ANO 15 - NO. 04 - 04 DE FEVEREIRO DE 2010
Recursos humanos podem se tornar entrave para expansão do programa nuclear
A falta de uma política integrada de recursos humanos pode se tornar um entrave para a expansão do Programa Nuclear Brasileiro (PNB). Quem afirma é o vice-diretor da Coppe-UFRJ, Aquilino Senra. Em sua opinião, se não forem tomadas medidas para formar e contratar profissionais e para haver uma renovação dos quadros do setor, existe o risco de não haver mão de obra qualificada necessária para levar o PNB à frente.
Senra – que também é professor da pós-graduação em engenharia nuclear da Coppe-UFRJ – diz ser necessária uma coordenação centralizada para a formação de recursos humanos no setor. “Eu não vejo isso acontecendo. Hoje, cada instituição faz seu levantamento de quantos profissionais estão em atividade, quantos vão se aposentar e qual será a necessidade futura. Mas não há um mapeamento que englobe todo o setor. Isso é necessário para se planejar o programa nuclear a longo prazo. Não se pode apenas fazer investimentos em grandes obras e achar que a formação de recursos humanos se resolverá por conta própria. Falta dar prioridade a esse tema”, analisa.
Programas nesses moldes foram importantes para o desenvolvimento do setor nuclear. Um exemplo foi o Pronuclear, realizado entre 1976 e 1986, sob a coordenação da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), que proporcionou a formação de um contingente significativo de técnicos, mestres e doutores.
Nas últimas duas décadas, devido à estagnação do setor, houve uma baixa demanda por profissionais na área nuclear. Mas agora o cenário mudou, e a expectativa é de crescimento. O Plano Nacional de Energia 2030 prevê a construção de, no mínimo, mais quatro usinas nucleares no país. A Eletronuclear já iniciou os estudos para a escolha do local que sediará a central nuclear do Nordeste. A empresa também deve iniciar o processo para escolher o sítio de uma nova central no Sudeste ainda nesse ano.
Além disso, a estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) planeja ampliar suas atividades para atender a Angra 3 e às novas usinas previstas pelo governo federal e alcançar a autossuficiência na produção de combustível nuclear. Isso inclui a abertura de uma nova mina de urânio em Santa Quitéria, no Ceará, e a duplicação da capacidade produtiva da mina de Caetité, na Bahia.
As aplicações da energia nuclear em áreas como medicina, agricultura e indústria também estão em ascensão. Para se ter uma ideia, por ano, 3,5 milhões de procedimentos de medicina nuclear são realizados no Brasil. Apesar de bastante significativo, esse número ainda é pequeno para o tamanho da população brasileira, e a tendência é que aumente progressivamente.
Senra frisa que o setor precisava ter se preparado para atender a essa demanda há mais tempo. “A tendência é que a necessidade por mão de obra qualificada aumente. O problema é que não se forma um profissional no setor nuclear da noite para o dia. Um engenheiro nuclear, por exemplo, precisa de cinco anos na graduação, dois no mestrado e, no mínimo, mais um ano e meio de treinamento na empresa para alcançar uma formação adequada”, explica.
Com o objetivo de reduzir esse tempo, a UFRJ criou o primeiro curso de graduação em engenharia nuclear do país em 2009. A intenção é que o profissional já tenha um preparo adequado para trabalhar no setor ao sair da graduação.
Profissional disputado no mercado
De acordo com Senra, outro fator problemático é que o técnico do setor nuclear também é disputado por outras áreas. Ele afirma que existe hoje uma demanda muito grande por profissionais qualificados em áreas como petróleo e gás, mineração e aeronáutica, que estão em plena expansão. Como os técnicos do setor apresentam uma formação sólida, devido à complexidade e às exigências de segurança da tecnologia nuclear, eles têm espaço nesses mercados.
Isso significa que uma empresa do setor nuclear terá que disputar um engenheiro nuclear com a iniciativa privada, que tem como vantagem a facilidade para fazer contratações, pois não precisa realizar concursos públicos. A competição por esses profissionais também acontecerá com outros órgãos e empresas públicas como a Petrobras, que absorve uma grande quantidade de engenheiros e geólogos, por exemplo. Além disso, há concorrência externa, pois a energia nuclear vive um renascimento em outras partes do mundo, e a carência de profissionais no setor é um problema mundial.
Dessa forma, é preciso criar mecanismos para atrair jovens ao setor nuclear. Senra cita como exemplo a criação de bolsas diferenciadas para formação de engenheiros nucleares e de um programa de fixação de pessoal nas empresas, órgãos e institutos de pesquisa do setor. “Não basta formar, é preciso criar condições para o profissional permanecer na área nuclear. A concorrência é grande. Se não houver salários competitivos e políticas de valorização do profissional, essa tarefa se tornará ainda mais difícil”, destaca.
Para o professor, os concursos públicos também precisam sofrer mudanças. “Eles são falhos porque, na maioria das vezes, não privilegiam a experiência prévia do profissional. Por isso, um astrônomo pode ser aprovado para o cargo de operador de usina nuclear ao invés de um engenheiro nuclear, que tem formação adequada para exercer essa função”, comenta o vice-diretor da Coppe-UFRJ.
Outro problema do concurso público, na opinião de Senra, é que ele acaba permitindo que aposentados do setor nuclear voltem a trabalhar em outras instituições da área. Isso ocorre com bastante frequência, e acaba dificultando a renovação dos quadros. “É preciso criar formas de garantir a entrada de novos profissionais no setor. A renovação é fundamental para o futuro do Programa Nuclear Brasileiro. Se essa e as outras questões de recursos humanos não forem resolvidas, corremos o risco de ser obrigados a internacionalizar projetos no futuro por falta de mão de obra qualificada”, alerta o professor.
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