a proliferação de material nuclear e a possibilidade de produção de armamentos. Em contrapartida, receberiam combustível para usinas nucleares dos países produtores a preço de mercado.

EUA pressionam Brasil para assinar protocolo adicional

Dias depois, o Departamento de Estado do governo americano conclamou o Brasil e a AIEA a trabalharem juntos para assegurar a plena implementação do acordo de salvaguardas nas instalações de enriquecimento de urânio em Resende. Adicionalmente, pediu que o Brasil rapidamente aderisse ao protocolo adicional da AIEA, o que permitiria a ampliação do escopo das inspeções da agência, tornando-as mais abrangentes e intrusivas.

A postura do governo brasileiro - através dos ministérios das Relações Exteriores e da Ciência e Tecnologia - tem sido a de reafirmar o direito do país de proteger seus segredos industriais - o que é permitido pelos acordos de salvaguardas assinados com a AIEA - e, portanto, de não permitir inspeções visuais às ultracentrífugas de Resende, já que trata-se de tecnologia de ultracentrifugação inovadora desenvolvida pelo país. O governo também alega que o Brasil cumpre todas as obrigações assumidas nos acordos internacionais dos quais é signatário e que todas as atividades nucleares nacionais são submetidas à fiscalização da agência.

Quanto ao protocolo adicional, o ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos, tem afirmado que o tema não está na pauta do governo brasileiro e que o momento certo para tomar uma decisão será em junho de 2005, quando se realizará a 6a Conferência de Revisão do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP), em local ainda não definido.

Em junho, em entrevista ao jornal O Globo, o diretor-geral da AIEA, Mohamed El-Baradei, afirmou que a agência faz questão de ver as ultracentrífugas de Resende para assegurar que o Brasil está cumprindo seus compromissos de não-proliferação nuclear. Ele disse ainda que esta é a forma sob a qual as inspeções são feitas no mundo inteiro e que o Brasil não será exceção.

Entretanto, no final de setembro o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) divulgou que o Brasil estaria próximo de chegar a um denominador comum com a AIEA em relação às inspeções da fábrica de enriquecimento que permitisse ao país proteger seus segredos tecnológicos. A agência, por sua vez, declarou que, apesar de ainda existirem divergências, houve progresso e informou que uma equipe de técnicos chegará ao Brasil em meados de outubro para avaliar os possíveis métodos de inspeção da unidade.

Inspeções visuais não são necessárias

De acordo com Odair Dias Gonçalves, presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) - responsável pela negociação direta com a AIEA -, as divergências entre o Brasil e a agência são parte do processo natural de negociação de quando se inaugura uma nova instalação nuclear. Para cada projeto desta natureza devem ser negociados os enfoques de salvaguardas que serão aplicados.

- A negociação ainda está em aberto. Mas a nossa disposição é que se mantenham os painéis que cobrem as ultracentrífugas, de forma a proteger nossa propriedade industrial, como sempre ocorreu na unidade de Aramar, da Marinha, que há anos é inspecionada pela AIEA - afirma, citando o centro de pesquisas que desenvolveu a tecnologia de enriquecimento brasileira.

No caso de Resende, há concordância em vários aspectos entre a Cnen, a Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (Abacc) - que também inspeciona as instalações nucleares brasileiras como parte de acordo assinado entre os dois países - e a AIEA. O controle e a verificação do material nuclear que entra e sai da unidade estão praticamente acordados. O único ponto em que não se chegou a um acerto é que o Brasil acha possível aplicar as salvaguardas necessárias sem que haja acesso visual dos inspetores a toda a instalação - mais especificamente, às ultracentrífugas.

- A agência alega que a inspeção visual é necessária para assegurar que não haja acúmulo de material dentro do hall das cascatas. Nós achamos que é possível aplicar salvaguardas eficientes sem a inspeção visual. A Abacc aceitou sem qualquer problema os termos que estabelecemos para as inspeções, com a presença de painéis protegendo as centrífugas. Oferecemos medidas que compensam em muito a falta de inspeção visual - explica o coordenador-geral de Cooperação e Intercâmbio da Cnen, Laércio Vinhas.

Os inspetores da AIEA poderão fazer amostragens ambientais no hall das cascatas que permitiriam detectar partículas microscópicas de urânio e determinar seu grau de enriquecimento. Também poderão realizar ensaios não-destrutivos com detectores de nêutrons e de raios gama. Haverá ainda um sistema de vigilância, com câmeras operando 24 horas, que controla tudo e todos que entram e saem do estabelecimento. Por último, todo o urânio utilizado no processo será auditado pela agência, ou seja, a quantidade de material que entra nas ultracentrífugas tem que ser igual ao que sai.

Outra divergência é que a Cnen quer negociar as inspeções apenas para o primeiro módulo de cascatas - considerado pela comissão como uma planta comercial de pequeno porte -, enquanto a agência quer um acordo genérico para toda a fábrica. A unidade de Resende terá vários módulos, com várias cascatas, contendo inúmeras ultracentrífugas. Como a Marinha continuamente acrescenta inovações ao projeto, as máquinas que serão instaladas nos últimos módulos não serão iguais às do primeiro e terão características diferentes. Por isso, a Cnen quer negociar os módulos por partes.

Brasil precisa proteger tecnologia nacional

Vinhas afirma que a recusa do Brasil de permitir inspeções visuais se justifica, pois a nossa tecnologia contém elementos de projeto inovadores. "Ela certamente consome menos energia do que outras ultracentrífugas. Isso pôde ser constatado pelos inspetores da própria agência, que já chegaram a afirmar que o nosso hall de cascatas é o mais silencioso que eles já viram", destaca, acrescentando que a vantagem decorre do eixo funcionar com levitação magnética, reduzindo o atrito entre as partes fixas e móveis. Adicionalmente, a tecnologia de enriquecimento de urânio por ultracentrifugação é bem mais eficiente que a difusão gasosa, utilizada em países como Estados Unidos e França.

Em sua opinião, é absurdo comparar o Brasil com países como Irã e Coréia do Norte, pois são casos completamente distintos. "Estas são nações que desenvolveram atividades nucleares não-declaradas, infringindo acordos de salvaguardas e compromissos que tinham assinado. É muito diferente de uma discussão normal de enfoque de salvaguardas em uma instalação que, desde a assinatura do contrato entre INB e Marinha, é conhecida pela AIEA", frisa.

A postura do governo brasileiro é aprovada pelo professor do programa de engenharia nuclear do Instituto Militar de Engenharia (IME), Rex Nazaré Alves. Ele ressalta que o país precisa defender sua tecnologia de enriquecimento de urânio das pressões externas. "Não importa se ela é melhor ou pior que as outras, é a que temos. Por isso, precisamos defendê-la", destaca, acrescentando que o regime de inspeções atual é suficiente para garantir que não haja proliferação de materiais nucleares, não sendo necessária a inspeção visual das ultracentrífugas.

Nazaré, que também é assessor especial do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, concorda que não se pode desconfiar do programa nuclear brasileiro. "O Brasil é signatário do TNP e do Tratado de Tlatelolco, que estabelece uma zona livre de armas nucleares na América Latina e Caribe. É ainda o único país do mundo a incluir em sua Constituição que o desenvolvimento nuclear será totalmente para fins pacíficos. Além disso, tem todas as suas instalações nucleares, inclusive as militares, sob inspeção, não deixando a menor dúvida sobre as intenções nacionais", comenta.

Protocolo adicional tem que ser negociado

Em relação ao protocolo adicional, o presidente da Cnen, Odair Gonçalves, afirma que representa uma mudança de mentalidade da política de salvaguardas nucleares, pois pressupõe uma desconfiança em relação às atividades declaradas pelos países e permite inspeções muito mais intrusivas por parte da agência.

- A mudança aconteceu devido aos problemas da AIEA com os programas nucleares de Iraque e Coréia do Norte. Bom, nós não somos nem um, nem outro, e não podemos ser tratados como tais. Achamos que ainda há muita coisa a ser feita dentro do escopo do próprio TNP, antes de se introduzir mais um documento. De qualquer forma, estamos postergando esta discussão para depois da revisão do TNP, que ocorrerá em 2005 - ressalta Gonçalves.

Para Laércio Vinhas, o protocolo não pode ser discutido apenas em termos de não-proliferação, mas também, no contexto dos objetivos de desarmamento das nações nuclearmente armadas. "As potências nucleares precisam cumprir o que acordaram no TNP. Estes esforços têm se desenvolvido de maneira extremamente morosa", destaca.

Ele esclarece que o protocolo adicional em nada tem a ver com as inspeções visuais das ultracentrífugas - que estão sendo negociadas dentro do escopo do acordo quadripartite entre Brasil, Argentina, Abacc e AIEA -, nem com o TNP, como chegou a ser mencionado nos jornais e noticiários. Trata-se de um protocolo adicional aos acordos de salvaguardas da agência.

Caso o Brasil assine o documento, a AIEA terá acesso a um maior volume de informações e a instalações que não estão incluídas no escopo do acordo de salvaguardas que a agência tem com o país. A justificativa é garantir que não haja desvio de materiais nucleares e atividades e materiais não-declarados.

O governo seria obrigado a fornecer informações sobre atividades de pesquisa nuclear e de áreas correlatas, mesmo que não envolvam materiais nucleares, como, por exemplo, lasers de potência. Não se trata de uma tecnologia nuclear, mas poderia eventualmente ser utilizada no processo de enriquecimento de urânio por laser. O acesso estaria garantido até às universidades que realizam estas pesquisas. Também estariam incluídas quaisquer pesquisas que possam estar relacionadas ao ciclo do combustível, como o desenvolvimento de ligas de zircônio utilizadas para encamisar o elemento combustível.

O país teria ainda que fornecer informações sobre instituições que fabricam materiais não-nucleares, mas que estão relacionadas de alguma forma com o setor, como fábricas que produzem partes para as ultracentrífugas. As atividades de todos os prédios circunvizinhos às instituições nucleares também seriam monitoradas.

Rex Nazaré afirma que há uma tendência dos países que usam a energia nuclear de assinar o protocolo adicional aos acordos de salvaguardas da AIEA. Entretanto, ressalta que cabe a cada uma das partes buscar a garantia dos seus interesses e o resguardo de sua tecnologia. "A assinatura ou não do documento depende de muita negociação. Tem que se procurar o espaço para assegurar o desenvolvimento tecnológico autônomo do setor nuclear", conclui.

Urânio tem papel estratégico para o Brasil

O Brasil tem apenas duas usinas nucleares em operação, além de uma terceira com as obras paralisadas. Porém, o país é dono da 6a maior reserva de urânio do mundo - podendo em breve subir para a 3a posição -, com apenas cerca de um terço do território prospectado. O que fazer com este enorme potencial? Quais são as possibilidades de utilização do urânio? Quais as perspectivas da energia nuclear no futuro do país?

Análise feita pelo Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC) e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), entre outros, prevê que a geração nuclear poderá aumentar em 250% até 2030, o equivalente a 27% da geração energética total no mundo. Até 2050, a energia nuclear quadruplicaria sua produção. Os dados fazem parte da estimativa média do relatório, que leva em conta a energia total necessária para melhorar o padrão de vida de uma população global crescente, além de contabilizar o esgotamento progressivo dos combustíveis fósseis.

Na opinião de Laércio Vinhas, coordenador-geral de Cooperação e Intercâmbio da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), a geração nuclear pode ter um importante papel na complementação do sistema elétrico brasileiro, no qual a energia hidrelétrica representa 87,6% da potência instalada, segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Embora ainda tenhamos potencial hídrico bastante significativo, a construção de hidrelétricas requer o alagamento de grandes áreas que poderiam ser utilizadas para outras finalidades, como a agricultura. Além disso, a geração hidráulica é altamente dependente do regime de chuvas, como pudemos sentir durante o racionamento de energia em 2001 e 2002.

- É preciso haver complementaridade térmica. Inegavelmente, a energia nuclear é a única que permite a geração de grandes blocos de energia. O gás seria concorrente, mas deveríamos ter nossas próprias reservas. Não me parece adequado montar uma matriz energética em cima de combustíveis importados. As energias eólica e solar são apenas pontuais, não são capazes de movimentar um parque industrial. O Brasil deverá retomar o investimento em energia nuclear a médio e longo prazo, por isso, o urânio é estratégico para o país - destaca Vinhas.

Hidrogênio: combustível do futuro

O urânio também poderá assumir papel importante na chamada economia do hidrogênio, que especialistas prevêem substituirá o petróleo como principal combustível da humanidade em um futuro não muito distante. De acordo com estudos, o mundo poderá alcançar o pico da produção de petróleo dentro dos próximos dez a trinta anos. A partir daí, a disponibilidade diminuirá e o preço tenderá a subir cada vez mais. Adicionalmente, a principal região produtora do mundo, o Oriente Médio, é altamente instável politicamente, o que torna o preço deste insumo sujeito a grandes variações.

Considerado como a provável alternativa, o hidrogênio não está disponível em sua forma livre na natureza e precisa ser produzido através de uma fonte geradora de energia elétrica. As principais fontes hoje continuam a ser o carvão, a hidroeletricidade, a energia nuclear e o gás.

- Destas, apenas as energias hidráulica e nuclear não produzem CO2 e outros gases causadores do efeito estufa, o maior problema a ameaçar o meio ambiente do planeta. Por isso, são as duas únicas formas de produzir hidrogênio sem contribuir para o aumento do aquecimento global. Porém, poucos países contam com potencial hidrelétrico. Mesmo no Brasil, este potencial está, em sua maior parte, na Amazônia, o que aumenta significativamente o impacto ambiental dos projetos - explica o professor de engenharia nuclear do Instituto Militar de Engenharia (IME), Rex Nazaré Alves.

Nuclear = energia + tecnologia

Por isso, alguns países já pesquisam o uso de usinas nucleares para esta finalidade. No final do ano passado, o Senado americano aprovou recursos para a construção do primeiro reator nuclear experimental de geração de energia elétrica e produção de hidrogênio, que deverá entrar em operação até 2010. O projeto custará cerca de US$ 1 bilhão. Os Estados Unidos também selaram acordo de cooperação com a Coréia do Sul para desenvolver tecnologias de produção de hidrogênio a partir de reatores nucleares.

Além do acordo com os EUA, os coreanos anunciaram que pretendem usar seus reatores nucleares avançados para produzir hidrogênio, com o objetivo de reduzir em 20% a dependência do país em combustíveis fósseis para transporte. O governo pretende gastar o equivalente a US$ 843 milhões para criar uma fonte supridora de hidrogênio a partir de usinas nucleares até 2019. O país também criou, em parceria com a China, um centro de estudos para desenvolver tecnologias de produção de hidrogênio através da energia nuclear, que funciona na Universidade de Qinghua, em Pequim, capital chinesa.

Para Rex Nazaré, investir em energia nuclear contribui para impulsionar o desenvolvimento do nosso país e ajuda a reduzir as desigualdades. "O Brasil precisa ter um compromisso com o seu futuro. Este compromisso passa necessariamente pela redução das desigualdades, o que jamais será alcançado sem energia e tecnologia. Precisamos investir em energia nuclear, como também na área espacial, em fármacos, alimentos, tudo de forma independente, buscando cooperações quando for do interesse nacional", enfatiza.

Opinião

Na segunda semana de setembro, a revista "Época" publicou matéria denunciando dois incidentes ocorridos na unidade de Caetité das Indústrias Nucleares do Brasil (INB). No primeiro caso, a revista acusa a INB de permitir que lama contaminada com urânio transbordasse de uma barragem de contenção e atingisse um riacho que irriga pastagens das fazendas locais. E, ainda, de um outro acidente que teria causado a contaminação de um operário com concentrado de urânio.

O transbordamento ocorreu devido à ocorrência das maiores chuvas registradas na região nos últimos anos. E, como a própria revista noticiou, a inspeção realizada pelo Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD) constatou que os índices de radioatividade estavam dentro dos limites aceitáveis pelas normas da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). Isso significa que a lama transbordada continha apenas quantidade residual de urânio natural, que não apresenta grau de radioatividade significativo e é insuficiente para causar qualquer tipo de dano à população, aos animais ou ao meio ambiente.

Quanto ao segundo caso, o operário - apesar de usar as roupas de segurança adequadas para o serviço - entrou em contato com pequena quantidade de yellowcake, um concentrado de urânio natural, de baixa radioatividade, que pode ser removido com um simples banho, o que foi feito na ocasião. E, como também atesta o relatório do IRD, o empregado burlou uma medida de segurança ao não tomar um segundo banho requerido pelo técnico de proteção radiológica para remover partículas quase microscópicas do concentrado, atitude pela qual foi advertido. Entretanto, estas partículas não são capazes de causar danos ao próprio trabalhador, muito menos a outros indivíduos ou ao meio ambiente.

Não é a primeira vez que acusações desta natureza surgem no momento em que importantes decisões relativas ao futuro da energia nuclear no Brasil são tomadas. Coincidentemente, a matéria foi veiculada na mesma semana de dois eventos de suma importância para o setor. O primeiro é a reunião de integrantes do governo com o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), da ONU, para discutir a realização de inspeções intrusivas às ultracentrífugas da fábrica de enriquecimento de urânio da INB, às quais o Brasil se opõe. O segundo é o início da produção de urânio enriquecido na unidade industrial da INB em Resende.

Mais preocupante ainda é o vazamento de informações por parte de alguns indivíduos, que, apesar de fazerem parte do IRD, não podem ser considerados membros da comunidade nuclear. São indivíduos que, a troco de vantagens pessoais, buscam interesses exógenos ao setor e almejam denegrir sua imagem. Ao ter este comportamento, lesam os interesses do próprio país e beneficiam aqueles que querem impedir nosso desenvolvimento tecnológico. As informações contidas no relatório sobre os incidentes em Caetité devem ser utilizadas com responsabilidade e seriedade e não estar sujeitas a um tratamento sensacionalista, como ocorreu neste episódio.

Pressão sobre programa nuclear brasileiro visaria
cercear desenvolvimento tecnológico

Para o professor de Relações Internacionais do Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos (Cebres), Jorge Calvário dos Santos, a pressão sofrida pelo Brasil para permitir inspeções cada vez mais intrusivas em suas instalações nucleares tem o intuito de cercear o desenvolvimento tecnológico brasileiro no setor.

Calvário afirma que o regime de não-proliferação de armas nucleares, cujo principal ator é a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), deveria ser uma garantia de segurança para todas as nações. Entretanto, não está havendo um tratamento igualitário entre as partes, na medida em que as inspeções, cada vez mais intrusivas, são exigidas apenas dos países que não detêm tecnologia nuclear para fins bélicos. Os países nuclearmente armados são objeto apenas de inspeções voluntárias, cujos termos são previamente negociados. Além disso, estes países pouco têm feito para se desarmar, como está previsto no Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP).

- Uns estão acima da lei, formulada por eles próprios em nome de todos, e outros têm que cumpri-la. Se você aceita esta desigualdade, cria uma relação de submissão. Se as inspeções não contemplam igualmente a todos, então perdem seu sentido. Os acordos internacionais devem respeitar o direito de autodeterminação dos países e tratá-los de forma igualitária. Brasil e Argentina, por exemplo, têm acordos de controle de materiais nucleares e de inspeções mútuas que estabelecem uma relação de paridade e confiança entre ambas as partes - afirma.

Em sua opinião, a maior prova das intenções pacíficas do programa nuclear brasileiro é o fato de a Constituição proibir o uso bélico da tecnologia nuclear. "Os que pressionam o Brasil a aceitar regras mais rígidas são exatamente aqueles que já fizeram mau uso da energia nuclear", lembra.

Medidas restritivas criam monopólio nuclear

Segundo o professor, as pressões exercidas sobre os países periféricos, na verdade, buscam cercear o desenvolvimento na área nuclear, contribuindo para aumentar ainda mais a desigualdade tecnológica que já existe. A energia nuclear é de extrema importância, tendo aplicações não só na geração energética, mas também na saúde, na agricultura e na indústria, entre outras áreas. Ao aceitar medidas cada vez mais restritivas, contribuímos para que se crie um monopólio da tecnologia nuclear na mão de poucos países, o que serve para aumentar seu cinturão de poder e riqueza, às custas das demais nações. Conseqüentemente, isto consolida o monopólio das decisões fundamentais dos interesses mundiais.

Ele explica que a tentativa dos países centrais de restringir o acesso à energia nuclear se encaixa num contexto maior de cerceamento do acesso à ciência e tecnologia de uma forma geral, que pode ser verificado especialmente em áreas de tecnologia de ponta, como a aeroespacial, a biotecnologia e a nanotecnologia.

Um exemplo é a lei internacional de patentes, da qual o Brasil foi o terceiro país a ratificar. Antes, a legislação protegia o processo; agora, porém, protege o produto. Desta forma, mesmo que uma empresa desenvolva procedimentos próprios para fabricar um determinado produto, ela estará proibida por lei de fazê-lo. - Tal legislação protege o monopólio do conhecimento científico e tecnológico dos países centrais. Tudo que restringe a área de C&T proporciona o monopólio do saber e do comércio e, conseqüentemente, da educação e do desenvolvimento. Ao aceitar o cerceamento, você inibe sua própria evolução. Se você cede um pouco, adiante terá que ceder mais, até não restar nada. Isto vem acontecendo em várias áreas. É uma teia que se fecha e, certamente, não acontece por acidente - enfatiza o pesquisador.

Controlar para inibir desenvolvimento alheio

Calvário ressalta que a História explica este fenômeno de dominação. Trata-se de um processo - que ele chama de dialética da cultura - inerente às culturas que, em dado momento, se tornam hegemônicas. Ao longo do tempo, uma cultura sucede à outra como predominante. Primeiro, vivemos o apogeu da cultura judaica, que foi superada pela greco-romana e assim por diante, até chegarmos à anglo-saxônica, que, hoje, é hegemônica em nossa sociedade. Em um certo momento, quando completa sua evolução e atinge o auge, se transforma em civilização, o que ocorre quando outras culturas passam a orbitar em torno de si, se tornando suas vertentes. Isto é o que vemos na atualidade com a cultura anglo-saxônica, cujo principal expoente são os Estados Unidos.

O capitalismo é o modo de produção da cultura anglo-saxônica e vem se constituindo desde a Idade Média. "Hoje, todos querem ser capitalistas, o que não é possível, pois ele está calcado na desigualdade entre as nações. A civilização dominante sabe seu poder de mando, de ordenação, e busca a manutenção do status quo e a satisfação de suas necessidades. Então, determina aos outros as regras de convivência, garantindo a defesa de seus interesses", analisa o professor.

Ele acrescenta que, após a chegada do auge, entretanto, virá o declínio e esta civilização será superada. Mas ela não aceita isso. Tenta se convencer de que é o ápice da evolução humana e que nenhuma outra civilização melhor pode surgir. Em relação à sociedade estadunidense, esta noção fica explícita no livro "O Fim da História e o Último Homem", do sociólogo Francis Fukuyama. Na obra, ele prevê, com a queda do comunismo, o nascimento de uma nova ordem mundial, marcada pela harmonia e estabilidade, sob a égide do capitalismo norte-americano, que marcaria o auge da evolução de nossa sociedade. Ou seja, teríamos atingido o fim da História, pois não haveria mais para onde evoluir.

Na condição de potência dominante, se projetam geograficamente para o mundo, de modo a garantir o atendimento de suas necessidades e num esforço de perpetuar sua posição hegemônica. É o que vemos hoje, com a presença física e política dos Estados Unidos em todos os cantos do globo.

- Neste processo, utilizam todos os instrumentos disponíveis para impedir que outras culturas e países se desenvolvam, pois se ninguém mais evoluir, eles se mantêm no poder. Os organismos multilaterais são ferramentas-chave na defesa de seus interesses, ainda que de alguma forma atendam parte das reivindicações dos países periféricos, para justificar sua política. Pressionam para controlar, controlam para inibir o desenvolvimento alheio - conclui Jorge Calvário.

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